«I too am not a bit tamed, I too am untranslatable» (Walt Whitman) | setadespedida@yahoo.co.uk

sábado, 14 de março de 2009

Barcas novas

Três filmes que terminam com passeios de barco (ou planos de lago vazio depois de um passeio de barco):

Céline et Julie vont en bateau, de Jacques Rivette (1974)


Happy-go-lucky, de Mike Leigh (2008)


Passei o Verão em Berlim, de Angela Schanelec (1993)

Agora que já tenho imagens, completo o contexto.



Durante um encontro numa esplanada vazia em frente a um lago com um editor que parecia interessado no que ela tinha escrito, mas afinal decidira não a publicar, a personagem principal (representada pela própria realizadora) sugere que vão ambos dar antes um passeio de barco.


Desejos de fim-de-semana

Um colar de coral vermelho e cerejas cristalizadas.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Quinta frase, p. 161


Respondendo ao desafio que me foi colocado aqui, cito de The Shadow of the Sun, de A. S. Byatt, que acabei de ler ontem.
Descontextualizada, a quinta frase parece intrigante, mas regras são regras:
«Underwear will do.»

Na introdução explica-se que o livro foi inicialmente publicado com o título Shadow of the Sun. Como era o seu primeiro romance, A. S. Byatt aceitou calmamente a eliminação do artigo «the» do título, proposta por Cecil Day Lewis, da Chatto and Windus.
Mais tarde, porém, quando já era uma escritora consagrada, fez questão de repor o título original, argumentando que «The sun has no shadow, that is the point. / You have to be the sun or nothing.»

O sol de A. S. Byatt neste livro é, segundo ela própria, muito influenciado pelo sol de Van Gogh. É sempre muito interessante reflectir um pouco sobre a influência das artes plásticas na prosa deste escritora. Nunca se trata de escrever sobre imagens, espaços ou personagens vindos directamente da tela dos pintores que a inspiram. Das telas ficam as cores, os movimentos, aquilo da visão de A. S. Byatt que a escritora descobre ter em comum com a visão dos artistas.

Pessoalmente, prefiro os contos e os ensaios desta escritora aos seus romances. Mas este romance é muito bom.

Imagem: Cornfield by Moonlight with the Evening Star, Samuel Palmer, c. 1830, reproduzido na capa da minha edição.


segunda-feira, 9 de março de 2009

Os filmes de Angela Schanelec

De Tarde

A partir de quinta-feira, até domingo, na Culturgest.


Uma oportunidade única para conhecer melhor o cinema desta realizadora alemã.


Programação: André Dias


sexta-feira, 6 de março de 2009

Receitas

Nem diários, nem cartas. Os únicos cadernos que a minha avó guardava eram de receitas, algumas apontadas por ela, outras pelo meu avô, que tinha uma caligrafia muito bonita, embora difícil de decifrar.
De certa forma, é possível encontrar nestes cadernos um registo fiel do quotidiano dos meus avós. Não só aquilo que comiam todos os dias, mas também parte do que se passava entre as refeições, sobretudo na vida da minha avó: os períodos de escolha, as compras, a preparação dos pratos, o tempo de espera enquanto a comida estava no forno ou ao lume, os sonhos por entre tudo isto.
Da última vez que visitei a casa dos meus avós, fiquei incomodada com o vazio daquele sítio que costumava estar sempre cheio de gente. A toda a hora me parecia sentir chegar alguém com coisas para contar ou perguntas a fazer. Um cão ou um gato dos muitos que por lá foram morando.
Se ao menos me tivesse lembrado dos livros de receitas.


terça-feira, 3 de março de 2009

As minhas aventuras com Peter Carey

Enquanto Jack Maggs é um dos melhores, mais bem pensados, mais bem escritos, romances que li nos últimos tempos, Theft, a Love Story é dos mais inúteis e dispensáveis. Tentar escrever à Faulkner, com uns laivos de John Banville à mistura, dá nisto, ainda que se escolha um tema tão interessante como as falsificações em arte.
A questão das influências, mal ou bem digeridas, explícitas ou implícitas, tem muito que se lhe diga.
As minhas aventuras com Peter Carey ainda não vão ficar por aqui, apesar de tudo. Há um Oscar and Lucinda à minha espera na estante. Vai é continuar à espera durante algum tempo.


Anatomia, Botânica





Em caso de incêndio, as pinhas são perigosas, pois explodem, projectando faúlhas que podem ser lançadas a quilómetros de distância devido ao vento, levando o fogo para mais longe, e em várias direcções.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Segredos de um bestseller

Interviewer: What do you think we’re afraid of?

Stephen King: I don’t think there’s anything that I’m not afraid of, on some level. But if you mean, What are we afraid of, as humans? Chaos. The outsider. We’re afraid of change. We’re afraid of disruption, and that is what I’m interested in.



Está-me a apetecer uma maratona cinematográfica com filmes baseados em livros de Stephen King.


Uma questão de casting


Encontro uma das opções de casting mais interessantes que me lembro de ter visto em cinema nos últimos tempos na escolha de Kathy Bates para encarnar o papel de Mrs. Helen Givings no filme Revolutionary Road, de Sam Mendes.
Kathy Bates - que em 1991 recebeu o Óscar e o Globo de Ouro para melhor actriz num papel principal enquanto Annie Wilkes, a inesquecível protagonista do filme Misery, realizado por Rob Reiner a partir do romance de Stephen King em que uma fã psicopata sequestra o escritor preferido para o obrigar a escrever aquilo que ela quer - desempenha, em Revolutionary Road, o papel de uma vendedora imobiliária com um discurso pejado dos lugares-comuns habituais ao contexto social que marca o filme.

No filme, a inadequação à realidade do discurso e do comportamento da vendedora imobiliária de Revolutionary Road está evidente para quem a quiser perceber (na personagem do filho, doutorado em matemática mas a receber tratamento psiquiátrico relacionado com electrochoques, no carácter apagado e passivo do marido, no modo como o que percebemos daquele universo parece escapar a tudo o que ela diz sobre ele), mas a simples presença física de Kathy Bates contribui para acentuar o quanto há de perturbador numa personagem aparentemente tão convencional e tão integrada.

Vale sempre a pena chamar a atenção para estas personagens que persistem em encarnar e defender um modo de vida ideal e desajustado, apesar de quase tudo o que se passa em torno delas indiciar que estão erradas. É importante reflectir sobre o papel delas, mesmo quando parecem secundárias. Quem estiver atento verá que é ali que reside o rosto mais puro do terror.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Jack Maggs, de Peter Carey

A propósito deste livro, constato dois fenómenos interessantes .

Apesar de ter personagens que vêm do romance Great Expectations, de Dickens, apesar de a narrativa se situar na cidade e no tempo de Dickens, apesar de incluir uma personagem (o escritor Tobias Oates) que partilha elementos biográficos com Dickens, em Jack Maggs a referência a Dickens acaba por funcionar de modo deceptivo: encontro mais Charles Dickens nos primeiros romances de Paul Auster (principalmente nas personagens que andam à deriva pelo mundo, lutando pela sobrevivência física) do que em Peter Carey.
Não se trata de uma constatação negativa, embora, por si só, também não seja necessariamente positiva. Não haverá muitos escritores que se confrontem com os universos das suas supostas influências e sobrevivam incólumes ao embate. Interessa, no entanto, averiguar se conseguem ganhar alguma coisa com isso. (Terei de ler mais livros de Peter Carey para perceber.)

Depois, quando leio este livro acontece-me uma coisa estranha. Não tenho por hábito imaginar actores dando corpo às personagens dos romances, mas aqui vejo sempre Harvey Keitel quando vejo Jack Maggs. Terá Peter Carey concebido o protagonista a partir de Harvey Keitel, imaginando que o actor poderia um dia ser o protagonista de um filme realizado a partir do livro? Ou não passará tudo isto de uma fantasia minha?


Colecção de mãos

«It had always been Tobias method to approach his subject by way of the body. When he’d first set himself the task of writing about Jack Maggs, he had first produced a short essay on his hands, pondering not merely the fate of the hidden tendons, the bones, the phalanges, the intercarpals which would one day be liberated by the worms, but also their history: what other hands they had caressed, what lives they had taken in anger.»

Jack Maggs, de Peter Carey, Faber and Faber, p. 303

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Um caso linguístico

O uso da expressão «desmancho» para referir «aborto espontâneo» está documentado em dicionários e em textos dedicados ao assunto. Em caso de dúvida, ver, por exemplo, as acepções 3 e 4 da entrada no Moderno Dicionário da Língua Portuguesa da Michaelis, ou consultar páginas como as seguintes: I, II, III).


terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Suspeitas


Para quem não tenha reparado, o filme que duas personagens (Vicky/Rebecca Hall e o colega da aula de castelhano) em Vicky Cristina Barcelona vão ver é Shadow of a Doubt, de Alfred Hitchcock. A cena que aparece diz respeito ao momento em que o tio (Charlie Oakley/Joseph Cotten) tenta matar a sobrinha (Charlie Newton/Teresa Wright) no comboio, de modo a impedi-la de o desmascarar como assassino.
Quando o BFI realizou um inquérito a vários realizadores, pedindo-lhes que falassem da importância e da influência de Hitchcock nas obras de cada um, Woody Allen manifestou predilecção precisamente pelo filme que agora usa neste Vicky Cristina Barcelona.

Por mim, acho que desde Deconstructing Harry não gostava tanto de um filme de Woody Allen. Mas, claro, tenho um fraco por contos morais em que os protagonistas percebem que afinal desejam exactamente o oposto daquilo que julgavam desejar, e achei verdadeiramente magníficas quer Rebecca Hall, quer a saturnina personagem que ela representa.


domingo, 1 de fevereiro de 2009

Fins-de-semana


Ao vento e à chuva, explicam-me que durante muito tempo houve praia até ao Mosteiro dos Jerónimos.


Jacintos e Matisse



Já me aconteceu reparar que, se colocarmos íris brancos e azuis na mesma jarra, existe uma grande probabilidade de as flores brancas começarem a adquirir tons azulados. Verifica-se uma espécie de contaminação ou de contágio. Mas será devido a um fenómeno semelhante que os cachos dos jacintos que este ano comprei estão a ficar com a mesma cor da capa do livro de A. S. Byatt que li na semana passada?


Tears dry on their own

Chora-se antes da guerra, chora-se depois da guerra, nunca se chora durante a guerra; durante a guerra não há tempo para lágrimas. Li isto uma vez, há anos, já não sei a propósito de quê, numa entrevista a um coreógrafo. E é frequentemente necessário chorar muito antes para que depois se possa não verter lágrimas.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Filmes que fogem, filmes de que não se consegue escapar

Por entre os mais que vistos filmes com Brad Pitt e Harrison Ford com que a Cinemateca vai em Fevereiro ocupar espaço válido em que poderia passar títulos mais difíceis de ver quer em DVD, quer em salas do circuito comercial (vide estranho ciclo intitulado Divos às matinées), destaque para a retrospectiva Bresson, que será apresentada durante Fevereiro e Março, em articulação com uma exposição de Rui Chafes e um livro que João Miguel Fernandes Jorge escreveu a partir dos filmes do realizador francês.
A 25 de Fevereiro teremos oportunidade de ver o esquivo Les Affaires Publiques, filme realizado em 1934, mas dado como desaparecido até 1986, quando, por acaso, foi encontrada uma cópia na Cinemateca Francesa disfarçada sob um título diferente (Beby Inaugure - sendo Beby o nome do palhaço protagonista).
Em Março, também a não perder, pelo menos por mim, será Quatro Noites de um Sonhador, para além de Les Affaires Publiques, o único filme que me falta ver de Bresson. Este filme de 1971 que há muito procuro por todo o lado é inspirado pela novela Noites Brancas, de Dostoiévski, a tal em que as personagens falam como se estivessem a ler livros.
Aguardemos, portanto, com tranquilidade.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Aquisições de fim-de-semana

Hoje em dia vamos às livrarias e ficamos quase sempre com a sensação de que as editoras portuguesas andam praticamente todas a publicar o mesmo tipo de livro sem interesse. No sábado, contudo, encontrei na Letra Livre duas curiosidades de outros tempos: Aventuras do Trinca-Fortes - Pequena história de Camões e do seu poema, de Adolfo Simões Müller, com ilustrações de Júlio Resende, e Dicionário de Milagres, de Eça de Queirós.

Simpatizo imenso com textos que ficcionam episódios da vida de escritores, mesmo quando contados às criancinhas. Não se publica o suficiente sobre este tema.
(Um dos meus textos preferidos em língua portuguesa tem uma inspiração semelhante. Intitula-se «Super Flumina Babylonis» e gira em torno daquele que poderia ter sido o dia em que Camões começou a escrever «Sôbolos rios que vão por Babilónia». Por acaso, o conto de Jorge de Sena está online: é aproveitar.)





Quanto ao Dicionário de Milagres, parece-me um livro delicioso. Não sendo francamente tranquilizador quanto à autenticidade do texto publicado, o posfácio de Luiz Pacheco
(«Não se trata de uma edição crítica, muito menos de uma edição erudita ou apologética. Procurou-se, isso sim, facilitar ao leitor de 1980 o contacto com um texto, emendando gralhas evidentes e, em tal tarefa, muito ajudados fomos por uma cópia dactilografada do sr. Onair de Carvalho, tio do Poeta António Manuel Couto Viana, que no Porto, decerto na Biblioteca Nacional, amorosa e pacientemente copiou o livro todo e anotou-o […]») como que aponta, de certo modo, para a possibilidade de haver no livro um ou outro milagre de índole ligeiramente neo-abjeccionista.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Links selvagens e domésticos


Colecção de mãos
Wash your hands with hands: que conceito magnífico. Mãos de sabonete, vagamente sinistras, feitas de glicerina e leite de cabra, todas elas com cores e formatos diferentes.

2009, ano para ouvir
Se quiséssemos guardar um registo dos sons mais importantes para nós, quais seriam aqueles que cada um gravaria?
Um artista americano quis descobrir e tomou a decisão de gravar em 2009 um som por dia para colocar no blogue. Para já temos, entre outros: neve a derreter, um ribeiro a correr, areia numa praia havaiana, o interior da Grand Central Station. Alguns, como o do dia 22 - o gato Pixel dormindo ruidosamente sobre a secretária - são perfeitamente irresistíveis.

Not for the tender-hearted
Para quem quiser dar uma vista de olhos e ficar indignado (a reacção habitual), a minha tese está online.

Terrible am I child?
Não perceber patavina da letra é sempre um dos factores mais decisivos. Para acabar finalmente com o ano passado, uma das canções de 2008 que mais ouvi em repeat.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Yoknapatawpha

Certamente devido a uma inusitada conjunção astral, prevê-se que o próximo sábado em Lisboa se revele extremamente favorável a faulknerianos convictos (não é o meu caso, devo salientar).
Às 19.00 passa na Cinemateca o filme Southerner, de Jean Renoir, em cujos diálogos o autor americano teve uma colaboração (não creditada).
Como o filme de Renoir tem 87 minutos de duração, é possível assistir, pouco depois, na Culturgest, à sessão das 21.30 da peça The Sound and the Fury (April Seventh, 1928), espectáculo inspirado pela primeira secção do famoso romance de William Faulkner, da responsabilidade da companhia Elevator Repair Service.

(À laia de preparação para esse dia invulgar e provavelmente difícil, sugiro a leitura de alguns excertos da entrevista ao escritor publicada no vol. 2 de The Paris Review Interviews: nunca se consegue perceber muito bem se Faulkner está a gozar ou se acredita mesmo no que está a dizer.)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Animais domésticos


Uma definição de casa entre a de Naipaul (numa entrevista ao DN quando esteve em Portugal) - casa é onde o nosso gato está - e a de Manoel de Oliveira (em conversa com Antoine de Baecque e Jacques Parsi publicada num volume da Campo das Letras) - casa é o sítio onde não se é espectador.


O que tem de ser tem muita força


Gosto imenso desta fotografia de Julian Barnes que encontrei na edição de The Lemon Table que agora ando a ler. Da boca fechada, das rugas entre os olhos porque os olhos não fixam a objectiva mas qualquer outra coisa ao lado. É todo um modo de vida este ar «Querer, não quero. Mas se tem mesmo de ser, que seja.».


«Among the Chinese, the lemon is the symbol of death. That poem by Anna Maria Lengren – ‘Buried with a lemon in his hand.’. A. would try to forbid it on grounds of morbidity. But who is allowed to be morbid, if not a corpse?»

(Do conto «The silence, p. 207)


Teatro

Uma actriz tão nervosa, tão nervosa, que aparece no palco num acto em que a sua personagem não é sequer referida.
E os outros actores não sabem o que lhe hão-de fazer.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

2008 em livros e filmes

Para registo pessoal e para quem se interessa por estas coisas, os livros e filmes do ano passado que recordo com mais prazer. (A ordem é meramente cronológica.)

LIVROS

Dos seis romances de Charles Dickens que li, gostei mais de Our Mutual Friend, Great Expectations e A Tale of Two Cities.
Para além de Dickens:
- A Saga de Gösta Berling, Selma Lagerlöf;
- Gente Independente, Halldór Laxness;
- The Gathering, Anne Enright;
- The Complete Stories, Flannery O’Connor;
- Collected Stories, John Cheever.


FILMES

Circuito comercial
- Lust, Caution, Ang Lee;
- Luz Silenciosa, Carlos Reygadas;
- Nightwatching, Peter Greenaway;
- No Country for Old Men, Irmãos Coen.

DVD
- Honra de Cavalaria, Albert Serra;
- Tristana, Buñuel;
- Nachmittag, Angela Schanelek;
- Margot at the Wedding, Noah Baumbach;
- Ne touchez pas la hache, Rivette.

Cinemateca
- Broken Blossoms / True Heart Susie, D. W. Griffith;
- L’amour fou / L’amour par terre, Rivette;
- A Imperatriz Vermelha, Sternberg;
- À Beira do Mar Azul, Boris Barnett;
- The Wind, V. Sjöström;
- Le genou d’Artemide / L’itinéraire de Jean Bricard, Straub;
- The River / La fille de l’eau, Jean Renoir.

Totalmente decepcionantes
- Darjeeling Limited, Wes Anderson;
- Segunda Juventude, F. Coppola;
- Expiação, Joe Wright.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A luz e a escuridão

Luís XIV ficou conhecido como o Rei Sol. Sun King é o título não só da biografia que Nancy Mitford escreveu sobre o monarca e que eu traduzi (chancela Livros da Raposa, Edições Cotovia), mas também de uma canção pouco conhecida dos Beatles (álbum Abbey Road), que eu não traduzi mas, as the story goes, terá sido escrita por John Lennon depois da leitura de uma biografia deste rei francês.
Já li muitas coisas sobre Luís XIV, mas parece-me que a biografia de Nancy Mitford se distingue sobretudo pelo tom espirituoso e pela atenção dedicada às figuras femininas que rodearam e influenciaram o Rei.
O livro é uma saída recente e espero que todos os que o comprem o achem tão divertido como eu achei. E que o Rei Sol possa continuar a inspirar manifestações artísticas tão breves e semanticamente obscuras como a canção dos Beatles.

Barcas novas


«Eu acho que ou morremos ou nascemos com cada pessoa importante na nossa vida.»

Captain John
no filme The River, de Jean Renoir

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

«Os sentidos são a nossa ponte entre o incompreensível e o compreensível»

Woman in a Green Jacket, 1913

«Ideias incompreensíveis têm formas compreensíveis.», escreveu August Macke em 1912. Não só concordo, como acho que é necessário procurar as formas compreensíveis do que é incompreensível: do indizível e do incompreensível só vale o que é dizível e compreensível.
(Por outras palavras, por muito imperfeitos que sejam os resultados finais dos nossos esforços para dizer e compreender alguma coisa, qualquer resultado final é infinitamente superior a nenhum resultado final.)


A grande sala real

Gosto muito da carta que que Sá-Carneiro envia a Pessoa a 24 de Agosto de 1915, exposta na sala dedicada a Mário de Sá-Carneiro da exposição Weltliteratur. No estilo extravagante que o caracteriza, Sá-Carneiro revela ali uma lucidez extraordinária não só relativamente à importância que Pessoa terá na literatura portuguesa, mas também ao lugar que ele próprio nela virá a ocupar.
O escritor que descreve a própria obra como «beleza retumbante de destaque e brilho, infinita de espelhos, convulsa de mil cores - muito verniz e muito ouro: teatro de mágicas e apoteoses com rodas de fogo e corpos nus. Medo e sonambulismo, destrambelhos sardónicos cascalhando através de tudo» é capaz de perceber muito antes de todos que Pessoa virá a ser uma espécie de marco de grandeza de uma literatura, o nome que toda a gente terá de pronunciar quando falar de literatura portuguesa: «toda uma civilização é, meu querido Amigo, o que você hoje perturbadoramente se me afigura», «o Prometeu que dentro do seu Mundo Interior de génio arrastaria toda uma nacionalidade: uma raça e uma civilização». E também de compreender que o seu próprio lugar se definirá por relação com Pessoa: «é você a Nação, a Civilização - e eu serei a grande Sala Real, atapetada e multicor - a cetins e esmeraldas - em douraduras e marchetações».
Esta carta é de uma clarividência esmagadora.


Pleure qui peut, rit qui veut


Lola, de Jacques Demy, Marseille, de Angela Schanelec, L’heure exquise, de René Allio.
Extremamente labiríntica na minha cabeça, Marselha vai-se aproximando perigosamente do estatuto de cidade-fetiche.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Pensamentos dúbios e questionáveis



«It was not that he felt any emotion akin to love for Irene Adler. All emotions, and that one particularly, were abhorrent to his cold, precise but admirably balanced mind. He was, I take it, the most perfect reasoning and observing machine that the world has seen, but as a lover he would have placed himself in a false position. He never spoke of the softer passions, save with a gibe and a sneer. They were admirable things for the observer - excellent for drawing the veil from men's motives and actions. But for the trained reasoner to admit such intrusions into his own delicate and finely adjusted temperament was to introduce a distracting factor which might throw a doubt upon all his mental results. Grit in a sensitive instrument, or a crack in one of his own high-power lenses, would not be more disturbing than a strong emotion in a nature such as his. And yet there was but one woman to him, and that woman was the late Irene Adler, of dubious and questionable memory.»

É muito engraçado ver como Conan Doyle, qual malabarista tentando equilibrar demasiados objectos só para chamar a atenção para a dificuldade da actividade em que se especializou, joga com uma contradição aparente neste passo da aventura «A Scandal in Bohemia».
O autor começa por descrever Sherlock Holmes como uma máquina maximamente racional e observadora. Para este tipo de pessoa, segundo o narrador, as «paixões menores» só podem ser instrumentos úteis, válidos apenas na medida em que levantam o véu dos motivos e das acções dos seres humanos.
O malabarismo torna-se evidente na oração adversativa final do passo citado («And yet there was but one woman to him, and that woman was the late Irene Adler, of dubious and questionable memory.»), quando a tradicional e consagrada oposição entre actividade racional e amor entra por momentos em desequílibrio. O facto de mesmo o homem mais racional do mundo poder interessar-se por uma mulher sugere que o amor é uma coisa mental, com um fundo mais racional do que à primeira vista poderia parecer.
A famosa incompatibilidade entre Sherlock Holmes e o amor pode afinal ser falsa: se o amor é uma coisa mental, quanto mais racional se for, maior é o risco de vulnerabilidade ao amor.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Je me reconnais plus facilement dans les maladroits


Emmanuel Mouret, realizador, argumentista e actor francês, nasceu em Marselha, em 1970.
Autor e protagonista do filme Un Baiser s’il vou plaît, que passou no sábado, na Festa do Cinema Francês.
Prestem-lhe atenção: é tudo o que tenho a dizer.

Capítulo III … ou IV

Em que uma personagem se interroga:
«Como é que eu não percebi que isto podia vir a acontecer?».

Jogo duplo

Por muito que lhes perceba a utilidade, saber jogar, fazer um bom jogo, só por si, são habilidades que não me interessam nada. No final, estou sempre, mas sempre, com o antipático que fez mas tem dúvidas, nunca com o sedutor ineficiente que irradia confiança absoluta em si próprio.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Fernando Pessoa desconhecido

Relações esperadas e inesperadas podem ser reveladoras de aspectos menos visíveis dos elementos entre os quais se estabelece relação? A exposição Weltliteratur, na Gulbenkian até 4 de Janeiro, trabalha com esta hipótese. Assumido como eixo central da exposição, Fernando Pessoa é mostrado enquanto paradigma do autor com facetas importantes por conhecer.

Se Pessoa escrevesse agora, talvez tivesse um blogue em que publicasse, quem sabe se em articulação com imagens muito semelhantes àquelas que aparecem na primeira sala desta exposição, algumas das coisas que agora encontramos reunidas no Livro do Desassossego:
«E, hoje, pensando no que tem sido a minha vida, sinto-me qualquer bicho vivo, transportado num cesto de encurvar o braço, entre duas estações suburbanas.» ou «Sou uma criança, com uma palmatória acesa, que atravessa, de camisa de noite, uma grande casa deserta.», ou ainda «Faço a paisagem ter para mim os efeitos da música, evocar-me imagens visuais […]. O meu triunfo máximo no género foi quando, olhando para o Cais do Sodré nitidamente o vi um pagode chinês com estranhos guizos nas pontas dos telhados como chapéus absurdos […].» E, contudo, encontro mais vezes comentários ou citações deste livro em blogues ingleses e americanos do que em blogues portugueses. Fora de Portugal lê-se o Livro do Desassossego. Em Portugal, o conhecimento de Pessoa parece esgotar-se na discussão do folclore dos heterónimos. Logo na primeira sala da exposição, no entanto, os três belíssimos fragmentos do Livro do Desassossego expostos lembram que neste livro tão pouco lido e discutido entre nós estão alguns dos melhores textos do autor. Será que os estrangeiros compreendem Pessoa melhor do que os portugueses?


Pormenor da peça Fernando Pessoa, de Richard Serra

No contexto da recepção de Pessoa fora de Portugal, para além das relações propostas de forma explícita ou implícita na exposição Weltliteratur, tomando o Livro do Desassossego como elo de ligação, chega mesmo a ser possível estabelecer uma outra relação inesperada, entre Lisboa e Londres, mais especificamente entre a Gulbenkian e a Gagosian Gallery, onde está patente uma exposição mostrando obras de Richard Serra, uma das quais intitulada Fernando Pessoa.
Questionado sobre a escolha do título desta peça, Serra classifica a ligação entre o trabalho e Fernando Pessoa como «tangencial»: estava a ler o livro na altura em que construiu a peça; não se deve atribuir demasiada importância aos títulos, diz o artista.
Parece-me que a explicação de Serra para o título da peça chama a atenção para um factor que deve ser tomado em consideração pelos visitantes da exposição em Lisboa. Não se deve atribuir demasiada importância aos títulos mas o título da peça de Serra é aquele porque o artista estava a ler o Livro do Desassossego: estabelecer relações, perceber relações, não são processos lineares de simples observação mas dependem sempre de um processo de construção particular que cada um joga com o que sabe e o que tem. As relações propostas espacialmente entre imagens e textos de Pessoa e de outros autores na exposição Weltliteratur configuram um percurso de descoberta, não de recepção passiva.

Gagosian Gallery

Ler uma entrevista ao Prof. António Feijó, comissário da exposição na Gulbenkian.

Telheiras by night, Telheiras by day

Por volta das três da manhã, alguém prendia balões brancos a todos os carros da rua para a qual está virado o meu quarto. Depois divertia-se a rebentar balões aqui e ali, ao ritmo do capricho, mas sem pressas e com grande estardalhaço. Às oito da manhã está vento e em certos carros podem ser vistos ainda alguns balões brancos dançando no ar. Nos outros carros ficou só o cordel, sem balão, e contudo tremendo ao vento também.
A crise mental, tão ou mais importante do que a crise financeira.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A lição do mau aluno

No Instituto Benjamenta de Jakob Von Gunten aprende-se a importância da submissão e das tarefas pequenas e subalternas para a sobrevivência:
«Quem saiba resignar-se, adaptar-se e mexer-se, por tolo e ignorante que seja, ainda não está perdido, talvez encontre melhor o seu caminho na vida do que aquele que é esperto e vem equipado com com conhecimentos.» (p. 32); «É claro que temos de pensar, pensar muito até. Mas a submissão é muito, muito mais refinada do que pensar. Quando pensamos, oferecemos resistência, e é tão feio isto, tão vicioso. Se quem pensa soubesse o quanto pensar vicia as coisas. Quem por zelo não pensa, faz qualquer coisa, e esta coisa é bem mais necessária.» (p. 89)

Não se pode dizer que o narrador seja bom aluno, uma vez que demonstra algumas dificuldades em adaptar-se aos princípios em que assenta a educação da escola.
Em vez de viver como «uma pessoa de cultura numa era de cultura» percebe o mundo como um conto de fadas e um sonho selvagem e arrebatador devido à atmosfera estabelecida pelo ritmo apressado das pessoas na rua e pelo brilho dos seus olhos deixando transparecer as suas ambições: «todas estas figuras, e eu com elas, caminham apressadamente sob a gaze opaca, como figuras de um sonho, à procura de alguma coisa, mas sem nunca encontrar, parece, o que é belo e certo. Todos aqui procuram alguma coisa, todos anseiam por riquezas e fortunas fabulosas. Sempre com pressa. Não, sabem dominar-se em tudo, mas a pressa, a ânsia, o tormento e a inquietude brilham em lampejos nos olhos ávidos.» (p. 40)
Neste universo feérico, segundo o narrador, aqueles que cumprem tarefas menores figuram como duendes «que, como é sabido, cumpriam todas as tarefas mais rudes e árduas apenas por uma sobrenatural bondade do coração.» (p. 37).

No núcleo deste conto de fadas que se joga com regras pouco compreensíveis reside um paradoxo que o narrador não consegue resolver: apesar de desejar acima de tudo permanecer pequeno («Fico tão feliz por não ver nada em mim digno de consideração e de respeito! Ser e permanecer pequeno. E se uma mão, uma circunstância, uma onda, me erguesse e levasse aonde o poder e a influência dominam, eu próprio desfaria os laços que me privilegiassem, eu próprio me atiraria para a escuridão baixa e muda. Só consigo respirar nas regiões inferiores.», p. 142), nunca consegue ser do tamanho adequado para sequer desejar ter sucesso no mundo, ao contrário de alguns dos seus colegas: «gente estúpida como ele foi criada para avançar, chegar longe, viver bem e mandar, ao passo que pessoas sensatas como eu têm de deixar florescer e esmorecer os seus bons impulsos ao serviço dos outros. Eu, eu serei qualquer coisa muito insignificante e pequena.» (p. 44).
Para se sobreviver incólume num mundo pequeno é preciso continuar sempre mais pequeno do que os pequenos, ao ponto de, num misto de fascínio e de repulsa, se descrever mal as próprias regras do jogo deles. É isto que aprendemos com Walser, sobretudo por ele ser tão mau aluno.

O livro seguinte

Ler para esquecer parece continuar a ser o meu lema. (Isto há-de abrandar, espero.) Depois de Walser, mais ficção: A Sicilian Romance, de Ann Radcliffe. Publicado originalmente em 1790, está longe de ser uma saída recente e é, mais uma vez, um livro escolhido devido a uma referência num blogue.
A arquitectura dos castelos dos romances góticos (ruínas, passagens secretas, sombras, segredos, percursos labirínticos) agrada-me muito. Apesar de não ser grande apreciadora de Jane Austen, li Northanger Abbey durante o Verão e, como achei muito divertidas as referências paródicas a Radcliffe, decidi procurar a origem.
O que li até agora de A Sicilian Romance não me está a parecer entusiasmante, mas aguardemos.

domingo, 5 de outubro de 2008

A tese roubada

Conheço algumas histórias de teses desaparecidas antes de serem terminadas ou até iniciadas, mas aquela que mais me divertiu nos últimos tempos está no décimo primeiro capítulo do livro Histoires de Peintures, de Daniel Arasse (Folio).
Depois de uma tese de mestrado sobre Masolino, Arasse planeava escrever a tese de doutoramento sobre S. Bernardino de Siena. Naquele momento crítico em que a bibliografia está lida e as ideias mais ou menos organizadas, pouco antes de se começar a escrever, Arasse levava para todo o lado um saco pesado de aparência valiosa onde guardava todos os papéis e livros com que iria trabalhar. Um dia, em Florença, esse saco desapareceu-lhe da mala do carro.
Arasse conta que na altura colocou vários anúncios desesperados nos jornais e chegou a rezar a S. Bernardino pela recuperação do material perdido. Tudo em vão. Depois acrescenta que suspeita que S. Bernardino tivesse um segredo e por isso não quisesse que a tese fosse escrita. O roubo ter-se-ia dado por intercessão do santo.
Por acaso, tenho uma explicação diferente. Embora haja momentos difíceis na história de redacção de uma tese, não há nada tão horrível como o momento em que o trabalho preparatório está terminado. Logo que se tenta começar a escrever torna-se evidente que a tese genial que há meses vínhamos idealizando afinal não terá nunca existência real. Nunca estamos à altura daquilo de que nos imaginamos capazes. O início da redacção de uma tese é um momento de agora ou nunca: trata-se de optar entre viver com aquilo que somos capazes de fazer ou simplesmente passar a alimentar durante anos o que imaginamos mas somos incapazes de realizar.
Durante a redacção da tese é preciso optar permanentemente por continuar a escrevê-la em vez de parar ou destruir todos os documentos relacionados com ela. (No meu caso, todos os dias desejava secretamente que os meus gatos descobrissem um botão mágico que apagasse a tese e todas as cópias que dela tinha guardado, quando, cansados de me ver horas a fio a olhar para um écran em vez de lhes prestar a devida atenção, iam para cima do teclado. Todos os dias colocava a hipótese de abandonar o tema e escolher um assunto em que os meus esforços pudessem não me desiludir tanto.) Mas o mais difícil de tudo é começar: quanto mais se escreve, mais fácil é continuar a escrevê-la e mais custa perder o que já se conseguiu.
O segundo momento mais difícil é o da conclusão da tese: qualquer discussão de um tema pode continuar ad aeternum sem o esgotar. Há uma altura em que ou entregamos a nossa tese imperfeita ou passamos o resto da vida a tentar melhorá-la sem que isso nos faça necessariamente sentir mais satisfeitos.
Quanto a Arasse, depois da tese roubada, decidiu que não ia repetir o trabalho já feito, a investigação, as fotografias. Achou melhor mudar de tema e de orientador; e fez o doutoramento sobre uma questão diferente. Ainda hoje continua a pensar sobre S. Bernardino de Sienna, que considera um assunto apaixonante.
Cá para mim, foi Arasse que suprimiu o próprio saco. Uma tese roubada é o sonho secreto mais querido de qualquer candidato a mestrado ou a doutoramento.

Imagem: retrato de S. Bernardino de Siena, parte de um tríptico de Francesco d'Antonio da Viterbo

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Animais na cabeça




Ando a ler uma tradução de Walser que saiu em 2005: Jakob Von Gunten. Não sou grande leitora de saídas recentes. Para dizer a verdade, os motivos que me fazem escolher um livro relevam muitas vezes da natureza do capricho. Desta vez, por exemplo, peguei no romance de Walser simplesmente por ter encontrado estas duas belíssimas capas num blogue.
Ainda vou muito no início. Para já, no passo que se segue, gostei imenso da relação inusitada que se estabelece entre contar histórias, estar deitado na cama vestido e calçado e infringir os regulamentos:

«Nós, eu e ele, muitas vezes nos deitamos juntos na cama do meu quarto, vestidos, sem tirar os sapatos, e fumamos cigarros, o que vai contra os regulamentos. Schacht gosta de infringir os regulamentos, e eu, digo-o abertamente, não gosto menos. Contamos grandes histórias um ao outro, enquanto estamos assim deitados, histórias da vida, ou seja, reais, mas sobretudo histórias inventadas com acontecimentos que apanhamos do ar. E então à nossa volta tudo parece levemente ressoar num movimento ascendente e descendente ao longo das paredes. O quarto estreito e escuro estende-se, surgem estradas, salões, cidades, palácios, pessoas e paisagens desconhecidas, trovões e sussurros, prantos e conversas, e assim por diante.»

Jakob Von Gunten, de Robert Walser
Trad. Isabel Castro Silva, Relógio d’Água, p. 15

Acidentes

Via BiblioOdyssey

Eu diria que há um tudo-nada de abrangência excessiva em quase todas as descrições de acidentes cardíacos que conheço. «Dor no peito que vai para o pescoço, queixo, braços ou costas, mal-estar, suores frios e sensação de náuseas ou vómitos», «a dor não varia com a respiração ou mudança de posição»: o elenco dos sinais de enfarte proposto pela Coordenação Nacional para as Doenças Cardiovasculares nos anúncios de uma nova campanha de divulgação, por exemplo, podia funcionar também não só como descrição válida de um simples ataque de pânico, mas até como narrativa impressionista da segunda e da terceira décadas da minha vida.


quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Meu querido Verão de 2008


Tão pouco sol apanhei durante o Verão de 2008 que chego por vezes a recear que a palidez me dissolva definitivamente os traços do rosto. De contacto com o mundo exterior limitado à observação através da janela de um escritório com vista para uma esplanada e um pequeno jardim, habituei-me a medir as horas do dia através da comparência de certas figuras, reconhecendo os frequentadores assíduos do café como elementos importantes da minha vida.
O dia a começar através da montagem dos guarda-sóis e da arrumação das mesas e das cadeiras, ecos metálicos pelo ar. Uma lufada de vento mais forte, a meio da manhã, fazendo os guarda-sóis desabar sobre os clientes mais adormecidos; os gémeos jogando futebol sobre a relva, com sandálias verde fluorescente; o dentista bodybuilder e motard fumando um cigarro antes de ir trabalhar.
Julgar-se-ia que um homem e uma mulher envergando camisas no mesmo invulgar tom de rosa-choque, lado a lado mas em mesas diferentes e sem se conhecerem, fossem mais adequados a um filme de Rohmer do que a um café de Telheiras observado por alguém que sofre de enxaquecas e apesar disso tenta organizar as ideias durante o Verão, mas pormenores insólitos e dissonantes ocorrem invariavelmente a meio da tarde.
De entre os figurantes e protagonistas da esplanada, chamava-me sempre a atenção um senhor de alguma idade que aparecia sozinho com um cãozinho branco de aparência pouco simpática. Muito nervoso, o cãozinho rosnava a qualquer outro animalzito que lhe acontecesse avistar ao longe. Bastava o dono deixá-lo cá fora enquanto ia pagar para ele armar grande chinfrineira. Optar por ficar dentro do café e deixá-lo no exterior era a garantia mais certa de cerca de meia-hora de latidos lancinantes e de três parágrafos para deitar fora.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Machado de Assis, conhecido

Fico um bocado perplexa quando se fala do desconhecimento da obra de Machado de Assis em Portugal. Pelo menos durante a década de noventa do séc. XX, a cadeira de Literatura Brasileira foi obrigatória para o curso de Estudos Portugueses, e opcional para as variantes de Línguas e Literaturas Modernas que incluíssem Português na Faculdade de Letras do Porto. Nesse tempo entravam por ano em cada variante à volta de 60 alunos. Durante esses anos, eu e centenas de outros alunos estudámos não só Machado de Assis (contos e o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas), mas também Guimarães Rosa e Clarice Lispector. A cadeira de Literatura Brasileira era assegurada pelo Prof. Arnaldo Saraiva, um excelente comunicador. Muita gente lia depois mais romances de Machado de Assis: Quincas Borba e Dom Casmurro estavam disponíveis no mercado em edições baratinhas da Lello & Irmão.
Não percebo, portanto, que se fale de desconhecimento. Falar-se ou não de um autor nos jornais e em blogues não significa necessariamente que ele é conhecido ou desconhecido. Muita gente em Portugal fala de Proust, por exemplo, e parece-me que Proust é menos lido e, por conseguinte, menos conhecido do que Machado de Assis.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Aviso à navegação


Para quem não saiba, terminei na semana passada a minha tese de mestrado. Nos últimos doze meses, só duas coisas me distraíam satisfatoriamente dos problemas que andava a tentar resolver: confeccionar sobremesas complicadas e ler ficção. Esta circunstância conduziu-me a duas constatações: embora não tenha vocação para fada do lar, posso ser uma leitora voraz.
Li muita coisa, muito depressa. Como sinto uma certa necessidade avassaladora de escrever sobre coisas diferentes (a tese é sobre cinema), é possível que apareçam alguns posts sobre literatura nos próximos tempos. Haverá citações.

Premiados surpreendentemente bons

Em 2007 o Booker Prize foi atribuído a The Gathering, de Anne Enright. (Publicado em Portugal pela Gradiva, com o título Corpo Presente.) Os resumos na contracapa e as referências nos jornais que descreviam este romance como o retrato de uma família que vale também como retrato de um país contribuíram para me afastar dele durante bastante tempo.

Cheguei ao livro porque por acaso alguém citou a última frase e gostei dela. Folheei-o depois numa livraria. A primeira frase também é muito boa. O livro de Anne Enright começa assim:
«I would like to write down what happened in my grandmother’s house the summer I was eight or nine, but I am not sure if it really did happen.»
A leitura do que se segue lembra-me que a vida acontece sem relações de causa/efeito, sem advérbios de modo e sem marcadores temporais. Contar histórias não é um mecanismo literário gasto: é aquilo que, dentro ou fora da literatura, fazemos para compreender. Sem contarmos histórias não teríamos a certeza se certos episódios sucederam realmente, nem saberíamos explicar quando, como, onde, ou por que razão aconteceram.

Anne Enright

Logo na segunda página, a narradora diz:
«I do not know the truth, or I do not know how to tell the truth.»
Dentro e fora da literatura, a verdade é aquilo que uma narração vai construindo discursivamente.
Aceito que a dificuldade reside na zona movediça que a necessidade de contar histórias instala entre ficção e vida real: tanto a ficção como a vida consistem em coisas que sentimos necessidade de contar e de articular em narrativas. A questão é que talvez seja precisamente esta indistinção que nos faz continuar não só a ler, mas também a viver e a contar histórias sobre isso.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

The beast that kept me inside

Allison Sommers

Parece-me que já vejo a margem.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Flooded street

Lucknow, India: A man carries drinking water through a flooded street

«Water, water, every where,/Nor any drop to drink.» Imaginem-me por impróprias águas para consumo, com um pequeno depósito de água potável em equilíbrio precário sobre a cabeça, extraído a custo sabe-se lá de onde e como. Se entretanto não for arrastada pela corrente e por acaso conseguir chegar viva à margem longínqua, aviso.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Abandonados


Um jogo de computador onde pudéssemos descarregar as imagens e as recordações do que tivemos de deixar para trás (os sítios onde vivemos tal como eram então, as pessoas que os habitavam, cadernos de escola, brinquedos, as roupas que usámos, produtos que comprávamos e entretanto deixaram de ser comercializados, animais de estimação, sons que deixámos de ouvir) para depois os visitarmos.


Este jogo de aventuras um duplo objectivo haveria de servir. Por um lado, comprovarmos de vez em quando que o nosso passado de facto aconteceu, em vez de ter sido simplesmente imaginado. Por outro, esclarecermos se tudo aconteceu tal como nos lembramos, e não de outra maneira menos fabricada.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Vivem em nós inúmeros

Antes de se tornar realmente famosa, Kidman tinha uma aparência um pouco selvagem que a distinguia das outras (olhos e sorriso descontrolados, cabelo ruivo abundante com um frisado aparentemente indomável). Entretanto, parece, infelizmente, ter cumprido um percurso de transformações plásticas que lhe diluíram os traços distintivos, estampando-lhe no rosto a mesma expressão ausente de tantas actrizes e aspirantes a actrizes de Hollywood.
Só em filmes como Margot at the Wedding, em que aparece com um aspecto ligeiramente diferente do habitual e assume personagens pouco convencionais, consigo reencontrar a memória da imagem dela pré-cirurgias.

Fotografia de Mary Ellen Mark

Gostei muito de a ver em Fur, por exemplo (que quase toda a gente detestou, já sei, mas eu não). Na altura até guardei esta fotografia que saiu na Vanity Fair da actriz enquanto Diane Arbus. O cabelo, a posição das mãos, o olhar mal domesticado lembram-me coisas em que acho saudável pensar de vez em quando.

sábado, 19 de julho de 2008

I remember you well

Nos últimos tempos, por vários motivos que desejo ardentemente sejam o mais passageiros possível, só ouço a música que tenho no computador e esta tem de reunir algumas características especiais: funcionar bem quando ouvida baixinho, não perturbar os gatos (que se enervam com algumas coisas tipo Coldplay, Arcade Fire e a banda sonora de Música no Coração), não adormecer, não desconcentrar e não contribuir para elevar os níveis já de si naturalmente próximos da toxicidade do meu desespero. Isto, acreditem, deixa-me pouco por onde escolher. Passo o dia a ouvir coisas que não me entusiasmam particularmente só porque instalam um ritmo que me ajuda a raciocinar.
Nem sempre fui a péssima ouvinte de música que hoje sou mas nunca fui uma melómana fiável. Quando compro um disco, encontro invariavelmente uma ou duas faixas que ouço em repeat até à exaustão, esquecendo as outras. Não é bonito.
Vivo numa casa com muitos discos de Leonard Cohen, mas não acho que ele seja «um dos maiores artistas de sempre», como ouvi anunciado na televisão a propósito do concerto de hoje. (Prefiro, sei lá, Proust e Miguel Ângelo.) Nem sequer gosto especialmente da voz dele. Ouço muitas vezes First We Take Manhattan e Famous Blue Raincoat, mas, sacrilégio pop, optando frequentemente pelas versões de Jennifer Warnes. É verdade que certo Verão pouco mais ouvi para além da faixa Take This Waltz; hoje, contudo, não consigo ouvi-la duas vezes seguidas.

Imagem de Linda Troeller

Seria incapaz de comparar a audição de um disco a uma experiência religiosa. A única experiência religiosa de que me lembro é a de ter desmaiado numa igreja na adolescência durante uma missa a que assisti sem tomar o pequeno-almoço, depois de uma noite com poucas horas de sono, num dia muito quente, ao mesmo tempo que estranhamente me recordava de uns versos de Chuva Oblíqua.
Para momentos mesmo críticos, reconheço, no entanto, que guardo no computador uma pasta com algumas músicas que não só me desconcentram como perturbam os gatos, não podendo ser ouvidas a não ser com um volume bastante elevado. E uma delas, por acaso, é de Leonard Cohen.

PS: Nada a fazer, Henrique. O problema é a minha alma ter um fundo pop que não consigo ignorar e com que, para dizer a verdade, até simpatizo.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Of taxis and cats

É possível que quem viaja de táxi com gatos regularmente corra o risco de se habituar a dividir a humanidade em três categorias:

- os que cobram legitimamente uma taxa de cerca de quatro euros para transportar dois gatos (dois euros por cada, a lei assim o permite);
- os que cobram apenas dois euros ainda que transportando dois gatos;
- os que não cobram nada.

Ter ou não ter gatos é estranhamente irrelevante para a equação. Os que cobram a taxa na totalidade são por vezes orgulhosos e conversadores donos de gatos .

E você, caro leitor, se fosse taxista, quanto cobraria?

segunda-feira, 7 de julho de 2008

A natureza do lugar


Na China, um tapete de algas invadiu a área em Qingdao em que iriam ter lugar as competições de vela dos Jogos Olímpicos. Conta-se que centenas de soldados e cerca de 10 000 cidadãos estão empenhados na desobstrução da zona de modo a assegurar a realização das provas.

Conheci em tempos uma pessoa que sempre que havia derramamentos de petróleo no oceano começava o dia de trabalho analisando nos jornais a progressão da mancha em direcção à costa e os efeitos destrutivos da catástrofe ecológica, como se esses percursos lhe revelassem coisas sobre a própria vida.


Também eu tenho seguido o problema das algas na China com o entusiasmo comedido com que acompanharia o relato da minha existência se este estivesse a ser publicado online.



Os entendidos descrevem as condições oferecidas por Qingdao como sendo difíceis mesmo sem algas: ventos mais fracos do que seria desejável, correntes excessivamente fortes e um nevoeiro denso que frequentemente impede a navegação. Àqueles que sugerem ser a invasão das algas uma questão de má sorte ou de maldição, os entendidos respondem que o problema reside apenas na natureza do lugar.
Os responsáveis, por sua vez, insistem em lembrar que não têm plano B.


sábado, 5 de julho de 2008

A senhora da romã

Para mim, alguns dos passos mais inesquecíveis da Recherche são as descrições de Odette enunciadas a partir do ponto de vista de Swann: os desvios em relação aos padrões de beleza que o esteta cultiva acabam por atrair ainda mais a sua atenção relativamente àquela com que acabará por casar.
Gosto muito da noção de alguém a descrever uma pessoa que o interessa apesar de não corresponder a padrões convencionais. Tenho pensado nisto porque, um pouco por acaso, venho ultimamente encontrando várias descrições de beleza feminina imperfeita nas coisas que ando a ler.
Não me consigo lembrar de muitos retratos deste género e tenho até a suspeita de que só grandes escritores são capazes de captar de forma superior não só a mistura subtil de atracção e repulsa suscitada por um objecto de desejo imprevisto, mas também a investigação que tal desconcerto pode desencadear.


Na descrição de Nabokov gosto da noção de expansão desordenada da carne:
«Mas havia um [retrato] que dominava todos com a moldura fantasista cravejada de granadas; mostrava a três quartos uma magra e morena jovem com vestido justo, olhos corajosos e cabelo farto. […] Sim, porque ela mesma é quem ali estava – embora os meus olhos tentassem devassar-lhe as formas actuais, sem nenhum êxito, para extrair delas a graça daquela criatura que lá tinham metido dentro.»
(Na outra Margem da Memória, trad. Aníbal Fernandes, Difel, p. 90)


Na descrição de Kosztolányi agradam-me os efeitos do tempo e da corrupção:
«Na verdade, que magnífico animal [Orosz Olga] não era, que gatinha, sem fé, nem lei. E já não era jovem. Passara os trinta, talvez os trinta e cinco. Mas a carne era flácida, voluptuosa e cansada, como se as inúmeras camas estrangeiras, os inúmeros braços estrangeiros, a tivessem adoçado, e o rosto era suave, como a polpa de banana, os seios como dois breves cachos de uvas. Habitava nela uma espécie de inocência a corromper-se, o definhamento iminente e a poesia da morte. Expirava o ar, como se lhe queimasse a boca, como se, na pequena boca devassa, lambesse uma guloseima, saboreasse um champanhe.»
(Cotovia, trad. Ernesto Rodrigues, D. Quixote, p. 89)


Para ler algumas descrições de Odette na Recherche, clicar nas alíneas associadas a Botticelli.


sexta-feira, 4 de julho de 2008

Animais com gatos

Num destes dias, no metro de Telheiras, cruzei-me com uma senhora africana que trazia uma criança pela mão e transportava uma grande trouxa sobre a cabeça. Vinha subindo pelas escadas rolantes, numa direcção inversa à minha. Era muito bonita.
Eu própria venho de um sítio onde ainda conheci mulheres capazes de percorrer dois quilómetros a pé equilibrando sobre a cabeça um recipiente com flores para vender ou para enfeitar campas no cemitério. Independentemente da idade, tinham os pescoços mais elegantes que já vi.
Segundo o autor da peça, o gatinho da imagem representa uma homenagem bem-humorada aos bibelôs domésticos e à sua capacidade de ignorar elementos como gravidade, escala e leis da natureza, mas não me venham dizer que não andamos todos por aí com coisas estranhas, em equilíbrio precário, sobre a cabeça. Dá-se simplesmente o caso de ninguém as ver.

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