«I struggled with some demons/They were middle-class and tame» (Leonard Cohen) | setadespedida@yahoo.co.uk

sábado, 10 de novembro de 2007


Admito que também gostei bastante deste relato. O que mais me interessou neste texto não foram propriamente as reflexões de Agustina sobre literatura e o que é o desejo da escrita (lugares-comuns como lutar com o anjo, como Jacob, e ficar com um aleijão, ou «entrar no coração das pessoas e beber-lhes o sangue», p. 74), mas os objectos e as pessoas com que a escritora se foi relacionando ao longo da vida e as descrições aparentemente inofensivas da existência nas diversas casas por que Agustina foi passando.
Objectos tão vulgares como o casaquinho de veludo preto da avó Justina (p. 20), o tapete de leão no quarto da mãe (p. 70), os vestidos que usava, o delicioso «chapéu das fitas a voar» («[A minha avó] Deu-me um chapéu caríssimo, de feltro branco com fitas que, ao voar, me causavam prazer. ‘O chapéu das fitas a voar' parece um nome para um livro que eu, qualquer dia, escrevo.», p. 45), as bonecas nas montras das lojas da Holanda, de preferência à Rapariga com Brinco de Pérola, de Vermeer (p. 60).
Pessoas como o pai, que «Dizia que eu podia ganhar milhões se escrevesse os segredos do mundo do jogo. Não com a publicação, mas porque me pagariam para não publicar o livro.» (p. 26). Como a mãe, uma daquelas «figuras de mulher assim, infelizes por espírito romanesco e que se arrependem a pretexto dos filhos e vão para casa bordar a branco e fazer compota.» (p. 56). Como as desconhecidas com quem trocava cartas («Não as considerava amigas, mas sim o pretexto para eu escrever mais e mais. ‘Eu não preciso de amigos, preciso de quem me leia.’», p. 67), ou Ferreira de Castro («dava-me conselhos como se retirasse do meu caminho pedras que eu gostava de pisar.», p. 73).
A dada altura, Agustina conta que leu muito jovem alguns livros considerados mais apropriados para adultos e ainda tentou penitenciar-se por estas leituras perante o seu confessor. Como este não lhes atribuiu grande importância, ela deixou de as confessar (p. 56). Parece-me às vezes que é precisamente nestas coisas, não confessadas porque subestimadas por todos os confessores, que aquilo a que costumamos chamar literatura pode estar.
Um dos momentos mais belos do livro é aquele em que Agustina conta como os pais se conheceram, aparentemente um episódio mundano insignificante, mas cheio de mal-entendidos deste género, ao ponto de haver nele não só literatura mas também cinema:
«Há uma cena num filme de Manoel de Oliveira, o Vale Abraão, em que um desconhecido, num restaurante lhe oferece um prato de figos. Foi assim que o meu pai abordou a jovem Laura, que estava vestida de preto, não por luto mas por promessa. […] Meu pai julgou que a jovem Laura do hotel de Entre-os-Rios era viúva. Como Byron, não gostava de meninas em flor, provavelmente porque são cheias de surpresas […].» (p. 37).

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