Animais Domésticos

«Everything is meant.» (Ali Smith) | setadespedida@yahoo.co.uk

Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Os melhores equivalentes das dálias brancas

Para além da escrita, Edith Wharton interessava-se muito por viagens, arquitectura e jardins. Ao longo da vida, a escritora foi vivendo em várias casas nos Estados Unidos, em Itália e em França, algumas das quais desenhadas por ela própria.
Em França viveu quinze anos, entre os cinquenta e os setenta e cinco anos de idade. Durante esse período, passou bastante tempo em Paris e teve duas casas fora da cidade, para as quais pôde conceber meticulosamente belíssimos jardins. O jardim da casa conhecida como Pavillion Colombe, por exemplo, tinha um terraço, canteiros geométricos ornados por sebes, um lago com uma fonte, uma horta, e jardins mais pequenos, cada um deles com plantas todas da mesma cor.


Quando a biógrafa Hermione Lee visitou o Pavillon Colombe, não pôde evitar notar as modificações que proprietários posteriores a Wharton introduziram no complexo. Lee constatou que, apesar de a mobília de Wharton não ter agradado, os jardins da escritora tinham sobrevivido a todas as mudanças, mantendo-se sempre em bom estado de conservação.
Visitando o jardim com a Hermione Lee, a proprietária actual, uma princesa, confessou-lhe, porém, que, apesar de nutrir um grande respeito por todo o projecto de Wharton, tinha sentido necessidade de reformular uma componente em especial. As dálias brancas, consideradas flores insuportáveis pela princesa, tinham sido substituídas por outra coisa.
A biógrafa avistou ao longe dois pavões brancos ligeiramente envergonhados e acreditou que eles todos os dias dariam o seu melhor para estar à altura das funções botânicas que lhe tinham sido confiadas.

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

Colecção de mãos

Não sendo um dos filmes de Hitchcock que prefiro, The Man Who Knew Too Much (1956) tem alguns momentos absolutamente geniais.
Uma das sequências mais inesperadamente belas do filme desenrola-se no mercado de Marraquexe. A dada altura, por entre o caos de comerciantes, carregadores, marroquinos e turistas de várias nacionalidades, chama a atenção das personagens uma perseguição. Apesar de inicialmente ser observada ao longe, esta desordem vai-se aproximando gradualmente dos protagonistas, a ponto de, depois de ser atingido nas costas com uma faca, o perseguido vir, inesperadamente, morrer nos braços de James Stewart, que só tem tempo de lhe amparar o rosto com as mãos.

A relação dos protagonistas com o incidente vai-se tornando cada vez mais próxima. No momento em que tenta pousar o incómodo corpo, James Stewart reconhece o homem, apesar de este aparecer disfarçado com trajes marroquinos e de ter o rosto coberto com maquilhagem.
É um momento imprescindível para a progressão narrativa do filme: antes de morrer, a vítima, que afinal é um espião, revela um segredo de de que dependerá toda a restante acção do filme. Nestes momentos cruciais, Hitchcock, no entanto, não hesita em recorrer a planos absolutamente destituídos de qualquer contributo especificamente narrativo.

As mãos de James Stewart sujas de maquilhagem, a mancha azul nas costas da mão do espião,

destacam-se como fragmentos desarticulados da continuidade da acção, manchas vazias, gratuitas, episódios sensoriais que captamos antes de percebermos exactamente para que servem, o que são.

Pouco depois, neste filme, já em Londres, também gosto muito da visita de James Stewart ao taxidermista, toda uma sequência desnecessária do ponto de vista da progressão narrativa.

Interpretando mal uma indicação, James Stewart, em busca de informações sobre o filho sequestrado, faz uma visita a uma pessoa que depois descobre ser o proprietário de um estabelecimento de taxidermia. A troca de mal-entendidos que se processa no estranho espaço, com os animais empalhados e as movimentações dos funcionários em pano de fundo, é absolutamente hilariante. A dada altura, proprietário e funcionários começam a desconfiar do inocente James Stewart e a discussão intensifica-se.

James Stewart, ainda mais confuso do que antes, vê-se obrigado a fugir. A acção principal do filme pode, então, prosseguir.

Terça-feira, 13 de Maio de 2008

Always thinking about food


Glen Baxter move-se com grande frequência num universo de personagens de rosto relativamente inexpressivo, envergando roupa de tweed, de cowboy ou de explorador, mas grandes conhecedoras de teóricos da literatura polémicos, de profundas problemáticas da filosofia e de escritores perturbadores como Kafka.
Perante a associação inesperada entre texto e imagem nestes cartoons, é fácil darmos por nós a tecer relações vagamente duvidosas a partir de outras coisas que conhecemos (não só textos e imagens), a inventar histórias incongruentes, ainda que com remotas possibilidades de ocorrrência.



A mim, a fome da rapariga francesa deste cartoon sempre me fez recordar a voracidade sanguinária da menina do quadro de Magritte. Depois de descobrir que Glen Baxter é um grande admirador do pintor surrealista belga nunca mais deixei de acreditar que podia ser a mesma personagem, apenas mais velha, mais gorda, mais mal vestida e algo desorientada.


Gostar de pássaros a ponto de os ingerir crus nunca há-de levar ninguém muito longe, parece-me.

Sexta-feira, 9 de Maio de 2008

H is for Hitchcock

O adjectivo «idílico» é frequentemente usado em referência ao trabalho de Susan Homer. Os comentadores gostam de falar da sua visão idealizada do mundo e da vida doméstica.
Por mim, não capto necessariamente harmonia nas telas desta artista. Nos passarinhos que segundo alguns suscitam empatia da parte do observador vejo apenas um elemento disruptivo e até um pouco ameaçador. Desde quando costumam os pássaros tomar chá?


A improvável relação entre pássaros e chávenas está presente tanto no conto «The Birds», como no filme com o mesmo título que Hitchcock realizou a partir do texto de Daphne du Maurier.
Numa das sequências mais belas do filme, depois do ataque de pássaros na festa de anos de uma criança, tem lugar um novo ataque, desta vez dentro de casa. Acontece repentinamente, logo depois de uma das personagens reparar num amoroso passarinho saltitando junto à lareira.

Apesar de esta visita lhe causar alguma estranheza, a personagem não tem tempo sequer para reagir. Descendo pela chaminé, uma nuvem de pássaros invade a sala, cercando e atacando com violência todos os seres humanos que se encontram lá.
Depois do ataque, a dona da casa tenta devolver a ordem à habitação, recolhendo com muito cuidado todos os fragmentos das chávenas, um a um.

No dia seguinte, a mesma personagem tem de visitar um vizinho. Como ninguém lhe responde quando bate à porta, decide avançar. Antes de percorrer um corredor longo e sombrio para encontrar aquele que procurava morto e de olhos vazados por pássaros, encontra o primeiro índice da desordem em que os pássaros deixaram a casa na cozinha, logo à entrada.


No conto de Daphne du Maurier, a visão das chávenas e a arrumação da cozinha ajuda o protagonista a acalmar-se depois do combate nocturno com os pássaros que tinham invadido o quarto dos filhos The sight of the kitchen reassured him. The cups and saucers, neatly stacked upon the dresser, the table and chairs, his wife’s roll of knitting on her basket chair, the children’s toys in a corner cupboard).
Tanto no texto como no filme, as chávenas funcionam como elemento associado ao humano, e os pássaros como elemento que introduz o caos, revelando a ausência de racionalidade e de sentido no universo.
Um dos passos mais inesquecíveis do conto tem a ver com o primeiro confronto do protagonista com esta força inumana que lhe é totalmente incompreensível:


«How long he fought with them in the darkness he could not tell, but at last the beating of the wings about him lessened and then withdrew, and through the density of the blanket he was aware of light. He waited, listened; there was no sound except the fretful crying of one of the children from the bedroom beyond. The fluttering, the whirring of the wings had ceased.»

Há qualquer coisa neste passo da luta entre Jacob e o Anjo.

Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

O prazer, essa luta

Struggle for Pleasure é o título de uma faixa da banda sonora do filme Belly of an Architect, de Peter Greenaway. Como se não bastasse ter mais bandas sonoras de filmes de Peter Greenaway no computador do que seria saudável, passo a vida a ouvi-las em repeat. Esta manhã, há que reconhecê-lo, tem sido particularmente crítica.
Já nem me lembro da última vez em que vi um filme de Peter Greenaway numa sala de cinema, embora os filmes deste realizador sejam feitos a pensar num écran de cinema e não de televisão. Parece mentira, mas a partir de hoje, vai mesmo ser possível ver numa sala de cinema portuguesa o filme Nightwatching – A Ronda da Noite, inspirado pelo famoso quadro de Rembrandt.
É aproveitar, que não acontece todos os dias.
(Em Lisboa, no Alvaláxia e no Saldanha Residence.)

O som das árvores por dentro

O som das árvores por fora é diferente do som das árvores por dentro.
Alex Metcalf tinha sido instrutor de vela durante dez anos na Cornualha quando decidiu frequentar durante o mestrado de design no Royal College of Art. Foi então que concebeu um estranho cone metálico que capta os ruídos do interior das árvores, amplificando-as trezentas vezes, de modo que um ouvido humano possa distingui-los com nitidez.
Crianças que já ouviram as árvores por dentro explicam que o som lembra normalmente um trovão ou uma mota em andamento.
Quem ouve com mais atenção, porém, pode distinguir um ruído menos frequente, semelhante a um clique, quase imperceptível mas, uma vez captado, impossível de ignorar: o som da árvore a beber. Dentro das árvores, a água é conduzida da raiz para as folhas através de um tecido constituído por células vivas e/ou mortas chamado xilema. O clique que se ouve é originado pelo deslocamento de ar à medida que a água vai cumprindo o seu percurso.
Quando ouvimos as árvores por fora é muito mais difícil determinar com certeza o que poderá vir da árvore, o que poderá vir daquilo que, vento, pássaro, chuva, lhes toca nos ramos ou nas folhas, por vezes tão pouco intencionalmente. As árvores são mais do que instrumentos.

Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

Mas não há como ter um jardim

Numa leitura rápida da lista das melhores frases de encerramento de romances proposta pela American Book Review (e recordada aqui), dou por mim a gostar mais de algumas escolhas referentes a livros que ainda não li, todas elas em tom menor e autodepreciativo:

22. YOU HAVE FALLEN INTO ART —RETURN TO LIFE –William H. Gass, Willie Masters’ Lonesome Wife (1968) [Esta é a minha preferida.];

31. Now everybody— –Thomas Pynchon, Gravity’s Rainbow (1973);

45. Are there any questions? –Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale (1986);

51. So I mean listen I got this neat idea hey, you listening? Hey? You listening…? –William Gaddis, J R (1975);

57. "All that is very well," answered Candide, "but let us cultivate our garden." –Voltaire, Candide (1759; trans. Robert M. Adams).

Num destes dias vi citadas algures as últimas palavras de The Gathering, de Anne Enright, romance vencedor do Booker 2006, e também gostei muito:

"[…] because you are up so high, in those things and there is such a long way to fall. Then again, I have been falling for months. I have been falling into my own life, for months. And I am about to hit it now."

Terça-feira, 6 de Maio de 2008

Animais selvagens com gato


Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

A rapariga que parecia não voar

Alfred Hitchcock confessou muitas vezes preferir fazer filmes com personagens que não tivessem de se debater com necessidades básicas, como arranjar dinheiro para pagar as contas, e é um facto que em muitos dos seus filmes os protagonistas têm vidas de ócio e de luxo.

No filme Psycho (1960), no entanto, há personagens que não só têm de trabalhar para ganhar a vida como se vêem obrigadas a lidar com infelicidades e limites impostos por problemas financeiros: a (temporária) protagonista chega até a fazer algo mais do que considerar a hipótese de fugir com quarenta mil dólares da imobiliária em que trabalha para convencer o namorado endividado a casar com ela.


Não sei se será devido a esta densidade ou gravidade pouco típicas das personagens femininas na obra do realizador que gosto tanto de ver Janet Leigh neste filme. Fico suspensa do ar sério e apreensivo que não lhe sai do rosto mesmo quando o namorado a beija com algum interesse,

da expressão feminina totalmente adulta e um pouco desanimada que adquire quando se vê ao espelho.
Num dos planos do filme, Hitchcock obriga-a a dividir o écran com um pássaro empalhado.

Para além da sugestão de ameaça, sou bastante sensível ao contraste ou à diferença que é possível estabelecer entre a personagem de Janet Leigh e um pássaro a sério.

Animais pouco reais

Houve um tempo em que acreditámos ser possível viver sem nunca ter os pés assentes no chão. O próprio Lineu, pai da taxonomia moderna, deixou um sinal dessa percepção.
A primeira vez que um europeu viu uma ave-do-paraíso foi em África, no início do séc. XVI, por intermédio de um comerciante dessas paragens. As aves-do-paraíso tornaram-se famosas porque os povos africanos as usavam como moeda de troca em transacções comerciais com os navegadores que frequentavam essas rotas em busca de especiarias.
Apesar da magnífica plumagem que os machos da espécie ainda hoje ostentam, os comerciantes africanos de então, pensando que os poderiam tornar ainda mais belos e valiosos aos olhos europeus, cortavam as patas a todos os exemplares que disponibilizavam.
Foi assim que entre os europeus destes tempos se passou a acreditar que estes pássaros deveriam ser próximos da divindade, talvez até seus intermediários, pois, não tendo patas, não poderiam pousar na terra e fazer parte dela.
Muitos séculos passaram até um europeu conseguir observar um exemplar vivo e intacto desta espécie tão tímida e difícil de localizar. A designação Paradisea apoda foi-lhe atribuída por Lineu apenas a partir dos exemplares conhecidos através destes intermediários.
Apoda significa «sem pés». Mesmo Lineu terá acreditado na possibilidade de estas aves serem seres exclusivamente do ar. Hoje em dia, porém, ao contrário de Lineu, nós não só já não acreditamos ser possível viver sem nunca ter os pés assentes no chão, como partimos quase sempre do princípio de que, se nos oferecem coisas belas, é bastante provável que lhes tenham previamente mutilado os membros inferiores, de modo a retirar-lhes as pernas para andar.

Domingo, 4 de Maio de 2008

Jogos de fim-de-semana: quem é o autor?

Night is generally my time for walking. In the summer I often leave home early in the morning, and roam about fields and lanes all day, or even escape for days or weeks together; but, saving in the country, I seldom go out until after dark, though, Heaven be thanked, I love its light and feel the cheerfulness it sheds upon the earth, as much as any creature living.
I have fallen insensibly into this habit, both because it favours my infirmity and because it affords me greater opportunity of speculating on the characters and occupations of those who fill the streets. The glare and hurry of broad noon are not adapted to idle pursuits like mine; a glimpse of passing faces caught by the light of a street-lamp or a shop window is often better for my purpose than their full revelation in the daylight; and, if I must add the truth, night is kinder in this respect than day, which too often destroys an air-built castle at the moment of its completion, without the least ceremony or remorse.

Se não conhecesse bem o livro de que estes parágrafos foram retirados, a referência às visões do caminhante solitário que narra, avançando pela noite à laia de terapia, far-me-ia pensar em Sebald, mais especificamente em Austerlitz.
Erraria no autor por cerca de dois séculos.
É com estes parágrafos que abre o primeiro capítulo do magnífico Old Curiosity Shop, que Charles Dickens foi escrevendo e publicando entre 1840 e 1841.
Segundo Peter Ackroyd, o próprio Dickens tinha por hábito fazer longas caminhadas à noite, sobretudo quando estava a escrever a romances. Era assim que desenvolvia as personagens e a intriga, alcançando um cansaço capaz de lhe quebrar resistências mentais e físicas e de desencadear uma espécie de pacificação que lhe permitiria depois não só a escrita mas também algum merecido descanso.
Para os incautos que também pensem em ler Dickens: o grande problema é conseguirmos interessar-nos por qualquer outro autor de ficção enquanto houver romances de Dickens para ler.
Falo por mim: li nos últimos meses cinco romances do autor. Parece-me que não vou ficar por aqui.

Sábado, 3 de Maio de 2008

Hoje


Caravana é um livro do Rui Amaral e uma edição Angelus Novus.
Be there.

Sexta-feira, 2 de Maio de 2008

O rinoceronte de D. Manuel

Dürer desenhou um rinoceronte sem nunca na vida ter visto um rinoceronte. O episódio vem relatado na História de Lisboa, de Dejanirah Couto, e conta-se rapidamente.
O rei português D. Manuel I (1469-1521) gostava de fazer alarde do exotismo encontrado pelos navegadores portugueses no estrangeiro, chegando mesmo a ter por hábito exibir-se nas ruas acompanhado por um cortejo luxuoso que abria com cinco elefantes indianos, seguidos de um animal pouco conhecido e de aparência surpreendente que Afonso de Albuquerque lhe enviara: um rinoceronte.
Este rinoceronte enchia D. Manuel de orgulho. São conhecidos relatos de um certo combate que deveria ter-se realizado entre o rinoceronte e um elefante, se este último, assim que apenas avistou o primeiro, não tivesse desatado a correr, absolutamente descontrolado, desde o Palácio da Ribeira até ao Rossio, espezinhando aqueles que ousaram intervir. Por altura da partida de uma embaixada de Tristão da Cunha a Roma, D. Manuel, querendo a todo o custo impressionar o Papa, decidiu que tão maravilhoso animal tinha de fazer parte da comitiva.
Preso por uma corrente de ferro dourada e com uma coleira de veludo enfeitada de cravos e rosas, o rinoceronte embarcou com destino ao porto de Génova. A viagem, contudo, não correu tão bem como era desejado: o navio naufragou devido a uma tempestade.
O afogamento do animal não se revelou, porém, suficiente para desanimar totalmente a embaixada portuguesa. Segundo Damião de Góis, o corpo do animal foi recolhido junto à costa e empalhado. O Papa teve, assim, oportunidade de observar o que restava dele. Mesmo morto, o rinoceronte terá impressionado todos os presentes.


Foi a partir de um registo visual relacionado com esta ocasião que Albrecht Dürer elaborou a famosa gravura que ainda hoje admiramos: um animal meio imaginado a partir do malogrado rinoceronte de D. Manuel, embelezado com pormenores característicos de desenhos e descrições de criaturas fantásticas (dragões, unicórnios, etc.) que nunca tiveram existência real. A figura que até ao séc. XVIII serviria de modelo a praticamente todas as ilustrações de rinocerontes foi desenhada a partir de uma simples imagem em combinação com conhecimentos de origem ficcional. Os rinocerontes verdadeiros não apresentam escamas nas patas, não possuem os cascos representados por Dürer, não trazem o corpo recoberto por uma couraça dura, nem têm o pequeno chifre que aparece nas costas da famosa gravura.
Uma questão de glórias efémeras e esquecidas, vidas parcialmente reconstituídas, parcialmente fantasiadas a partir de modelos mortos ou esvaziados, coisas que vemos apenas através de outros que não chegaram a vê-las. É assim a arte.

Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

Colecção de mãos


Tenho andado ocupada com outras coisas, mas tenciono voltar a actualizar o blogue lá para o início de Maio.

Animais selvagens

Apesar da grande velocidade que conseguem atingir quando correm, as chitas falham mais de metade das presas que perseguem.

Animais domésticos

Imagem de David Shrigley



Segunda-feira, 3 de Março de 2008

In Memoriam

«Não há literatura. Quando se escreve só importa saber em que real se entra, e se há técnica adequada para abrir caminho a outros


Maria Gabriela Llansol
Um Falcão no Punho, Relógio d’Água, p. 55

Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

Ron van Dongen

Suspeito que tal como um carteiro que encontra um dia uma pedra no caminho e decide a partir dela construir um palácio prodigioso com as próprias mãos, um jardineiro poderia desejar um dia produzir intencionalmente uma obra de arte e, sem grande esforço de aprendizagem, conseguir.
No caso de Ron van Dongen, verificou-se uma metamorfose semelhante, ainda que de certa forma invertida.
Nos tempos em que estudava fotografia, van Dongen ambicionava ser conhecido pelos retratos, interessando-se sobretudo por formas humanas. Quando fotografava plantas, encarava a actividade como um mero exercício, para praticar técnicas sem recorrer a modelos humanos. O portfolio em que mais investia era constituído por imagens de rosto ou de corpo inteiro de pessoas.
Na altura em que começou a mostrar o trabalho a galerias, Ron van Dongen constatou, no entanto, que era o portfolio das flores que mais agradava. Foi então que o artista decidiu ser jardineiro. Agora só fotografa aquilo que cultiva. Considera-se uma espécie de artesão e encontra afinidades entre o que faz e o ofício de padeiro, de construtor de barcos ou de violinos.

Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008

Certas questões teóricas e argumentativas

Para me distrair de certas questões teóricas e argumentativas que ameaçam tomar conta de toda a minha vida mental e suprimir a minha vida física, constatei que há duas actividades bastante eficientes.
Por um lado, ler livros com muitas páginas e intrigas cheias de coincidências e inverosimilhanças. Depois do excelente Mammoth Book of Ghost Stories, estou quase a acabar o meu segundo Dickens (Our Mutual Friend). E ainda bem que Dickens foi um escritor prolífico e tem pelo menos uma biografia gigantesca (obrigada, Peter Ackroyd), pois sinto que vou precisar muito dele nos próximos tempos.
Por outro lado, estudar e executar receitas de sobremesas complexas e morosas. No passado fim-de-semana, por exemplo, aprendi a fazer: tarte de requeijão com mel, queques de cenoura e baba de camelo. Estou, portanto, em condições de informar que baba de camelo, lamentavelmente, é uma completa desilusão no que diz respeito ao grau de dificuldade: só leva ovos e leite condensado cozido.

Más compras

Ultimamente tenho comprado muito poucos livros de editoras portuguesas. É uma circunstância de fácil explicação. Em geral, as edições em língua inglesa dos livros que me interessam são mais baratas e de melhor qualidade. Há livrarias online que, para além de não cobrarem portes de envio, nos fazem chegar às mãos os livros em três dias.
O último livro em português que comprei foi Sedução, Conspiração, de Eileen Chang (11.99€, 100 págs, Relógio D’Água). O volume inclui a novela de Eileen Chang em que se baseia o belíssimo filme de Ang Lee, um prefácio de Julia Lovell, um posfácio de Ang Lee e um comentário de James Schamus. A tradução da novela não me colocou problemas de legibilidade. (Faço só uma chamada de atenção: Arabian Nights deve ser traduzido por «Mil e Uma Noites» e não por «Noites Árabes», p. 70.) Não posso, infelizmente, dizer o mesmo dos prefácios e posfácios, que, para além de gralhas e descuidos variados, incluem frases difíceis de decifrar. Para além disso, o entrelinhamento e o tamanho da fonte do texto são tão exagerados que chegam a dificultar a leitura.
No Book Depository, poderia ter comprado um livro de Eileen Chang com este e outros textos (176 págs, da Penguin Classics, que não costuma ser dada a delírios de paginação) por seis libras. Reconheço que dei por mal empregue o dinheiro que gastei com o livro em português.
Para um leitor com o meu perfil (leio mais ficção e ensaio), de todas as editoras portuguesas, a Relógio D’Água é talvez aquela com um catálogo mais apelativo. Seria interessante que o trabalho de edição de texto estivesse à altura da qualidade dos títulos propostos. Sedução, Conspiração, no entanto, já não é o primeiro livro em que encontro este tipo de problemas (estou a pensar, por exemplo, em Andreas, de Hofmannsthal). Da próxima vez que tiver vontade de ler qualquer coisa desta editora, pensarei duas vezes e é bem possível que opte simplesmente por encomendar o livro em inglês.

Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

Sartre e a televisão

Ontem, logo no início da série Seis Graus, uma personagem citou Sartre. Se bem percebi, referiu estas duas frases «Não fazemos aquilo que queremos e, no entanto, somos responsáveis por aquilo que somos.» e «O homem não é a soma do que tem, mas a totalidade do que ainda não tem, do que poderia ter».

Sexta-feira, 8 de Fevereiro de 2008

Esta imagem de sinos contra as tempestades

Dentro da esfera de pedra em que apoia uma cruz na torre do sino do lado sul, os trabalhadores de restauro da catedral mais importante da cidade do México encontraram uma misteriosa caixa de chumbo.
A torre tem 60 metros. A esfera de pedra era oca. Dentro da caixa estavam moedas, pergaminhos e artefactos religiosos variados, entre os quais se destacava a imagem de Santa Bárbara, figura associada à protecção contra as trovoadas.
Por ordem do arquitecto que supervisionou a conclusão dos trabalhos, a caixa terá sido ali escondida em 14 de Maio de 1791, para assinalar a colocação da pedra mais elevada do edifício e o fim da construção iniciada 218 anos antes. Desde então, a catedral tem resistido a inundações, conflitos e danos devidos ao afundamento do terreno pantanoso em que assenta.
A caixa e os seus conteúdos estão agora expostos, mas os responsáveis já anunciaram a intenção de a substituir por outra, com peças ainda por determinar.

Quinta-feira, 7 de Fevereiro de 2008

I like the story as well as when you told it



Para além da angústia da página em branco, o trabalho sobre as páginas já escritas. Will Ashford frequenta feiras da ladra, alfarrabistas e vendas de garagem em busca de livros usados e gastos. Depois de os comprar, percorre todas as páginas, usando tinta para cobrir ou destacar as palavras que decide resgatar, reciclar e libertar. Muitas páginas de diferentes edições de ensaios de Ralph Waldo Emerson foram objecto desta actividade que Ashford costuma comparar à arqueologia.

O ladrão de ovos mais famoso de Inglaterra

O ladrão de ovos mais famoso de Inglaterra tem 44 anos, chama-se Gregory Wheal e vive em Coventry. Do seu cadastro constam duas penas de prisão e oito condenações em tribunal. Há vinte anos que se dedica à actividade de roubar ovos de ninhos de pássaros. Em Inglaterra, é o coleccionador de ovos com mais condenações.
Em 2006 passou quatro meses na prisão. De nada serviu esta punição. Pouco tempo depois, em Junho de 2007, a polícia encontrou no quarto dele ovos de falcão peregrino e de corvo, material de montanhismo e de rapel, para além de vários mapas com localização detalhada de ninhos.
Em Inglaterra há legislação que proíbe subtrair, coleccionar ou vender ovos de aves não domésticas. Apesar disso, o roubo e a colecção de ovos é um hobby para centenas de ingleses, sobretudo adultos do sexo masculino. Estes senhores podem percorrer milhares de quilómetros em busca de ovos das espécies mais raras, planeando obsessivamente as excursões como se de operações militares se tratasse, com o objectivo de reunirem colecções sofisticadas e secretas.
Gregory Wheal pediu desculpa no tribunal, confesssando que se tinha deixado levar pelo entusiasmo dos coleccionadores com que costuma conviver. O responsável pelas investigações declarou ominosamente à imprensa, mesmo assim: «Nenhum pássaro estará seguro enquanto Wheal andar por aí».

A vida real das personagens

De repente, numa viagem nocturna entre Westmorland e Londres, um escritor faz uma pequena paragem para jantar num pub e descobre um sítio muito semelhante ao que ele próprio tinha criado num romance.
A suspeita instala-se devido a coincidências entre nomes de personagens e de funcionários de pub. Estas coincidências, ainda que apenas parciais, são inegáveis: o proprietário do pub chama-se Maurice Allington no romance, John Allington no pub; o barman chama-se Fred Soames no romance e, no pub, também se chama Fred; um outro funcionário chama-se David Palmer no romance e George Palmer no pub. O escritor chega a perguntar se ali alguém leu o romance dele, mas ali ninguém leu nada.
O escritor dá pelo nome de Kingsley Amis. Publicou em 1972 esta história, que se intitula «Who or What Was It?». As coincidências são estabelecidas em relação ao romance The Green Man, de 1969. The Green Man é simultaneamente o título do livro, o nome do pub onde a maior parte da acção decorre e também a designação de uma conhecida figura mitológica com rosto e corpo de folhas e, às vezes, flores e frutos. No romance, o protagonista tem de enfrentar uma figura assim. No conto, é o escritor que se confronta com ela durante essa noite, como se tivesse de reconstituir pessoalmente os passos da sua personagem.
Quando leram a história, muitas pessoas, incluindo amigos próximos do escritor, acreditaram tratar-se de uma espécie de relato com algum fundamento real.

Sabia que...?

… é possível encontrar uma versão da figura do Green Man na série Harry Potter?
Palavras de J. K. Rowling:
«Hagrid was always supposed to be this almost elemental force. He's like the king of the forest, or the Green Man. He's this semi-wild person who lives on the edge of the forest».

Domingo, 3 de Fevereiro de 2008

Momento waterlog* da semana

Chuvada intensa ao fim da manhã em Lisboa. De óculos, carregada com montes de sacos e sem guarda-chuva, a cem metros de casa. Não vejo nada e nem sequer consigo avançar. Procuro abrigo na entrada do primeiro edifício a que chego e ali fico durante cerca de dez minutos, respirando fundo, a ver a chuva a cair e o cabelo a pingar.

*Totalmente encharcada e, contudo, viva.

O preço

Quando damos um presente a alguém, tiramos a etiqueta do preço. A pessoa que recebe a prenda não precisa de saber quanto custou.

(Uma coisa que me disseram na sexta-feira.)

Sábado, 2 de Fevereiro de 2008

A história



Your main character, Sophie, is mugged and robbed at the end of the film, she has absolutely nothing left. Isn’t that a dreadful ending?
She’s at the beach, she’s wearing a yellow dress, and she gazes out to the sea. No, I find the ending rather nice. She is somewhat liberated from her former self.

Is that the story?
The story?

Se houver um ciclo Angela Schanelec, contem comigo.

Sexta-feira, 1 de Fevereiro de 2008

Lemas de fim-de-semana

Quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008

Cinema em Janeiro

Acrescentei ao post de ontem a identificação dos fotogramas dos filmes que vi em Janeiro.
Tenho de reconhecer que foi um bom mês, do ponto de vista cinematográfico.

O Lear dos pássaros

Sem o amálgama disforme de arame e cordel unindo farrapos de roupas velhas fragmentos de peles de animais empalhados e peluches estraçalhados que só de perto é possível destrinçar, não haveria a inclinação predatória, majestosa e selvagem da cabeça do bufo-real.
Ao longe, às vezes, é fácil fingir que não se vê. Em tudo o que existe, a reunião precária dos restos das presas que caçou, dos objectos que desejou, gastou, construiu imperfeitamente ou destruiu, daquilo que deixou de servir.


Imagem: Bufo-real de Kathryn Spence, via Bioephemera

Quarta-feira, 30 de Janeiro de 2008

Eu também vi filmes em Janeiro

No mês de Janeiro vi onze filmes. Por acaso, nenhum em salas do circuito comercial. Inspirada por este post da Lídia, e rogando-lhe encarecidamente que em breve publique a identificação das imagens (pois há várias cuja origem não consigo localizar), coloco aqui um fotograma por cada filme que vi. Ainda que alguns deles sejam relativamente bem conhecidos, prometo publicar um post indicando todos os títulos e respectivos realizadores num dos próximos dias.

1. Honra de Cavalaria, de Albert Serra
Digamos que comecei bem 2008, vendo este filme logo no dia um de Janeiro. (Aquilo que se faz no primeiro dia do ano é muito importante.) Tenho pena de não ter visto no écran de uma sala de cinema. Deve ser uma experiência verdadeiramente esmagadora. Mesmo em DVD, é um filme magníco.


2. Le Diable Probablement, de Robert Bresson
Deste não falo, pois fiz um pequeno voto de silêncio em relação a Bresson neste blogue.


3. The Birth of a Nation, de D. W. Griffith
Do ponto de vista ideológico, este filme pode ser descrito como defesa e glorificação do Ku Klux Klan. É preciso um certo esforço para conseguir dominar a indignação perante algumas sequências. Houve, no entanto, uma característica a que, à falta de melhor adjectivo, chamarei «estética», que me chamou a atenção: é possível localizar a presença de pelo menos uma vela acesa em quase todos os planos que mostram o interior de casas.
Esta circunstância lembrou-me de imediato uma tela de Lorenzo Lotto, intitulada Retrato de Jovem sobre Cortina Branca, que inclui uma intrigante lâmpada acesa (minúscula e quase imperceptível, no canto superior direito) que causa a fúria de muitos comentadores que se irritam contra a própria incapacidade de encontrar uma explicação plausível para a presença dela ali.



4. Jeanne d’Arc, de Dreyer
Já falámos sobre este.


5. Broken Blossoms, de D. W. Griffith
Muito bonito. Totalmente dickensiano. Lillian Gish é uma das maiores actrizes da história do cinema.


6. Este Obscuro Objecto de Desejo, de Luis Buñuel
Gostei imenso deste truque de colocar o protagonista a narrar a história num comboio em andamento.


7. O Fantasma da Liberdade, de Luis Buñuel
Muita gente não gosta particularmente deste filme composto por vários episódios sem grande conexão narrativa entre si. Eu até gostei, principalmente do primeiro episódio, que inclui uns postais que um indivíduo suspeito oferece a uma criança num parque, e do episódio da criança supostamente desaparecida que é mandada calar quando tenta explicar que afinal está ali.


8. Three Seasons, de Tony Bui
Para quem gosta de flores de lótus brancas.



9. Rebecca, de Alfred Hitchcock
Este fotograma faz parte da sequência na noite do baile de máscaras em que, devido ao acidente com um barco encalhado, é descoberto o barco de Rebecca no fundo do mar, com o corpo dela preso numa das cabines. Julgando que vai ser responsabilizado pela morte da primeira mulher, Maxim de Winter refugia-se no pavilhão junto à praia. É neste mundo de sombras que a protagonista o vai encontrar.
Hitchcock considera este filme demasiado «romanesco», mas, para mim, Rebecca inclui algumas das sequências mais belas da sua obra: o início do filme, com a câmara a percorrer os caminhos que levam a Manderley, enquanto se ouve a protagonista em voz-off; a noite do baile de máscaras; o incêndio final em Manderley.


10. De tanto bater, o meu coração parou, de Jacques Audiard
Se não temos cuidado, a história da nossa vida passa a ser a história da violência a que nos submetemos diariamente para esquecer aquilo de que desistimos e que era o que mais queríamos fazer. Manchas de sangue em punhos brancos.


11. Blackmail, de Alfred Hitchcock
Primeiro filme sonoro de Hitchcock. Este fotograma faz parte da deliciosa sequência de perseguição do chantagista no British Museum. Que ninguém diga que o homem não era um génio.

Tão cedo não volto a falar de cinema

...mas ainda a propósito da Mostra do Cinema da Nova Escola de Berlim, que começa hoje (programação) no cinema S. Jorge, a magnífica entrevista à realizadora Angela Schanelec pode ser lida aqui.

Dissolução de fronteiras

Comprei no domingo um vaso com três bolbos de jacintos para me ajudar a atravessar a semana. Há, no entanto, momentos em que duvido do acerto da decisão. A euforia descontrolada com que os gatos saudaram os novos seres vivos da casa e o carinho desmesurado que manifestaram pelos bolbos, pelas folhas e pelas raízes não auguravam nada de bom. Apesar de nesta altura do ano ser aconselhável tratar os jacintos como plantas de interior, tive de os colocar na varanda, único local da casa interdito aos gatos. Mesmo assim, apesar de separada do vaso por um vidro intransponível, a gata Goneril ainda ficou montes de tempo a vigiar as plantas do lado de dentro, miando quando me via passar. Aliás, três dias depois, sempre que observo os jacintos com mais atenção, para me distrair ou em busca de sinais quer de crescimento inesperado quer de perecimento imparável devido à intempérie, Goneril continua a aproximar-se para, com ares de proprietária, avaliar a situação.

Domingo, 27 de Janeiro de 2008

We are waiting for the summer

Esta capa faz-me sempre lembrar fins de dias de Verão em que fizemos muitas coisas e depois ficámos cansados, sem grande paciência para chatices nem para piadas parvas.
Neste álbum, gosto em especial da faixa You Come Through. É uma daquelas músicas que me imagino a ouvir no carro, em viagem sem grandes objectivos nem horas marcadas, naqueles dias em que começa a anoitecer muito tarde.

Distracções de Janeiro

As fotografias em pose estudada de Christian Bale não lhe fazem justiça. Christian Bale tem de ser visto em acção, nos filmes ou em fotogramas de filmes. Só assim é possível observar a tensão involuntária da boca, a tendência para sorrir de boca fechada, típica de quem um dia usou aparelho nos dentes. Apreciar essa ideia de imperfeição latente.

Imagem: Com Hugh Jackman (à esquerda), no filme The Prestige, de Christopher Nolan

Sábado, 26 de Janeiro de 2008

Frasco de vidro transparente com água


Que revelam sobre nós os objectos que deixamos em cima das mesas?

Notas sobre o cinematógrafo

Se o meu precário equilíbrio mental e físico sobreviver à próxima semana, possibilidade em relação à qual alimento neste momento algumas dúvidas metódicas, farei tudo para ir ver, Cristina.
(Excelente entrevista do André Dias à realizadora Angela Schanelec, no programa da mostra do cinema da Nova Escola de Berlim.)

Parece que o seu marido está a chamá-la: estive quase para assistir a essa sessão do filme de Boris Barnet; o que eu perdi!

O direito e o torto

«Em Direito, há uma figura segundo a qual aquilo que é público e notório não carece de prova

Só tenho pena que não se aceite este tipo de argumentação em teses de mestrado e de doutoramento. Seria tudo tão mais fácil.

Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008

Pela blogosfera fora


Um blogue de uma birdwatcher americana que também é a feliz dona de uma coelhita irreverente chamada Cinnamon.

Um extraordinário blogue que recolhe textos de fotógrafos sobre fotografias que não tiraram: The Photographs Not Taken.

Livros que (ainda) não li

No ano passado, a vencedora do Costa Award na categoria primeiro romance foi Stef Penney, com o livro The Tenderness of Wolves, que depois receberia também o Costa Book of the Year. Na altura, jornalistas e responsáveis de marketing da editora acharam por bem salientar que a autora sofria de agorafobia e que tinha lidado com crises agudas enquanto escrevia o romance.
Este ano, a vencedora do Costa Award para o primeiro romance, foi Catherine O’Flynn, com o livro What Was Lost, que não recebeu o Costa Book of the Year, embora fosse considerada uma forte candidata. Como Catherine O’Flynn não sofria de fobias ou de qualquer doença exótica, jornalistas e responsáveis de marketing trataram de enumerar as profissões invulgares que a autora foi desempenhando ao longo dos seus 37 anos de vida: carteira, funcionária de uma loja HMV (uma espécie de Fnac sem livros), professora e cliente-mistério.
Bem sei que há aqui uma lição a retirar sobre as técnicas de marketing do mercado livreiro (para sua promoção, convém que o novo escritor se distinga por uma excentricidade qualquer), mas não pude evitar divertir-me com esta lista e com algumas declarações da escritora numa entrevista em que o tema foi focado:

I have a perverse fondness for quite bad jobs - I find them quite stimulating. […]
There's something about being excruciatingly bored, or having to put up with an inordinate amount of rubbish for £5.50 an hour that really crystallises your thoughts and feelings about life. It's a difficult thing to pull off though - it has to be just the right kind of bad job. Too bad and it depresses you too much to write, too comfortable and you become too complacent and don't write either.

No livro What Was Lost conta-se a história de uma menina que passa os dias num centro comercial, escrevendo um diário sobre as personagens mais estranhas ou suspeitas com que se vai cruzando. Segundo alguns comentadores, os grandes trunfos do livro residem na manipulação do tempo e na forma como a autora é capaz de dar voz aos pensamentos íntimos dos frequentadores anónimos e solitários dos centros comerciais sem nunca perder o fio da narrativa.

Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

Ironias do mercado



Os livros de Ian McEwan de que mais gosto são os três primeiros que publicou: duas antologias de contos (First Love, Last Rites, 1975, e In Between the Sheets, 1978) e o romance The Cement Garden (1978). Não ganharam prémios de destaque e acho que na altura ninguém os considerou obras-primas. São, aliás, livros que eu própria considero imperfeitos, desequilibrados e com alguns momentos pouco conseguidos.
Parece-me que descrições como «grande romance», «obra-prima», etc., apesar de rótulos práticos para alguns tipos de crítica literária, podem concentrar certos critérios (pouco explícitos) de gosto convencional e, por conseguinte, correr o risco de deixar escapar livros com características menos usuais.
Quando li Atonement/Expiação, dos livros que Ian McEwan tinha escrito até ali só não tinha lido ainda The Child in Time