Numa entrevista que passou na terça-feira à noite no programa Bairro Alto, Siri Hustvedt contou a dada altura que, arrumando as coisas do pai morto, descobriu um molho de chaves identificadas com a etiqueta «Unknown Keys». Chaves que já não abrirão mais nada, chaves de coisas que continuarão para sempre fechadas.
A mala de B. continuava fechada com um cadeado, mas, lá dentro, ele encontrou um papelinho informando que as coisas dele tinha sido revistadas.
Animais Domésticos
«Misunderstand me correctly.» (Sibelius) | setadespedida@yahoo.co.uk
Quinta-feira, 25 de Junho de 2009
Coisas fechadas
Work in progress
No Alphaville, de Godard, Anna Karina lê Paul Éluard.
No filme Splendor in the Grass, de Elia Kazan, são lidos alguns versos do poema de Wordsworth («Ode on Intimations of Immortality») que inspira o próprio título do filme. (Por sua vez, o filme inspirou um poema de Ruy Belo.)
No filme Seven, de David Fincher, os detectives chegam ao assassino através de uma lista de pessoas que requisitaram certos livros nas bibliotecas. Se não me engano, um desses livros é a Divina Comédia, de Dante.
Neste caso, não é um poema, mas um romance que tem um papel importante no enredo de um filme (conta comigo para ignorar as regras): em A Teoria da Conspiração, de Richard Donner, o protagonista, já não sei bem porquê, é totalmente obcecado pelo livro The Catcher in the Rye, de J. D. Salinger, de que passa a vida a comprar novos exemplares.
Quarta-feira, 17 de Junho de 2009
Curtas de Verão


Ninguém me perguntou nada, mas tenho visto nas livrarias a tradução portuguesa do Oscar and Lucinda, de Peter Carey (Dom Quixote), que li há pouco tempo, e recomendo vivamente. É um romance com dois protagonistas absolutamente singulares (que, por acaso, são ambos jogadores inveterados), e uma intriga cheia de aventuras e reviravoltas, entre as quais se destaca o transporte de uma igreja de vidro através da selva australiana.
[De momento, não vamos falar dos livros grandes que tenho na estante e ainda não li.]
Chás que pareceram boa ideia

A sugestão é não comprar.
Máximas estivais
«He would deal with each problem as it came up or he would die.»
(Misery, Stephen King, p. 87)
The Pedant in the Kitchen

«A mais monótona das sopas pode ganhar nova vida se lhe forem acrescentados pequenos detalhes capazes de lhe conferir um toque de magia e um gostinho inesquecível.»
Terça-feira, 16 de Junho de 2009
La chambre verte
- o cemitério, a tarde em que Julien foi visitar a sepultura da mulher depois de o quarto verde arder (Davenne só se apercebeu de que era altura de regressar a casa de noite, depois de o cemitério fechar, quando já era impossível sair);
- a descoberta da capela dos mortos, nessa mesma noite;
- a primeira visita de Cecilia Mandel à capela dos mortos;
- os mortos de Truffaut/Davenne;
- a visita aos objectos que iam ser vendidos em leilão;
- a destruição do manequim da mulher morta.
Domingo, 14 de Junho de 2009
Museu da luz

Não encontro na Internet uma imagem capaz de evocar o que se sente ao entrar nas salas onde está exposto algum trabalho de Dan Flavin, da colecção Panza, no Museu Berardo.
Já tinha visto peças de Dan Flavin noutros museus, mas entre obras de outros artistas, expostas como se fossem pinturas, partilhando o espaço que devia se ser só seu. Entrar nestas salas só de luz, estar lá dentro, é uma experiência quase transcendental.
Terça-feira, 9 de Junho de 2009
Gallop apace, you fiery-footed steeds
Romeo and Juliet, Nature Theater of Oklahoma O ponto de partida foi a peça Romeu e Julieta, geralmente o primeiro texto do autor que se estuda na escola ou na faculdade. Foram feitos alguns telefonemas, em que se pediu ao interlocutor que tentasse resumir a intriga da peça, citar algumas passagens de que se lembrasse e explicar o significado de tudo isso para ele.
O texto da peça que esteve em cena no Maria Matos baseia-se, então, nas lembranças ou nas lacunas da memória em relação a esta peça de Shakespeare: personagens (da peça ou não) que se destacam, outras que quase se diluem, partes da história difíceis de recordar, interpretações estranhas do desenlace relacionadas com a morte de Anna Nicole Smith e o 11 de Setembro, memórias escolares, um filme com o Leonardo DiCaprio, vídeos do YouTube ou bocas que se mandam em chatrooms.
Falando com alguém sobre qualquer peça de Shakespeare, obteremos resultados semelhantes. Das peças ficam não exactamente as coisas que estudámos e discutimos na escola, mas os elementos com que nos identificamos mais, nos quais encontramos pontos de contacto com a nossa vida.
Para articularem estes monólogos coloquiais e cheios de hesitações, os actores adoptavam a postura e a dicção dos mais convictos actores shakespearianos. Às vezes também nós nos comportamos assim.
Terça-feira, 2 de Junho de 2009
A minha Feira do Livro deste ano
Sem muito tempo livre no mês de Maio, só pude fazer duas visitas ao parque Eduardo Sétimo, ambas em dias pouco agradáveis.
Da primeira vez, no dia um de Maio, estava um calor insuportável e imensa gente: Lisboa em peso estava ali concentrada e penso até que vi ranchos folclóricos, trajados a rigor, com elementos empurrando carrinhos de bebé. Da segunda vez, começou a chover.
Ainda hoje me pergunto onde estariam os tão publicitados novos equipamentos de restauração que a organização classificou como «diversificados».
Receio bem ser das poucas pessoas a quem a praça Leya não convenceu: será mesmo necessário ter sempre música aos berros para vender livros?
Julgar-se-ia que um dos traços distintivos do conceito de Feira do Livro deveria ser colocar à disposição das pessoas livros interessantes com descontos atractivos. Acho inacreditável que não haja informação organizada sobre os livros do dia propostos pelas várias editoras. Fiquei muito contente por encontrar e comprar a tradução de Paulo Farmhouse Alberto das Metamorfoses de Ovídio com 40% de desconto, mas isto aconteceu totalmente por acaso. Custará assim tanto pedir às editoras uma lista dos seus livros do dia antes do início da Feira e facultá-la aos interessados?
Para que é que a APEL tem um blogue se este não transmite a informação mais importante?
Os corpos que temos
Em princípio, cada ser humano tem uma cabeça com dois olhos, um nariz e uma boca, um tronco, dois braços, duas mãos com cinco dedos cada, duas pernas, dois pés também com cinco dedos, um esqueleto a suportar isto tudo.«Os morfogénios que atravessam o embrião em desenvolvimento fornecem às células uma espécie de grelha de coordenadas que lhes permitem descobrir onde se encontram e, por consequência, o que devem ser e fazer. Uma célula é, assim, bastante semelhante a um navegador que, atravessando os confins do oceano, trabalha com sextante e cronómetro para encontrar a longitude e a latitude do ponto onde se encontra a cada momento.» (pp. 106-107, trad. Jorge Lima)
Sexta-feira, 22 de Maio de 2009
In Memoriam João Bénard da Costa
Comecei a apreciá-lo mais quando passei a viver em Lisboa e a ler com regularidade as folhas de sala da Cinemateca. Contudo, de uma coisa não tenho dúvidas: artigos e livros inteiros poderão ter sido escritos sobre alguns filmes, mas quando lemos as duas ou três páginas que Bénard escreveu sobre o mesmo tema, estas são quase sempre mais inspiradoras, qualidade bastante rara nos dias que correm.
Quinta-feira, 30 de Abril de 2009
Não se vive mal em Lisboa nestes dias
O meu Indie Lisboa começou no dia 24 de Maio com o excelente Waiting for Sancho, de Mark Peranson, uma espécie de making-of poético do filme O Canto dos Pássaros, em que Albert Serra, por vezes à espera não só de Sancho mas também do nevoeiro, explica que neste filme quis recusar sentimentalidade e narrativa, ficando apenas com algo de muito básico: pessoas de que gostava (os actores) e uma câmara.Seguiu-se La Belle Personne, o mais recente de Christophe Honoré, de que gostei muito, sobretudo por ser um filme de Inverno tão desordenado. Haverá ainda filmes de João Rosas, Wong Kar Wai e Terence Davies.
Mais ou menos por altura da estreia do filme Conto de Natal, o Instituto Franco-Português vai passar alguns filmes de Arnaud Desplechin que ainda não vi. (Falar de Desplechin como sendo alguém que leu demasiados livros e viu demasiados filmes sem compreender bem nenhum deles parece-me uma excelente descrição; é precisamente por isto que gosto dos filmes dele.)
No Teatro D. Maria está uma peça de Strindberg com uma actriz magnífica como protagonista.
Feira do Livro, Primavera, gelados, jacarandás a florir…
Leituras
A capa da minha edição é bastante esclarecedora: há animais selvagens que alguns escritores tratam como animais domésticos.
No caso de David Foster Wallace, os animais selvagens são a depressão, conversa de psiquiatra, medicamentos perigosos e outras obsessões, sexuais ou não. Os temas são explorados até à exaustão em círculos concêntricos difíceis de suportar.
Não é impunemente que se trata animais selvagens como animais domésticos.
Segunda-feira, 27 de Abril de 2009
O que eu fiz no 25 de Abril
[Informação retirada de um dos folhetos oferecidos]
Quarta-feira, 8 de Abril de 2009
Breves de Páscoa

Do filme I Vitelloni (Os Inúteis, 1953), de Fellini
Pessoas que durante o último ano me ouviram sempre que eu disse mal de todo o cinema italiano em geral a propósito dos filmes Rocco, de Visconti, e A Noite, de Antonioni (e foram muitas, bem sei), obrigada pela paciência. Continuo a detestar estes dois filmes, mas já consigo admitir que o cinema italiano tem obras-primas.
Proteger o bestseller, coitadinho
Mal estaríamos se os proprietários das livrarias não pudessem seleccionar os livros que eles próprios expõem e vendem. Lendo alguns posts por aí dir-se-ia não só que não querer vender alguns bestsellers numa livraria pequena é uma opção que prejudica gravemente o consumidor, mas também que não somos bombardeados por sucessos de venda em quase todos os estabelecimentos (livrarias ou não) em que ousemos entrar, em quase todos os jornais ou revistas que tentamos folhear. Haja sítios livres de bestsellers! Por mim, valorizo as livrarias que me mostram livros que não encontro noutro lugar.
Especiarias
Paga-se 87 euros por quilo (esta embalagenzita de 30 gramas custa 2.60 euros ), mas até o aroma é maravilhoso.
Capas

Esta capa tem muito que se lhe diga.
Segunda-feira, 6 de Abril de 2009
Links selvagens e domésticos
O sentido é revisitação ou uma selva dentro da selva, de Luís Quintais
Que me lembre, nunca linkei estes blogues, mas há muito que os leio com interesse:
Duas das minhas séries preferidas da blogosfera:
Coisas que melhoram algumas vidas
Livros pedidos, deste blogue: Henrique, volta!
Sexta-feira, 3 de Abril de 2009
A Mulher Sem Cabeça, de Lucrecia Martel

A dada altura aparece a beber uma limonada. Quando a mãe a chama para se vir embora, pousa o copo com a bebida inacabada no balcão da cozinha e sai da imagem. Pouco depois, aproxima-se um menino que também por ali anda um pouco gratuitamente e bebe desse copo sem ninguém da casa dar por isso.
Assim, em pano de fundo, se processa o contágio.
Desejo de ir embora
Potencialidades ficcionais das enxaquecas
Sonho em encontrar uma antologia em que esta condição assuma um papel se não central pelo menos importante. Que me lembre, infelizmente, não me passaram pelas mãos muitos textos com esta característica. Para além do conto de Anne Enright, um conto de Julio Cortázar e o magnífico segundo capítulo de Margarita e o Mestre. Alguém se recorda de outros?
[Este post veio a propósito de um Top Ten de cenas com café.]
Um comentário de Luís Monteiro:
Há outras referências julgo eu. Desde o "basta" do Robert Walser, até ao retrato de um artista de Joyce. Um ou outro livro do Bernhard. E talvez, "Amor e Dinheiro" de Erskine Caldwell. E eventualmente, uma estrofe das elegias de Hölderlin.
Uma sugestão de Simão Pamplona
Entre o conto e a crónica: "In Bed", de Joan Didion (do livro The White Album).
Segunda-feira, 30 de Março de 2009
Cecil B. DeMille em Lisboa
Parecia uma praga do Egipto.
Sementes e ilhas

Quinta-feira, 26 de Março de 2009
Preocupaçõezitas de fim-de-semana
Por outro lado, tenho de reconhecer com alguma contrariedade que encaixaria na perfeição em alguns filmes de realizadores em relação aos quais tenho sentimentos ambíguos.
Não vou dizer nomes.
Estranhamente ou talvez não, é sempre muito mais difícil gostarmos do que está próximo de nós.
Por outras palavras, existe uma certa distância entre nós e o que amamos.
Algo não domesticado
Encontro esta descrição admirável em The Mystery of Edwin Drood, o romance que Dickens deixou por terminar, assim dando origem a páginas e páginas de especulações intermináveis sobre o destino das suas personagens.
Sexta-feira, 20 de Março de 2009
Suspensão de vida
Um desses livros tinha na capa uma imagem a preto e branco de um filme a cores de Bresson que não só eu nunca tinha visto como já tinha desesperado de ver.
Vi esse filme ontem. As cores são mesmo muito importantes: o rapaz que aparece na imagem, protagonista do filme, é pintor.
Acho que nem pestanejei nem respirei durante os breves segundos em que a imagem que está na capa do livro apareceu no écran.

O protagonista sai da cama, vai à janela, olha para cima e observa a chuva a deslizar pelo vidro.
Figuras femininas em Bresson e exclusão
Perante a protagonista de Quatre nuits d’un rêveur, e pensando nas figuras feminas de outros filmes de Bresson, nomeadamente Procès de Jeanne d’Arc, Pickpocket, Le Diable Probablement, Au hasard Balthasar, Une femme douce ou até Lancelot du Lac, chego a três conclusões não muito interessantes.Apesar de Bresson ter declarado várias vezes que costumava escolher os actores/modelos através de conversas por telefone por achar que, no cinematógrafo, o som da voz é mais importante do que a aparência, quase todas as mulheres que aparecem em papéis dignos de nota nos filmes do realizador correspondem a um mesmo tipo físico com traços delicados e miudinhos.
O tipo feminino que Bresson gosta de filmar está nos antípodas do de María Casares, actriz com que o realizador teve vários conflitos durante a rodagem de Les Dames du Bois de Boulogne. (Não chego ao ponto de dizer que Bresson procurou a maior distância possível de María Casares em todas as mulheres que filmou – muito embora quase acredite nisso.)
Uma vez que fisicamente estou muito mais próxima de María Casares do que das outras mulheres que o realizador francês filmou depois, fico com a certeza (terrível) de que nem sequer como figurante poderia alguma vez aparecer num filme de Bresson.
Segunda-feira, 16 de Março de 2009
Sábado, 14 de Março de 2009
Barcas novas
Céline et Julie vont en bateau, de Jacques Rivette (1974)

Passei o Verão em Berlim, de Angela Schanelec (1993)
Agora que já tenho imagens, completo o contexto. 

Durante um encontro numa esplanada vazia em frente a um lago com um editor que parecia interessado no que ela tinha escrito, mas afinal decidira não a publicar, a personagem principal (representada pela própria realizadora) sugere que vão ambos dar antes um passeio de barco.
Quinta-feira, 12 de Março de 2009
Quinta frase, p. 161

Respondendo ao desafio que me foi colocado aqui, cito de The Shadow of the Sun, de A. S. Byatt, que acabei de ler ontem.
Descontextualizada, a quinta frase parece intrigante, mas regras são regras:
«Underwear will do.»
Na introdução explica-se que o livro foi inicialmente publicado com o título Shadow of the Sun. Como era o seu primeiro romance, A. S. Byatt aceitou calmamente a eliminação do artigo «the» do título, proposta por Cecil Day Lewis, da Chatto and Windus.
Mais tarde, porém, quando já era uma escritora consagrada, fez questão de repor o título original, argumentando que «The sun has no shadow, that is the point. / You have to be the sun or nothing.»
O sol de A. S. Byatt neste livro é, segundo ela própria, muito influenciado pelo sol de Van Gogh. É sempre muito interessante reflectir um pouco sobre a influência das artes plásticas na prosa deste escritora. Nunca se trata de escrever sobre imagens, espaços ou personagens vindos directamente da tela dos pintores que a inspiram. Das telas ficam as cores, os movimentos, aquilo da visão de A. S. Byatt que a escritora descobre ter em comum com a visão dos artistas.
Pessoalmente, prefiro os contos e os ensaios desta escritora aos seus romances. Mas este romance é muito bom.
Imagem: Cornfield by Moonlight with the Evening Star, Samuel Palmer, c. 1830, reproduzido na capa da minha edição.
Segunda-feira, 9 de Março de 2009
Os filmes de Angela Schanelec
A partir de quinta-feira, até domingo, na Culturgest.
Uma oportunidade única para conhecer melhor o cinema desta realizadora alemã.
Programação: André Dias
Sexta-feira, 6 de Março de 2009
Receitas
Nem diários, nem cartas. Os únicos cadernos que a minha avó guardava eram de receitas, algumas apontadas por ela, outras pelo meu avô, que tinha uma caligrafia muito bonita, embora difícil de decifrar.De certa forma, é possível encontrar nestes cadernos um registo fiel do quotidiano dos meus avós. Não só aquilo que comiam todos os dias, mas também parte do que se passava entre as refeições, sobretudo na vida da minha avó: os períodos de escolha, as compras, a preparação dos pratos, o tempo de espera enquanto a comida estava no forno ou ao lume, os sonhos por entre tudo isto.
Da última vez que visitei a casa dos meus avós, fiquei incomodada com o vazio daquele sítio que costumava estar sempre cheio de gente. A toda a hora me parecia sentir chegar alguém com coisas para contar ou perguntas a fazer. Um cão ou um gato dos muitos que por lá foram morando.
Se ao menos me tivesse lembrado dos livros de receitas.
Terça-feira, 3 de Março de 2009
As minhas aventuras com Peter Carey
Enquanto Jack Maggs é um dos melhores, mais bem pensados, mais bem escritos, romances que li nos últimos tempos, Theft, a Love Story é dos mais inúteis e dispensáveis. Tentar escrever à Faulkner, com uns laivos de John Banville à mistura, dá nisto, ainda que se escolha um tema tão interessante como as falsificações em arte.A questão das influências, mal ou bem digeridas, explícitas ou implícitas, tem muito que se lhe diga.
As minhas aventuras com Peter Carey ainda não vão ficar por aqui, apesar de tudo. Há um Oscar and Lucinda à minha espera na estante. Vai é continuar à espera durante algum tempo.
Anatomia, Botânica

Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009
Segredos de um bestseller
Stephen King: I don’t think there’s anything that I’m not afraid of, on some level. But if you mean, What are we afraid of, as humans? Chaos. The outsider. We’re afraid of change. We’re afraid of disruption, and that is what I’m interested in.
Uma questão de casting
Kathy Bates - que em 1991 recebeu o Óscar e o Globo de Ouro para melhor actriz num papel principal enquanto Annie Wilkes, a inesquecível protagonista do filme Misery, realizado por Rob Reiner a partir do romance de Stephen King em que uma fã psicopata sequestra o escritor preferido para o obrigar a escrever aquilo que ela quer - desempenha, em Revolutionary Road, o papel de uma vendedora imobiliária com um discurso pejado dos lugares-comuns habituais ao contexto social que marca o filme.
No filme, a inadequação à realidade do discurso e do comportamento da vendedora imobiliária de Revolutionary Road está evidente para quem a quiser perceber (na personagem do filho, doutorado em matemática mas a receber tratamento psiquiátrico relacionado com electrochoques, no carácter apagado e passivo do marido, no modo como o que percebemos daquele universo parece escapar a tudo o que ela diz sobre ele), mas a simples presença física de Kathy Bates contribui para acentuar o quanto há de perturbador numa personagem aparentemente tão convencional e tão integrada.
Vale sempre a pena chamar a atenção para estas personagens que persistem em encarnar e defender um modo de vida ideal e desajustado, apesar de quase tudo o que se passa em torno delas indiciar que estão erradas. É importante reflectir sobre o papel delas, mesmo quando parecem secundárias. Quem estiver atento verá que é ali que reside o rosto mais puro do terror.
Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009
Jack Maggs, de Peter Carey
A propósito deste livro, constato dois fenómenos interessantes .Apesar de ter personagens que vêm do romance Great Expectations, de Dickens, apesar de a narrativa se situar na cidade e no tempo de Dickens, apesar de incluir uma personagem (o escritor Tobias Oates) que partilha elementos biográficos com Dickens, em Jack Maggs a referência a Dickens acaba por funcionar de modo deceptivo: encontro mais Charles Dickens nos primeiros romances de Paul Auster (principalmente nas personagens que andam à deriva pelo mundo, lutando pela sobrevivência física) do que em Peter Carey.
Não se trata de uma constatação negativa, embora, por si só, também não seja necessariamente positiva. Não haverá muitos escritores que se confrontem com os universos das suas supostas influências e sobrevivam incólumes ao embate. Interessa, no entanto, averiguar se conseguem ganhar alguma coisa com isso. (Terei de ler mais livros de Peter Carey para perceber.)
Colecção de mãos
«It had always been Tobias method to approach his subject by way of the body. When he’d first set himself the task of writing about Jack Maggs, he had first produced a short essay on his hands, pondering not merely the fate of the hidden tendons, the bones, the phalanges, the intercarpals which would one day be liberated by the worms, but also their history: what other hands they had caressed, what lives they had taken in anger.»Segunda-feira, 9 de Fevereiro de 2009
Without a trace
Sempre que vejo na televisão notícias sobre portugueses desaparecidos no estrangeiro, penso na facilidade com que eles podiam ser eu.Comigo desaparecida sem rasto, vejo as pessoas que gostam de mim a ser entrevistadas, o ar perplexo delas perante factos aparentemente decisivos para a investigação que a polícia tivesse descoberto depois de esmiuçar a minha a vida a pente fino.
Perante algumas coisas que eu própria já esqueci, as pessoas que gostam de mim estariam mentalmente a reorganizar tudo o que pensavam saber sobre quem eu era. Uma ou outra pessoa diria com certeza, como às vezes se ouve, mesmo sem se ter desaparecido: ‘Não sabia, não. Era uma pessoa reservada. É difícil conhecer realmente uma pessoa assim.’
Desaparecer é, em si, um verbo muito ambíguo. Nada desaparece de facto.
Os desaparecidos podem estar mortos ou vivos. Quando muito, nos casos mais graves, permanecem em dispersão pelo mundo, o corpo desmembrado e em transformação.
A alguns desaparecidos acontece simplesmente esquecerem-se de quem eram ou do destino para o qual seguiam. Sem essa memória é-lhes difícil retomar a existência normal, pelo que ficam onde nem eles conseguem ao certo identificar.
Aos outros sucede apenas decidirem mudar de vida e, sem aviso, deixarem tudo para trás. Estes, embora só esporadicamente e com relutância confessem de onde vieram, e no momento não desejem explicar para onde pensam que vão, se quisessem, podiam revelar onde estão.
Sábado, 7 de Fevereiro de 2009
Um caso linguístico
Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009
Suspeitas

Quando o BFI realizou um inquérito a vários realizadores, pedindo-lhes que falassem da importância e da influência de Hitchcock nas obras de cada um, Woody Allen manifestou predilecção precisamente pelo filme que agora usa neste Vicky Cristina Barcelona.
Domingo, 1 de Fevereiro de 2009
Fins-de-semana
Ao vento e à chuva, explicam-me que durante muito tempo houve praia até ao Mosteiro dos Jerónimos.
Jacintos e Matisse

Tears dry on their own
Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009
Filmes que fogem, filmes de que não se consegue escapar
Por entre os mais que vistos filmes com Brad Pitt e Harrison Ford com que a Cinemateca vai em Fevereiro ocupar espaço válido em que poderia passar títulos mais difíceis de ver quer em DVD, quer em salas do circuito comercial (vide estranho ciclo intitulado Divos às matinées), destaque para a retrospectiva Bresson, que será apresentada durante Fevereiro e Março, em articulação com uma exposição de Rui Chafes e um livro que João Miguel Fernandes Jorge escreveu a partir dos filmes do realizador francês.A 25 de Fevereiro teremos oportunidade de ver o esquivo Les Affaires Publiques, filme realizado em 1934, mas dado como desaparecido até 1986, quando, por acaso, foi encontrada uma cópia na Cinemateca Francesa disfarçada sob um título diferente (Beby Inaugure - sendo Beby o nome do palhaço protagonista).
Em Março, também a não perder, pelo menos por mim, será Quatro Noites de um Sonhador, para além de Les Affaires Publiques, o único filme que me falta ver de Bresson. Este filme de 1971 que há muito procuro por todo o lado é inspirado pela novela Noites Brancas, de Dostoiévski, a tal em que as personagens falam como se estivessem a ler livros.
Aguardemos, portanto, com tranquilidade.
Usos e adaptações

Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009
Aquisições de fim-de-semana
Simpatizo imenso com textos que ficcionam episódios da vida de escritores, mesmo quando contados às criancinhas. Não se publica o suficiente sobre este tema.(Um dos meus textos preferidos em língua portuguesa tem uma inspiração semelhante. Intitula-se «Super Flumina Babylonis» e gira em torno daquele que poderia ter sido o dia em que Camões começou a escrever «Sôbolos rios que vão por Babilónia». Por acaso, o conto de Jorge de Sena está online: é aproveitar.)
Quanto ao Dicionário de Milagres, parece-me um livro delicioso. Não sendo
francamente tranquilizador quanto à autenticidade do texto publicado, o posfácio de Luiz Pacheco(«Não se trata de uma edição crítica, muito menos de uma edição erudita ou apologética. Procurou-se, isso sim, facilitar ao leitor de 1980 o contacto com um texto, emendando gralhas evidentes e, em tal tarefa, muito ajudados fomos por uma cópia dactilografada do sr. Onair de Carvalho, tio do Poeta António Manuel Couto Viana, que no Porto, decerto na Biblioteca Nacional, amorosa e pacientemente copiou o livro todo e anotou-o […]») como que aponta, de certo modo, para a possibilidade de haver no livro um ou outro milagre de índole ligeiramente neo-abjeccionista.
Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009
Links selvagens e domésticos
Colecção de mãos
Wash your hands with hands: que conceito magnífico. Mãos de sabonete, vagamente sinistras, feitas de glicerina e leite de cabra, todas elas com cores e formatos diferentes.
2009, ano para ouvir
Se quiséssemos guardar um registo dos sons mais importantes para nós, quais seriam aqueles que cada um gravaria?
Um artista americano quis descobrir e tomou a decisão de gravar em 2009 um som por dia para colocar no blogue. Para já temos, entre outros: neve a derreter, um ribeiro a correr, areia numa praia havaiana, o interior da Grand Central Station. Alguns, como o do dia 22 - o gato Pixel dormindo ruidosamente sobre a secretária - são perfeitamente irresistíveis.
Terrible am I child?
Não perceber patavina da letra é sempre um dos factores mais decisivos. Para acabar finalmente com o ano passado, uma das canções de 2008 que mais ouvi em repeat.
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