Animais Domésticos

«But probably, man didn’t live long enough on the earth without discovering the convenience which there is in a house, the domestic comforts, which phrase may have originally signified the satisfactions of the house more than of the family» (Henry David Thoreau) | setadespedida@yahoo.co.uk

domingo, 31 de julho de 2016

O Cinéfilo Preguiçoso em Julho




31.7.2016 Uma Pastelaria em Tóquio (real. Naomi Kawase, 2015)

 
24.7.2016 Patience (After Sebald) (real. Grant Gee, 2012)

 
17.7.2016 Trespassing Bergman (real. Jane Magnusson e Hynek Pallas, 2013)

 
9.7.2016 Finding Vivian Maier (real. John Maloof e Charlie Siskel, 2013)

 
3.7.2016 Amor e Amizade  (real. Whit Stillman, 2016)

 
[O Cinéfilo Preguiçoso regressará em Setembro. Boas férias para todos.]


terça-feira, 26 de julho de 2016

Podcasts de Verão


Quando está muito calor, ouço podcasts, por se tratar de uma atividade que exige um esforço físico mínimo. (Embora se possa ouvi-los enquanto se faz outras coisas – conduzir, cozinhar, trabalhar, etc.)

Em vez da lista tradicional com sugestões de leituras de Verão, numa noite em que não conseguia dormir lembrei-me de fazer uma lista com os episódios de que mais gostei durante o primeiro semestre de 2016.

Diga-se de passagem que não é uma lista muito representativa. Enquanto ouvinte, procuro principalmente temas que me interessam (livros, artes visuais, cinema e música) e não conheço bem programas sobre outros temas, embora acredite que possa haver coisas interessantes.

Entre os podcasts sobre os temas referidos, costumo preferir aqueles que me inspiram ideias novas ou me deixam a pensar de modo diferente sobre assuntos em que já penso habitualmente. Além disso, prefiro podcasts com conversas bem preparadas (isto é, que não se reduzem a tagarelice bem-disposta – para isso já temos as conversas de todos os dias ou até posts como este). Um monólogo inicial sobre assuntos variados (como em Entitled Opinions, Other People with Brad Listi ou The Bret Easton Ellis Podcast) pode funcionar bem.

Ouço de vez em quando um podcast português (Biblioteca de Bolso, graças ao qual foi possível ter acesso a esta conversa excelente com Gonçalo M. Tavares). Não sigo outros podcasts portugueses – não por partir do princípio de que não prestam, mas por ainda não conhecer bem o que existe. (É mais fácil encontrar recomendações sobre podcasts estrangeiros, pelo menos nas publicações que costumo ler.)

Às vezes, alguns podcasts surpreendem-nos. Não basta termos um entrevistador inteligente e culto a conversar com alguém excepcional. Com frequência, alguém que pensávamos ser um pouco superficial diz coisas inesquecíveis, enquanto uma pessoa que admiramos nos faz dormir. Já ouvi entrevistas apaixonantes com escritores que não tenho vontade de ler e conversas para esquecer com autores que admiro. O episódio em que Robert Harrison entrevista Marylinne Robinson é penoso, mas ninguém que tenha lido algum livro da autora duvidará de que ela é um dos maiores escritores americanos de sempre. Em contraste, Alain de Botton é um escritor sofrível, mas tem uma conversa interessantíssima com Debbie Millman no podcast Design Matters.

Em contrapartida, até ao momento ainda não ouvi uma única entrevista com o compositor Nico Muhly que tenha achado desinteressante; gosto do que compõe e do que diz.
 
 
Ver faixa Doublespeak.

 
Duas conversas inspiradoras com Nico Muhly:

- A Phone Call from Paul (primeira parte, segunda).
 

Conversas interessantes com escritores que conheço mal e ainda não tenho vontade de conhecer mais a fundo:

- Eileen Myles (poeta);

- Max Porter (autor de Grief Is the Thing with Feathers);

- Lina Meruane (autora de Seeing Red).
 
 
Village of the Damned, de John Carpenter (1995)
 

Conversas divertidas com realizadores de que gosto:



 
 
Frock, Patrícia Treib
 

Discussões inteligentes sobre temas em que costumo pensar:



- o que publicar numa revista (neste caso, de música).
 

Em suma, no universo dos podcasts são possíveis pelo menos estas hipóteses: pessoas maravilhosas que não dizem coisas interessantes; pessoas desinteressantes que dizem coisas maravilhosas; pessoas geniais que dizem coisas geniais; pessoas banais que só dizem banalidades; pessoas que não conhecemos mas ficamos com vontade conhecer; pessoas que não conhecemos nem queremos conhecer. (Há mais variações, mas estas já dão uma ideia.)
Ainda assim, é sempre bom estarmos atentos ao que os outros têm para dizer. Também assim se aprende a pensar e a viver.
 


terça-feira, 12 de julho de 2016

Valeria Bruni-Tedeschi



Vejo uma curta-metragem de uma escola de cinema que tem como prtagonistas uma Valeria Bruni-Tedeschi e uma Emanuelle Devos ainda adolescentes ou pelo menos muito jovens.

Emanuelle Devos continua igual ao que era então. No filme, Valeria, no entanto, tem feições adolescentes, muito ameninadas e angelicais, mais ligeiras do que aquelas que a caracterizam agora. Surpreendentemente, no entanto, nessa altura adoptava uma voz mais grave e pausada do que nos filmes mais recentes, onde fala mais depressa e de modo mais juvenil e apalhaçado.

Quando Valeria Bruni-Tedeschi era adolescente, fingia ter voz adulta. Na meia-idade, recupera a voz adolescente.

 

Impressoras

Alex Katz
 
 
Farto de problemas com o scanner, B. quer comprar uma impressora nova.
 
A impressora antiga tem cerca de dez anos. Durante esse período imprimi os diversos rascunhos das minhas teses de mestrado e doutoramento.
 
Quando esta impressora imprime, tem de se ficar junto a ela para evitar que encrave e/ou atire as páginas ao chão. Vou sentir falta das pausas em que mudava de centro de atenção, passsando de assuntos abstractos até às lágrimas para questões eminentemente práticas.
 
Com uma certa nostalgia, recordo os momentos em que, umas vezes em desespero, noutras secretamente aliviada, tive de, perante o olhar pouco impressionado dos gatos, parar de trabalhar para extrair do interior da máquina páginas amarfanhadas e manchadas de tinta, por vezes em pedacinhos arrancados com pinça.
 
 
Esta impressora, na verdade, equivalia a duas: quando comprámos a primeira, constatámos que o scanner deixava umas manchas pretas; a loja entregou-nos uma máquina nova, mas deixou-nos ficar com a primeira, que ainda hoje continua dentro de um armário, para recorrermos a ela em caso de emergência, se a segunda avariar. Quando a impressora nova chegar, B. deixa-me ficar com a segunda, mas teremos de nos livrar da primeira – da impressora secreta, arrumada no escuro, aquela que nos salvaria a vida, se fosse necessário.

 


Mange ta soupe





Depois de encomendar três livros na Amazon, desenvolvi e partilhei com B. o plano de cada um de nós identificar vinte e cinco livros dispensáveis, para depois nos livrarmos deles. O primeiro passo seria arranjarmos uma caixa.

B. disse que tínhamos de pensar também no que fazer com esta caixa; caso contrário, estaríamos apenas a mudar os livros de lugar.

A seguir, B. saiu para a Feira do Livro, onde comprou mais quatro livros.

 

Metáforas


Almofada (Timorous Beasties)



O professor de literatura diz que, afinal, o tópico principal do texto é «uma metáfora». Suponho que com isto tenta demonstrar que, não sendo sobre aquilo que é, o texto é melhor do que parece, melhor do que é.


 
 

Dar cabo da vida



«Dr Weiss, at forty, knew that her life had been ruined by literature.»
(A Start in Life, Anita Brookner)

 
 
Já me interroguei algumas vezes sobre como seria a minha vida se não me interessasse por ler.

Teria, sem dúvida, uma profissão diferente – não sei bem qual. (Agricultura? Bordados?)

Talvez até vivesse numa cidade diferente. Pensamento inquietante, seria possível, inclusivamente, residir numa aldeia – numa quinta em lugar isolado, protegida por cães grandes. Usaria chapéu e interessar-me-ia por culinária e botânica aplicada.

Parece-me também seguro dizer que teria mais tempo livre. Que faria então com esse tempo livre? Talvez frequentasse mais o cabeleireiro e até o ginásio. Talvez ir ao cabeleireiro e ao ginásio pudessem tornar-se os meus únicos desejos, as minhas preocupações mais queridas.

Se tivesse de escrever alguma coisa – um recado para o carteiro, um email de protesto a propósito de uma encomenda incompleta  – , não me incomodaria com as minhas frases mal construídas, mas fingiria sempre importar-me com as dos outros.
 

Seria saudável. Teria menos alergias.
 

 


domingo, 26 de junho de 2016

O Cinéfilo Preguiçoso em Junho


 
 
26.6.2016 Maggie Tem Um Plano (real. Rebecca Miller, 2015)

 
19.6.2016 L’Avenir (real. Mia Hansen-Løve, 2016)

 
12.6.2016 Listen Up Philip (real. Alex Ross Perry, 2014)

 
5.6.2016 Alexandre Nevsky  (real. Sergey Eisenstein e Dmitry Vassiliev, 1938)



domingo, 29 de maio de 2016

O Cinéfilo Preguiçoso em Maio



29.5.2016 Uma Nova Amiga (real. François Ozon, 2014)

 
22.5.2016 O Lobo de Wall Street (real. Martin Scorsese, 2013)

 
15.5.2016 Birdman (real. Alejandro G. Iñárritu, 2014)

 
8.5.2016 Cemitério do Esplendor (real. Apichatpong Weerasethakul, 2015)

 
1.5.2016 Le fils de Joseph  (real. Eugène Green, 2016)


terça-feira, 26 de abril de 2016

A chegar às livrarias

 
Imagem na capa: Portrait de Madame Ranson au chat, de Maurice Denis (cerca de 1892)


 
«O Museu Maurice Denis estava estranhamente deserto. Os guias seguiam Guy e Cristina à distância, fingiam que não reparavam neles, comunicavam entre si o paradeiro do casal de visitantes por meio de walkie-talkies, mostravam sinais exteriores de pânico quando eles invertiam a marcha ou se entregavam a qualquer acção um pouco mais inesperada (assoar o nariz, dar um nó no atacador). Cristina disfarçou o riso enquanto pôde, mas foi obrigada a refugiar-se na casa de banho.»
 
 
Alexandre Andrade. 2016. O Leão de Belfort. Lisboa: Relógio D'Água.
 
 

 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

O Cinéfilo Preguiçoso em Março e Abril

A Bigger Splash, David Hockney (1967)

 
25.4.2016 Innocence of Memories e L’Aquarium et la Nation (real. Grant Gee, 2015; real. Jean-Marie Straub, 2015)

 
16.4. 2016 Mergulho Profundo (real. Luca Guadagnino, 2015)

 
10.4.2016 Menina Else e La Ronde (real. Paul  Czinner, 1929; real. Max Ophüls, 1950)

 
3.4.2016 John From (real. João Nicolau, 2015)

 
20.3.2016 Le Plaisir (real. Max Ophüls, 1952)

 
13.3.2016 Walden (real. Jonas Mekas, 1969)

 
6.3.2016 Cavaleiro de Copas  (real. Terrence Malick, 2015)



sábado, 16 de abril de 2016

Links de Primavera



Nos Estados Unidos, Abril é o mês nacional da poesia. Esta efeméride foi criada em 1996 pela Academia Americana de Poetas, pelo que comemora o décimo aniversário em 2016. Devo ser a pessoa do planeta Terra que menos se interessa por efemérides e comemorações, mas gostei muito deste cartaz desenhado por Debbie Millman, que demonstra que as palavras podem ser imagens. Nem quero saber de onde vêm as citações usadas: são tão evocativas só por si.
 
 
PODCASTS
 

A mesma Debbie Millman é a responsável por um dos meus podcasts preferidos –  Design Matters –, onde, entre outros assuntos, se conversa sobre felicidade e a ausência de linearidade em certas vidas criativas.


 
Ainda sobre podcasts, duas conversas interessantes com Adam Phillips, a propósito do livro Unforbidden Pleasures, sobre o valor dos prazeres mais frequentes, mas também sobre outros temas:
 
uma conversa entre o autor a escritora Deborah Levy na casa-museu de Freud;
– um telefonema de Paul Holdengraber em duas partes: primeira; segunda.
 
Mais uma vez, devo ser a pessoa do planeta Terra com mais cepticismo em relação à psicanálise (posso justificar esta oposição de muitas maneiras, mas fica para outra altura), porém a cultura e a inteligência de Adam Phillips vão muito para além disso. Ganha-se sempre em ouvi-lo.
 
 

 
DOIS ARTIGOS INTERESSANTES
 


Foto: booksonthepark, via Instagram.


 
1. Edwin Frank é o fundador da excelente editora New York Review Books, que se distingue por recuperar clássicos esquecidos ou pouco conhecidos.  

Nesta entrevista à Paris Review há uma descrição excelente sobre como escolher livros (para ler ou para publicar):
«Fairly early on, I said what I wanted to do was mix things up. Something old, something new, something whatever color it is, and something blue. Then there’s the question of how you go about finding things. You have to be sort of open to surprise and at the same time assiduous in pursuing the things you’re really interested in. You have to be patient. And along the way, when you’re pursuing things you’re confident you want, other things may crop up.»
 
Encontramos igualmente uma definição breve e simples sobre o que faz um bom livro:
 «Good books revise your sense of what a good book can be.»
 
2. Também gosto muito do modo como Geoff Dyer ao mesmo tempo expressa ambivalência e admiração por Annie Dillard no prefácio do livro The Abundance.
 
 
 
CARTAZES, CAPAS DE DISCOS, ILUSTRAÇÕES
 




Cheguei a Craig Carry porque trabalha com músicos que costumo ouvir, como David Lang, This is the Kit, My Brightest Diamond, The National ou Aaron Dessner. Vale a pena explorar o site.
 
 
 CHÁS
 
 
A chuva continua. Se ao menos isso fosse bom para as alergias de Primavera. Mas não, nos poucos dias ou momentos em que a chuva não cai as sementes e as flores parecem ficar ainda mais contentes e descontroladas. Este chá ajuda a respirar, com ou sem mel. É um daqueles chás com uma combinação de sabores que parece imediatamente uma ideia tão boa que só pode dar maus resultados. Neste caso, contudo, a boa ideia correu bem.
 
 
 
 


terça-feira, 12 de abril de 2016

We will watch with continuing interest



Os Public Service Broadcasting compuseram a faixa «The Other Side» a partir de gravações da NASA referentes à missão Apollo 8, realizada no Natal de 1968.


A Apollo 8 foi a primeira missão tripulada por seres humanos a circum-navegar a lua, tendo Frank Borman, Jim Lovell, e Bill Anders sido os primeiros astronautas que abandonaram a órbita terrestre.

 
Após três dias de viagem, a tripulação passou vinte horas em torno da lua, antes de iniciar o percurso de regresso à Terra. Durante estas vinte horas, a dada altura a NASA perdeu o contacto verbal com a nave e teve de esperar que esta atingisse um ponto no espaço em que o contacto pudesse ser retomado.
 
Nas gravações, esta espera é descrita com eufemismos como «Now we're in the period of the longest wait», «There's certainly a great deal of anxiety at this moment», «We will watch with continuing interest».
 
Tal como a NASA, muitas vezes também temos de esperar que um percurso inédito se cumpra sem sabermos ao certo o que vai acontecer entretanto. Nesses momentos, resta-nos «observar com interesse persistente». É a única coisa que nos resta. Antes da espera, no entanto, há muito para fazer.

 
 

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O Cinéfilo Preguiçoso em Fevereiro



 
28.2.2016 Nostalgia (real. Andrei Tarkovsky, 1983)

21.2.2016 Mistress America (real. Noah Baumbach, 2015)

4.2.2016 Andrei Rublev (real. Andrei Tarkovsky, 1966)

8.2.2016 Carol (real. Todd Haynes, 2015)

1.2.2016 Spotlight (real. Tom McCarthy, 2015)



[O Cinéfilo Preguiçoso tem página no Facebook, se alguém preferir seguir as actualizações por esse meio.]



domingo, 28 de fevereiro de 2016

Descobertas de início do ano

 
 

Ouço música durante o dia todo enquanto trabalho. Algumas actividades exigem uma certa previsibilidade rítmica, mas é importante ser surpreendido de vez em quando. Graças a esta lista de músicos intrigantes, descobri Tanya Tagaq. Tem uma voz selvagem e a música que a acompanha parece estranhamente culta, misturando elementos muito diferentes, que não se percebe imediatamente de onde vêm. Quem gosta de Meredith Monk, Le Mystère des Voix Bulgares e Björk também simpatizará com este disco.






Nas tardes escuras do princípio do ano em que a chuva põe a vida em suspenso, nada melhor do que os discos de Le Mystère des Voix Bulgares, mas talvez as vozes búlgaras cantassem como Tanya Tagaq se tivessem de viver em certas cidades.


Ainda não sei se gosto de Animism ao ponto de daqui a uns anos continuar a ouvi-lo, mas estou muito curiosa em relação ao novo disco desta cantora (anunciado para 2016).





Os meus gatos adoram os discos de Le Mystère des Voix Bulgares,  não gostam nem de Tanya Tagaq nem de Meredith Monk, e odeiam City Life, entre outros discos de Steve Reich.

 


 ELIZABETH JANE HOWARD
 

 Kingsley Amis e Elizabeth Jane Howard no dia em que se casaram (30 de Junho de 1965)


Hilary Mantel sobre Elizabeth Jane Howard:


«Comedy is not generated by a writer who sails to her desk saying, 'Now I will be funny'. It comes from someone who crawls to her desk, leaking shame and despair, and begins to describe faithfully how things are. In that fidelity to the details of misery, one feels relish.»
 
 
Depois deste texto em que se apresenta e defende uma escritora pouco conhecida e subvalorizada, fica-se com alguma vontade de ler Elizabeth Jane Howard, mas o desejo maior talvez seja ler mais Hilary Mantel, ainda que já tenhamos lido quase tudo o que ela escreveu.
(De resto, até para responder a emails se rasteja para a secretária.)


 

 CRISTINA CAMPO
 



No último dia de 2015, por acaso, enquanto fazia horas para uma sessão de cinema, passei pela livraria da Sistema Solar no Chiado e reparei neste livro porque me lembrei de uma referência num texto de Bénard da Costa. Li há vários anos um volume de poesia de Cristina Campo (O Passo do Adeus), mas não sabia que ia gostar tanto deste livro sobre outros textos e livros.

«Poder-se-ia dividir o reino do sofrimento humano em desventuras da mão direita e desventuras da mão esquerda. Os antigos conheciam estas sagradas metáforas, para além das quais não há definição possível. A desventura da mão direita está para a desventura da mão esquerda como uma ferida por arma branca está para o aperto pelas areias movediças, ou para a morte pela sede no deserto.
A pobreza, a despedida, a perseguição e a própria morte podem ser desventuras da mão direita. Acerca de tudo isto tem florescido muita poesia e é a mais bela. As desventuras da mão esquerda quase sempre ficam mudas. Poucas se salvam para as contar, como Jonas do ventre do Leviatã. É o milagre do Filoctetes e do Ricardo II, do Crepúsculo da Lua e dos últimos versos de Hölderlin. De Um Amor de Swann e de Matadouro-Cinco ou A Cruzada das Crianças

Cristina Campo. 2005. Os Imperdoáveis. Trad. José Colaço Barreiros. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 150.




THE UNSTRUNG HARP, de Edward Gorey

 
 
 
 



The Unstrung Harp, uma história sobre criatividade e hesitação, de Edward Gorey, recomendada por Alison Bechdel.


 
Tudo o que há para dizer sobre como é escrever um texto relativamente longo.
 

 

 

 

Tudo o que há para dizer sobre as conversas subordinadas ao tema «vida literária».
 
 

 
 
HUMPHREY OCEAN



Birds at Ngong
 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Margarida de Antioquia



Santa Margarida de Antioquia, Francisco de Zurbarán (1630-4)
National Gallery


 
«We cannot and do not slay the Dragon, that is a medieval idea, I guess. We have to become completely familiar with him and hope that he sleeps.» (Agnes Martin)

 
 
A única maneira é tentar conhecer o Dragão, propor-lhe amizade, se possível domesticá-lo, integrando-o em casa. Margarida de Antioquia já não se incomoda com o rosnar da criatura. Em vez disso, exibe-a como atributo ou adereço. A cauda do Dragão que lhe coube lembra agora um suporte para braços de uma cadeira valiosa, um pouco decorativa, mas em que se pode ler ou descansar. Apesar de continuar com a aparência feroz que sempre o caracterizará, o Dragão simpatiza com ela ao ponto de lhe ter cedido a pata que ela pediu emprestada para poder ter os dois pés assentes no chão.
 
Escusado será dizer que, ao contrário de Margarida, nem todos conhecemos suficientemente bem o Dragão que nos acompanha diariamente; nem todos conseguimos aproximar-nos dele. Muitos de nós ainda têm medo de que nos faça mal. O meu Dragão, por exemplo, nunca me cederia uma pata, mesmo se lhe explicasse que sem ela não consigo caminhar.
 
Margarida também traz sempre consigo o livro em que se conta a história da sua vida. De acordo com os que veneram esta santa, Deus velará por aqueles que tenham este volume em casa e apertem o relato ao peito em tempos difíceis ou em caso de perigo.
 
Li isto há pouco tempo, na autobiografia de um filósofo americano: o lugar em que nos encontramos pode ser perigoso, mas se lá estamos, é a nossa casa naquele momento; ou domesticamos esse espaço, conquistando-o, ou estaremos sempre a começar do zero.
 

 

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Imagens da Vida, segundo Hua Yan




Perto do fim da tese, encontro de noite uma vespa enorme sobre a minha almofada, como um chocolate deixado sobre a almofada num quarto de hotel. Não sei ao certo por onde entrou, mas é possível que tenha vindo lá de fora com a roupa acabada de secar. Chamo B., que a obriga a sair pela janela. As vespas são consideradas insectos perigosos, predadores, com um veneno que faz pior do que o das abelhas. Fico um pouco impressionada ao ver um insecto perigoso sobre a minha almofada, como se pudesse ter saído de dentro da minha cabeça ou estar à espera para entrar nela.

Não se pode dizer que a vespa seja um insecto bonito. Não há um número esmagador de representações pictóricas de vespas. Se quisermos imagens em que vespas desempenham um dos papéis principais, provavelmente precisamos de recorrer à arte asiática.






Hua Yan pintou imagens de um ninho de vespas e de uma vespa a incomodar um tigre. Na aguarela com o ninho,  representou também um ramo de cássias em floração outonal atraindo um grande número destes insectos. Segundo os comentadores, a aguarela com o ninho transfigura um assunto banal numa imagem de pura liberdade.

 
Na noite do último dia do ano em que terminei a tese, trouxe no cabelo uma abelha para dentro de casa, sem saber. O insecto tombou sobre a secretária com um baque surdo quando eu estava a escrever um email qualquer. Levámo-la para o parapeito da janela dentro de um copo de onde ela não quis sair. Na manhã do primeiro dia do ano encontrámo-la morta.

 
Recentemente ouvi uma história em que alguém deu mel a uma abelha moribunda que lhe apareceu dentro de casa. A abelha morreu mesmo assim, mas pouco depois o contador da história verificou que mais abelhas acorriam à sua casa, em busca de mel.





Uma das imagens mais belas do álbum Imagens da Vida, de Hua Yan, é de uma tartaruga. À primeira vista, dado que o fundo da aguarela se apresenta propositadamente vazio, a tartaruga parece estar invertida, em posição desconfortável, quase de risco de vida. Depois se percebe que afinal está a nadar livremente, numa situação da maior felicidade.