Animais Domésticos

«I struggled with some demons/They were middle-class and tame» (Leonard Cohen) | setadespedida@yahoo.co.uk

sexta-feira, 24 de março de 2017

Spoilers


Algumas pessoas prefeririam não conhecer o futuro se lhes dessem essa hipótese.  Há quem se irrite com qualquer spoiler sobre o filme que vai ver. Certos pais optam por não conhecer o sexo dos bebés antes de eles nascerem. Se a medicina já conseguisse realmente adivinhar as doenças de que vamos sofrer, será que toda a gente procuraria saber?

Os  extraterrestres do filme Arrival (Dennis Villeneuve, 2016) têm uma concepção não-linear do tempo. Visto que, para eles, passado, presente e futuro existem no mesmo plano, estes extraterrestres sabem o que acontecerá se determinada escolha for feita.

Se pensarmos bem, no entanto, a concepção humana do tempo não é muito diferente da destes extraterrestes. Graças à memória, as pessoas já têm uma concepção não-linear do tempo. Só raramente a vida é uma completa surpresa. As escolhas que fazemos baseiam-se na informação que recolhemos e nas projecções que fazemos. Por isso, é frequente adivinharmos o futuro. Muitas vezes intuímos o que vai acontecer a partir de conhecimentos prévios ou experiências passadas semelhantes. As premonições que temos não são sobrenaturais nem sobre-humanas, mas sim baseadas no conhecimento adquirido através da experiência.

Sucede, contudo, que mesmo prevendo que certas escolhas terão finais infelizes, algumas pessoas preferem vivê-las. Em certas relações de amor ou amizade notam-se sinais evidentes logo no princípio de que as coisas acabarão mal, mas há quem prefira experimentar. No filme Arrival, ainda que saiba que se tiver uma filha esta morrerá jovem, com uma doença raríssima, a protagonista decide ter a criança. O que faríamos se conhecêssemos o enorme risco de virmos a morrer de determinada doença?

Umas vezes fazemos tudo para nos protegermos do final infeliz, evitando determinadas opções. Se outras, todavia, insistimos em más escolhas, não o fazemos por acreditarmos em milagres nem em reviravoltas inesperadas, mas sim por não abdicarmos das pequenas felicidades associadas aos erros. Se calhar os extraterrestres comportar-se-iam de modo diferente.
 
 

domingo, 26 de fevereiro de 2017

O Cinéfilo Preguiçoso em Janeiro e Fevereiro


 
26.2.2017 Toni Erdmann (real. Maren Ade, 2016)

 

19.2.2017 Elementos Secretos (real. Theodore Melfi, 2016)

 

12. 2.2017 Uma Discussão com 50 Anos (real. Martin Scorsese e David Tedeschi, 2014)

 

5.2.2017 Wiener-Dog  (real. Todd Solondz, 2016)

 

29.1.2017 Arrival (real. Denis Villeneuve, 2016)

 

22. 1.2017 Yella (real. Christian Petzold, 2007)

 

15.1.2017 A Morte de Luís XIV (real. Albert Serra, 2016)

 
9.1.2017 Vida Activa: O Espírito de Hannah Arendt (real. Ada Ushpiz, 2015)
 

 

Pérolas de filosofia pop

Camilo Huinca

 
Michael Bublé não é um grande cantor, mas gosto da  interpretação irónica e forçada que em certos momentos faz da canção «Feeling Good», mais conhecida na voz de Nina Simone.

 

Duvido que isto tenha acontecido por opção inteligente do cantor.  Nem sequer tenho a certeza se ele percebe a letra: acho que só compreenderá bem esta canção quem se tenha sentido realmente despreocupado pelo menos uma vez na vida. (Pouca gente, portanto.)

 

Suspeito que Bublé foi contrariado durante a sessão de gravação. A interpretação começa suave, tentando parecer elegante e  sofisticada, mas alguém deve ter dito alguma coisa ao cantor que o enervou entretanto. Se calhar Bublé recebeu um telefonema desagradável. É possível que algum técnico de som tenha cometido um erro ou um produtor tenha feito um comentário amargo e dispensável.

 

Durante alguns momentos depois dessa contrariedade, Bublé, desconcentrando-se, distraiu-se da pose habitual. Na voz dele naqueles momentos, uma canção que parece uma declaração de prazer e de boa disposição transforma-se numa espécie de declaração agressiva, sarcástica e insatisfeita, de resistência: sinto-me bem apesar dos fracassos; sinto-me bem contra o mundo; sinto-me bem contra mim próprio; sou eu contra tudo o que não corre bem. A canção transfigura-se temporariamente graças à distracção de Bublé, manifestando um sentido que até ali ninguém ou pouca gente tinha captado nela.

 
Pouco depois desta proeza involuntária, no entanto, Bublé recupera a compostura e volta a fingir que está satisfeito consigo próprio.

 

Há, pelo contrário, cantores que cantam como se não estivessem preocupados com o resultado. Frank Sinatra, por exemplo, não só canta sobre o amor como se não estivesse apaixonado como também o faz um pouco distraído, desinteressado.

 

Talvez seja preciso estar um pouco distraído, um bocadinho desinteressado, para fazer uma coisa bem. É possível que só quando, depois de adquirirmos uma certa indiferença à possibilidade de desastre, conseguimos fazer uma coisa importante como se não importasse ela fique bem feita. Caso contrário, interpõem-se factores dispensáveis: ambições mesquinhas e grandiosas, a pessoa que queremos parecer, a pessoa que pensamos ser, quem os outros querem que sejamos – todos menos quem somos realmente. Tentamos muitas vezes ser Bublé quando podíamos ser Sinatra.

 

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Forma de Vida #9

Cá está o número mais recente da revista, agora com direcção de Telmo Rodrigues.


Passo a assinar nesta revista uma colunazita intitulada Faca de Papel, sobre leituras feitas um pouco ao sabor do momento, mas que por algum motivo se tornam importantes para mim.

Quem ler estes textos deve imaginar-se numa esplanada, talvez no Porto, observando uma leitora que abre páginas de um ou mais livros com uma faquinha concebida para esse fim. (Penso especificamente numa esplanada perto do Jardim Botânico ao sábado de manhã, mas para fins imaginativos pode ser qualquer outra, em horas diferentes.)



Richard Diebenkorn, Knife and Glass.

 
No primeiro texto escrevo sobre as minhas aventuras com Walden, de Thoreau.
 
 
 

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Biblioteca

 

Van Gogh


«The pensive man... He sees the eagle float
For which the intricate Alps are a single nest.»

«Connoisseur of Chaos», Wallace Stevens


Nem todas as pessoas que gostam de livros gostam de bibliotecas. No meu caso, não se trata de aversão aos universos sossegados da cultura livresca. Pelo contrário, parece-me que as bibliotecas contêm demasiadas distracções. Está-se fechado, refém das distracções. Requisitou-se livros necessários que demoram a chegar, não se pode ir logo embora.

Só nas bibliotecas anseio intensamente pelo mundo exterior. Numa biblioteca transformo-me temporariamente num ser que toda a vida viveu na montanha, em comunhão com a natureza, passeando em prados cheios de miosótis. Quando por acaso me encontro numa montanha, no entanto, rapidamente se torna claro que preferia não estar ali.

Poucas vezes vou a bibliotecas, mas quando vou sucedem coisas que não deviam acontecer em bibliotecas: livros desaparecidos em parte incerta ou requisitados por funcionários sem prazo de entrega; encerramento da secção onde está o livro pretendido devido a ausência do funcionário, por lesão profissional; janelas abertas para a primavera; turistas bem vestidos na esplanada em frente, bebendo descontraidamente sumo de laranja.

Cercada de livros sombrios como sentinelas adormecidas, ainda que de serviço, nunca consigo encontrar o que procuro. Lamento o tempo de deslocação para a biblioteca. Parece-me sempre preferível mandar vir o livro pela internet, desperdiçando balúrdios de dinheiro. Enquanto se espera pelos livros em casa, vigiando o mundo exterior da janela do escritório, a chuva cai lá fora, os outros, recorrendo a guarda-chuvas, cuidam das próprias vidas e, enfim, os livros avançam pelo espaço em direcção a nós, vencendo obstáculos.

Na biblioteca, ouço o rumor das palavras nos livros e às vezes os autores têm defeitos de fala ou pronúncias estranhas e não se calam.

Intrigam-me os percursos das pessoas pelas bibliotecas. De onde vêm? Para onde vão? Que assuntos estudam? Que música escutam? A que vídeo assistem ruidosamente no computador, incomodando os outros? De que lhes serve, enfim, estarem na biblioteca?

Contam-se histórias sobre ladrões especializados em bibliotecas. Ficam à espera de que as pessoas vão à casa de banho, aproveitando esses momentos para se apoderarem de tudo o que estas deixaram para trás, umas vezes mochilas sem nada de valioso, outras, a vida inteira da vítima: casacos com carteiras, telemóvel e chaves de casa e do carro, mais um computador ou outro apetrecho. Sempre que estou na biblioteca procuro identificar esses ladrões usurpadores de identidades.

Certa vez, na biblioteca da Faculdade de Letras de Lisboa, enquanto lia coisas para um ensaio que não queria escrever, escolhi um canto isolado, procurando evitar as distracções.

Foi em Dezembro; estava muito frio na biblioteca. Perto de mim, uma rapariga fortemente agasalhada dormia sobre a mesa, rodeada de comida pouco saudável. Uma pessoa a dormir ao nosso lado não representa a melhor motivação para quem deseja trabalhar. Sobre o telhado da biblioteca ouviam-se passos e instruções. Trabalhadores avançavam por ali com passos pesados.

De repente, enquanto avaliava a facilidade com que se descolam as páginas de teses mal encadernadas, caíram sobre a minha mesa algumas partículas misteriosas. Gradualmente percebi que eram palhinhas, fios, penas, dejectos secos, pedacinhos de páginas reciclados de modo estranho.

Depois de alguma reflexão, concluí que se tratava de  fragmentos de ninhos de pássaros. À medida que os homens trabalhavam no telhado, descobriam ou abriam buracos pelos quais o frio e os ninhos penetravam na biblioteca. Era como ter outro universo sobre a minha cabeça.

É sempre assim quando estou em bibliotecas. Tudo me interessa e inspira, menos o assunto que inicialmente vou lá investigar.

Essa manhã teve alguns momentos de sol, mas, coisa pouco frequente em Lisboa, o sol acabou por ser integralmente engolido pelo nevoeiro. Enervada com os fragmentos dos pássaros, dei por mim a imaginar a atmosfera húmida do horto do Campo Grande, o cheiro a cedro. Depois de menos de uma hora e meia na biblioteca, decidi ir a pé para casa, passando pelo edifício da Torre do Tombo, em cuja fachada as gárgulas vigiam a cidade, sem nunca adormecer, e alguns pássaros mais raros procuram moradia ou protecção.

Que pássaros moravam ou moram nos telhados da biblioteca da Faculdade de Letras, não posso dizer. Sei, contudo, que alguns peneireiros nidificam nos respiradouros da Torre do Tombo. No chão acumulam-se pequenos objectos alongados, com cerca de quatro centímetros de comprimento – as chamadas bolas de regurgitação ou plumadas – compostas de restos de refeição: penugem, penas, restos de insectos e ossos não digeridos que as aves regurgitam.

Para grande consternação do professor, o ensaio que tive de entregar no início de Janeiro havia de começar com uma frase digna de piedade, piorando a partir daí. A primeira frase incomodou o professor, mas não tanto como o facto de o ensaio não ter notas de rodapé suficientes.

Certa vez tive de ir à biblioteca da Cinemateca no começo da Primavera. Saindo na estação do Marquês de Pombal, atravessei parte da Avenida da Liberdade através de nuvens de sementes libertadas pelos plátanos. Quando subi a Rua Barata Salgueiro todas as árvores estavam em flor. Flores roxas e rosa rodopiavam no ar.

Na recepção da biblioteca, depois de requisitar determinado título, respondi mal à pergunta clássica de vários tipos de funcionários: «Quer ou queria?» A sala de consulta estava com a janela aberta. Quando lá cheguei, espirrei tanto que a funcionária teve de verificar se eu ainda conseguia respirar.
 
 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Adeusinho, 2016.


Bem-vindo, 2017.

A seguir, para quem se interessa por estas coisas, aparecerão gradualmente algumas listas, breves, por falta de tempo, mas a minha forma de resistir ao turbilhão.


Livros em 2016


É possível ver aqui a maioria dos livros que li em 2016. (Nota: o Goodreads não sabe tudo sobre mim.) A seguir destaco não necessariamente os títulos de que mais gostei, mas aqueles que tenho mais vontade de partilhar e recordar.





Só este ano prestei atenção a Alice Oswald, poeta, classicista e jardineira [uma entrevista elucidativa num podcast que costumo ouvir]. Esta autora costuma ser valorizada pela sua associação a formas épicas, mas prefiro os poemas mais curtos, relacionados com episódios ou questões menores. Gosto muito da atenção com que descreve as possibilidades poéticas da água.
 

 





Já tinha lido um livro de Renee Gladman, porém Ana Patova Crosses a Bridge, o terceiro volume de uma trilogia dedicada à cidade de Ravicka, uma meditação sobre uma cidade em crise (não se percebe bem se financeira) e as consequências desta crise na linguagem e nos percursos dos seus habitantes, é o meu livro preferido dela. Estava esquecido algures na pilha de livros para ler, mas a saída de Calamities, sem dúvida um dos livros mais memoráveis que li este ano, recordou-me a sua existência. Renee Gladman escreve em prosa, arrumo os livros dela nas estantes de poesia, mas não destoariam na secção de arquitectura.

 
 
 
«The crisis came out of its originary moment making numerous, slow, overlapping circles around the city until every building and every inhabitant was floundering in its enclosure. The crisis wore a T-shirt to the market and handed out flyers about climate change and asbestos; the crisis put bugs in your bed; it added periods to your sentences, so that you spoke plain and without invention. […] The crisis made me give up architecture, drawing up plans for buildings, and sat me roughly in this chair from which I did not leave for years. It was ten years, the despair, and it was five days, and it was your childhood, and the time it took to cross a bridge […]. I went on excursions to find the words the crisis had removed from me, my sentences that the crisis sent on circuitous routes through every part of the city and dropped on people’s heads, in crevices along the harbor, on the floors of banks, and made me go to them and made me sit there.» (pp. 18-19)






Dois livros inspiradores sobre arte. Nem sempre se concorda com o que é defendido, mas os textos que ajudam a pensar são raros e é preciso prestar-lhes atenção e protegê-los.







Dois autores muito diferentes, um líbio e outro chileno, que justificadamente deram que falar nas listas de fim de ano (Hisham Matar nas listas de 2016, Zambra nas listas de 2015).

The Return é uma meditação sobre a memória, as ligações familiares e a noção de desaparecimento. Por ter uma componente política muito forte relacionada com a história da Líbia, provavelmente não o teria encontrado se não me tivesse vindo parar às mãos um pouco por acaso, mas quando somos conquistados por um livro com assuntos que à partida evitaríamos, não há que duvidar.

Em Mis Documentos, de Alejandro Zambra, gostei principalmente das idiossincrasias e do sentido de humor da voz que narra.


 

A facilidade com que se encontra fotografias de Alejandro Zambra com gatos é um factor de simpatia acrescida.
 


Por último, no fim de 2016, três boas notícias: em 2017 serão publicados um livro de memórias e uma antologia dos contos de Leonora Carrington (graças às editoras New York Review Books e Dorothy, a Publishing Project, respectivamente); além disso, Maira Kalman prepara um livro sobre a New York Public Library. Aguardemos com impaciência.á há


 
 



Filmes em 2016


Cinematograficamente, ao que tudo indica (tenho sempre a esperança de alguma obra-prima me ter escapado e é tão bom descobrir bons filmes alguns anos depois de terem saído), 2016 não foi um ano inesquecível, a não ser por causa de perdas importantes, como Rivette e Kiarostami.



O filme que estreou em 2016 que recordo com mais perplexidade (sempre um bom sinal) é L’Avenir, de Mia Hansen-Love. Não é fácil escrever sobre os filmes desta realizadora. Uma das características de que mais gosto neles é a atenção à existência de todos os dias. Podem ocorrer pequenas ou grandes catástrofes, mas a vida continua sem espalhafato. Esta resiliência é mais difícil de filmar ou traduzir em imagens do que se espera. Um dos elementos de L’Avenir que mais deram que falar – o facto de a protagonista parecer impermeável às perdas que sofre – relaciona-se com a mesma posição estética (e ética). Estamos mais habituados a personagens femininas  e masculinas descontroladas e desequilibradas – parecem mais interessantes, com mais potencial ficcional –, mas é admirável que a realizadora enfrente corajosamente a opacidade da sua protagonista, sem nada fazer para nos entreter ou distrair desta dificuldade.

 


A protagonista de Julieta, de Pedro Almodóvar, parecendo à partida muito diferente de Nathalie (Isabelle Huppert) em L’Avenir, destaca-se igualmente pela capacidade de sobrevivência, embora reagindo às adversidades de modo diferente. Na obra de Almodóvar, este filme distingue-se pela sobriedade, sem, no entanto, perder a crueza e violência emocional que o realizador é exímio a trabalhar.

 



Mais duas personagens femininas intrigantes em filmes que nos deixam a pensar são Barbara (Nina Hoss), no filme de Christian Petzold (2012), e Margaret (Lindsay Crouse), em House of Games, de David Mamet (1987). Estes dois filmes tão diferentes, o de Petzold desarmantemente simples no artifício, o de Mamet mais lúdico e mais fascinado com labirintos mentais, partilham o facto de terem protagonistas difíceis de ler. Questionamo-nos durante muito tempo sobre as motivações destas mulheres também graças aos desempenhos excepcionais das duas actrizes.

 


Em 2016 tivemos a sorte de ver mais um filme de Apichatpong (Cemitério do Esplendor), um dos realizadores no activo mais originais e inesperados, com filmes que vejo sempre com curiosidade e um grande interesse na capacidade deste autor de explorar simultaneamente várias dimensões temporais sem se atrapalhar.

 


Intrigante e inesperado continua a ser The Shining, de Stanley Kubrick, um filme de 1980 que, no entanto, ainda surpreende, maravilha e causa alguma estranheza. É uma longa-metragem que admite diferentes descrições de acordo com a perspectiva assumida. Diverte-me mais vê-lo como abordagem das dificuldades de escrever. Isolados (escreve-se sempre sozinho), rabugentos, desgrenhados, frustrados com a lentidão da actividade e com as próprias incapacidades, desorientados no labirinto umas vezes vazio, outras demasiado ruidoso e povoado, da sua imaginação, os escritores, à semelhança de Jack Torrance, recebem visitas indesejadas de personagens ou pessoas do passado e do futuro – o presente, no entanto, permanece inarticulável.

 

Música em 2016



Ouço muita coisa, nem sempre com a atenção merecida, porque o faço enquanto trabalho. Sem referir alguns álbuns de 2016 que seriam escolhas óbvias mas ainda não integrei na minha vida, destaco alguns dos discos que mais ouvi durante o ano.





Ouvi muito estes dois discos, ambos de 2013, ambos de bandas com discos novos em 2016 de que ainda não gosto tanto: coincidências difíceis de explicar. Os dois transmitem energia positiva sem se levarem muito a sério (aliás, estou a ouvi-los enquanto escrevo isto e já me sinto bem-disposta). A versão Deluxe de Wildewoman inclui uma cover deliciosa de “Everybody Wants to Rule the World” que não deve ser ignorada. À semelhança de quase todos os fãs do grupo, a minha canção preferida deste disco é Two of Us on the Run. (Estou um bocado obcecada com este disco todo, para dizer a verdade.)






Tomorrow Was The Golden Age, Bing & Ruth







Pode-se dizer, sem desprestígio, que certos discos ajudam a trabalhar. Para cumprirem esta condição, não é necessário que sejam obras-primas de qualidade irrepreensível, mas é importante que não enervem muito o ouvinte.


Ouço muita coisa leve, como versões pop de Bach, bandas sonoras de filmes sobre personagens relativamente obsessivas (Sherlock Holmes, etc.) e afins, mas também descubro discos realmente bons, que por vezes ficam associados para sempre a determinado trabalho.
John Luther Adams, por exemplo, tornou-se indissociável para mim da actividade de traduzir Thoreau durante o Verão.

 




Os discos são uma maravilha. Esta entrevista com o compositor também é uma inspiração.
 
 

Podcasts em 2016


A meio do ano, fiz uma lista de podcasts (conferir em Podcasts de Verão). Nos podcasts que ouvi durante a segunda metade de 2016 – alguns até anteriores a 2016, uma das grandes virtudes dos podcasts é permanecerem disponíveis para (re)descobertas ao longo do tempo –, realce para o que se segue.
 
 
Birds in a Hurry, Elizabeth Olds

 
Design Matters continua a ser o meu podcast preferido, talvez o único que me esforço por ouvir todas as semanas. Independentemente dos convidados, alguns mais interessantes do que outros, as perguntas de Debbie Millman são sempre inteligentes, pensadas antecipadamente e baseadas numa investigação que muitas vezes surpreende os próprios entrevistados. Outro factor de interesse é a noção de design ser entendida num sentido abrangente, relacionado com as decisões que tomamos sobre a nossa vida.

 
Já não me lembro bem como descobri este episódio sobre os sentidos do silêncio, incluindo um longo comentário sobre as Variações Diabelli de Beethoven, bem como uma reflexão deslumbrante de Pico Iyer, num podcast que, tanto quanto consigo perceber, teve poucas episódios, mas foi uma das coisas que mais gostei de ouvir durante o ano.

 
Sigo vários podcasts com entrevistas a escritores. Entre os que ouvi na segunda metade de 2016, recordo os seguintes com entusiasmo.
 
 
Edmund de Waal, a propósito do livro The White Road. (Simpatizo igualmente com Paul Holdengräber, o entrevistador, sobretudo com a sua mania das citações. Explorar o arquivo de podcasts da New York Public Library é um prazer. )
 

– Para se recordar o livro que Colm Tóibín escreveu sobre Elizabeth Bishop ou ficar com uma boa ideia de como é.

 
– À laia de despedida de William Trevor [é preciso procurar o link na página].

 
– Sobre a possibilidade de encontrar a Távola Redonda em Lisboa nos nossos dias, entre outras coisas. (Alexandre Andrade).

 
– Música inspirada por artistas visuais: parte um, parte dois.


– Já gostei mais do podcast 99% Invisible, mas diverti-me muito com este episódio sobre lixo espacial.
 
 
 

domingo, 18 de dezembro de 2016

O Cinéfilo Preguiçoso em Novembro e Dezembro



18.12.2016 Os Belos Dias de Aranjuez (real. Wim Wenders, 2016)

 
11.12.2016 House of Games (real. David Mamet, 1987)

 
4.12.2016 The Shining (real. Stanley Kubrick, 1980)

 
28.11.2016 Animais Nocturnos (real. Tom Ford, 2016)

 
21.11.2016 Ela (real. Paul Verhoeven, 2016)

 
13.11.2016 À Sombra das Mulheres (real. Philippe Garrel, 2015)

 
6.11.2016 Hitchcock/Truffaut (real. Kent Jones, 2015)


domingo, 30 de outubro de 2016

O Cinéfilo Preguiçoso em Setembro e Outubro



30.10.2016 O Ornitólogo (real. João Pedro Rodrigues, 2016)

 

23.10.2016 Café Society (real. Woody Allen, 2016)

 

16.10.2016 Barbara (real. Christian Petzold, 2012)

 

9.10.2016 Um Editor de Génios (real. Michael Grandage, 2016)

 

2.10.2016 A Lagosta (real. Yorgos Lanthimos, 2015)

 

25.9.2016 Julieta (real. Pedro Almodóvar, 2016)

 

18.9.2016 Woman of Tokyo (real. Yasujiro Ozu, 1933)

 

11.9.2016 Na Cave (real. Ulrich Seidl, 2014)

 

5.9.2016 O Desconhecido do Lago  (real. Alain Guiraudie, 2013)
 
 
 

domingo, 31 de julho de 2016

O Cinéfilo Preguiçoso em Julho




31.7.2016 Uma Pastelaria em Tóquio (real. Naomi Kawase, 2015)

 
24.7.2016 Patience (After Sebald) (real. Grant Gee, 2012)

 
17.7.2016 Trespassing Bergman (real. Jane Magnusson e Hynek Pallas, 2013)

 
9.7.2016 Finding Vivian Maier (real. John Maloof e Charlie Siskel, 2013)

 
3.7.2016 Amor e Amizade  (real. Whit Stillman, 2016)

 
[O Cinéfilo Preguiçoso regressará em Setembro. Boas férias para todos.]