«I struggled with some demons/They were middle-class and tame» (Leonard Cohen) | setadespedida@yahoo.co.uk

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Cinema em Janeiro

Acrescentei ao post de ontem a identificação dos fotogramas dos filmes que vi em Janeiro.
Tenho de reconhecer que foi um bom mês, do ponto de vista cinematográfico.

O Lear dos pássaros

Sem o amálgama disforme de arame e cordel unindo farrapos de roupas velhas fragmentos de peles de animais empalhados e peluches estraçalhados que só de perto é possível destrinçar, não haveria a inclinação predatória, majestosa e selvagem da cabeça do bufo-real.
Ao longe, às vezes, é fácil fingir que não se vê. Em tudo o que existe, a reunião precária dos restos das presas que caçou, dos objectos que desejou, gastou, construiu imperfeitamente ou destruiu, daquilo que deixou de servir.


Imagem: Bufo-real de Kathryn Spence, via Bioephemera

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Eu também vi filmes em Janeiro

No mês de Janeiro vi onze filmes. Por acaso, nenhum em salas do circuito comercial. Inspirada por este post da Lídia, e rogando-lhe encarecidamente que em breve publique a identificação das imagens (pois há várias cuja origem não consigo localizar), coloco aqui um fotograma por cada filme que vi. Ainda que alguns deles sejam relativamente bem conhecidos, prometo publicar um post indicando todos os títulos e respectivos realizadores num dos próximos dias.

1. Honra de Cavalaria, de Albert Serra
Digamos que comecei bem 2008, vendo este filme logo no dia um de Janeiro. (Aquilo que se faz no primeiro dia do ano é muito importante.) Tenho pena de não ter visto no écran de uma sala de cinema. Deve ser uma experiência verdadeiramente esmagadora. Mesmo em DVD, é um filme magníco.


2. Le Diable Probablement, de Robert Bresson
Deste não falo, pois fiz um pequeno voto de silêncio em relação a Bresson neste blogue.


3. The Birth of a Nation, de D. W. Griffith
Do ponto de vista ideológico, este filme pode ser descrito como defesa e glorificação do Ku Klux Klan. É preciso um certo esforço para conseguir dominar a indignação perante algumas sequências. Houve, no entanto, uma característica a que, à falta de melhor adjectivo, chamarei «estética», que me chamou a atenção: é possível localizar a presença de pelo menos uma vela acesa em quase todos os planos que mostram o interior de casas.
Esta circunstância lembrou-me de imediato uma tela de Lorenzo Lotto, intitulada Retrato de Jovem sobre Cortina Branca, que inclui uma intrigante lâmpada acesa (minúscula e quase imperceptível, no canto superior direito) que causa a fúria de muitos comentadores que se irritam contra a própria incapacidade de encontrar uma explicação plausível para a presença dela ali.



4. Jeanne d’Arc, de Dreyer
Já falámos sobre este.


5. Broken Blossoms, de D. W. Griffith
Muito bonito. Totalmente dickensiano. Lillian Gish é uma das maiores actrizes da história do cinema.


6. Este Obscuro Objecto de Desejo, de Luis Buñuel
Gostei imenso deste truque de colocar o protagonista a narrar a história num comboio em andamento.


7. O Fantasma da Liberdade, de Luis Buñuel
Muita gente não gosta particularmente deste filme composto por vários episódios sem grande conexão narrativa entre si. Eu até gostei, principalmente do primeiro episódio, que inclui uns postais que um indivíduo suspeito oferece a uma criança num parque, e do episódio da criança supostamente desaparecida que é mandada calar quando tenta explicar que afinal está ali.


8. Three Seasons, de Tony Bui
Para quem gosta de flores de lótus brancas.



9. Rebecca, de Alfred Hitchcock
Este fotograma faz parte da sequência na noite do baile de máscaras em que, devido ao acidente com um barco encalhado, é descoberto o barco de Rebecca no fundo do mar, com o corpo dela preso numa das cabines. Julgando que vai ser responsabilizado pela morte da primeira mulher, Maxim de Winter refugia-se no pavilhão junto à praia. É neste mundo de sombras que a protagonista o vai encontrar.
Hitchcock considera este filme demasiado «romanesco», mas, para mim, Rebecca inclui algumas das sequências mais belas da sua obra: o início do filme, com a câmara a percorrer os caminhos que levam a Manderley, enquanto se ouve a protagonista em voz-off; a noite do baile de máscaras; o incêndio final em Manderley.


10. De tanto bater, o meu coração parou, de Jacques Audiard
Se não temos cuidado, a história da nossa vida passa a ser a história da violência a que nos submetemos diariamente para esquecer aquilo de que desistimos e que era o que mais queríamos fazer. Manchas de sangue em punhos brancos.


11. Blackmail, de Alfred Hitchcock
Primeiro filme sonoro de Hitchcock. Este fotograma faz parte da deliciosa sequência de perseguição do chantagista no British Museum. Que ninguém diga que o homem não era um génio.

Tão cedo não volto a falar de cinema

...mas ainda a propósito da Mostra do Cinema da Nova Escola de Berlim, que começa hoje (programação) no cinema S. Jorge, a magnífica entrevista à realizadora Angela Schanelec pode ser lida aqui.

Dissolução de fronteiras

Comprei no domingo um vaso com três bolbos de jacintos para me ajudar a atravessar a semana. Há, no entanto, momentos em que duvido do acerto da decisão. A euforia descontrolada com que os gatos saudaram os novos seres vivos da casa e o carinho desmesurado que manifestaram pelos bolbos, pelas folhas e pelas raízes não auguravam nada de bom. Apesar de nesta altura do ano ser aconselhável tratar os jacintos como plantas de interior, tive de os colocar na varanda, único local da casa interdito aos gatos. Mesmo assim, apesar de separada do vaso por um vidro intransponível, a gata Goneril ainda ficou montes de tempo a vigiar as plantas do lado de dentro, miando quando me via passar. Aliás, três dias depois, sempre que observo os jacintos com mais atenção, para me distrair ou em busca de sinais quer de crescimento inesperado quer de perecimento imparável devido à intempérie, Goneril continua a aproximar-se para, com ares de proprietária, avaliar a situação.

domingo, 27 de janeiro de 2008

We are waiting for the summer

Esta capa faz-me sempre lembrar fins de dias de Verão em que fizemos muitas coisas e depois ficámos cansados, sem grande paciência para chatices nem para piadas parvas.
Neste álbum, gosto em especial da faixa You Come Through. É uma daquelas músicas que me imagino a ouvir no carro, em viagem sem grandes objectivos nem horas marcadas, naqueles dias em que começa a anoitecer muito tarde.

Distracções de Janeiro

As fotografias em pose estudada de Christian Bale não lhe fazem justiça. Christian Bale tem de ser visto em acção, nos filmes ou em fotogramas de filmes. Só assim é possível observar a tensão involuntária da boca, a tendência para sorrir de boca fechada, típica de quem um dia usou aparelho nos dentes. Apreciar essa ideia de imperfeição latente.

Imagem: Com Hugh Jackman (à esquerda), no filme The Prestige, de Christopher Nolan

sábado, 26 de janeiro de 2008

Frasco de vidro transparente com água


Que revelam sobre nós os objectos que deixamos em cima das mesas?

Notas sobre o cinematógrafo

Se o meu precário equilíbrio mental e físico sobreviver à próxima semana, possibilidade em relação à qual alimento neste momento algumas dúvidas metódicas, farei tudo para ir ver, Cristina.
(Excelente entrevista do André Dias à realizadora Angela Schanelec, no programa da mostra do cinema da Nova Escola de Berlim.)

Parece que o seu marido está a chamá-la: estive quase para assistir a essa sessão do filme de Boris Barnet; o que eu perdi!

O direito e o torto

«Em Direito, há uma figura segundo a qual aquilo que é público e notório não carece de prova

Só tenho pena que não se aceite este tipo de argumentação em teses de mestrado e de doutoramento. Seria tudo tão mais fácil.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Pela blogosfera fora


Um blogue de uma birdwatcher americana que também é a feliz dona de uma coelhita irreverente chamada Cinnamon.

Um extraordinário blogue que recolhe textos de fotógrafos sobre fotografias que não tiraram: The Photographs Not Taken.

Livros que (ainda) não li

No ano passado, a vencedora do Costa Award na categoria primeiro romance foi Stef Penney, com o livro The Tenderness of Wolves, que depois receberia também o Costa Book of the Year. Na altura, jornalistas e responsáveis de marketing da editora acharam por bem salientar que a autora sofria de agorafobia e que tinha lidado com crises agudas enquanto escrevia o romance.
Este ano, a vencedora do Costa Award para o primeiro romance, foi Catherine O’Flynn, com o livro What Was Lost, que não recebeu o Costa Book of the Year, embora fosse considerada uma forte candidata. Como Catherine O’Flynn não sofria de fobias ou de qualquer doença exótica, jornalistas e responsáveis de marketing trataram de enumerar as profissões invulgares que a autora foi desempenhando ao longo dos seus 37 anos de vida: carteira, funcionária de uma loja HMV (uma espécie de Fnac sem livros), professora e cliente-mistério.
Bem sei que há aqui uma lição a retirar sobre as técnicas de marketing do mercado livreiro (para sua promoção, convém que o novo escritor se distinga por uma excentricidade qualquer), mas não pude evitar divertir-me com esta lista e com algumas declarações da escritora numa entrevista em que o tema foi focado:

I have a perverse fondness for quite bad jobs - I find them quite stimulating. […]
There's something about being excruciatingly bored, or having to put up with an inordinate amount of rubbish for £5.50 an hour that really crystallises your thoughts and feelings about life. It's a difficult thing to pull off though - it has to be just the right kind of bad job. Too bad and it depresses you too much to write, too comfortable and you become too complacent and don't write either.

No livro What Was Lost conta-se a história de uma menina que passa os dias num centro comercial, escrevendo um diário sobre as personagens mais estranhas ou suspeitas com que se vai cruzando. Segundo alguns comentadores, os grandes trunfos do livro residem na manipulação do tempo e na forma como a autora é capaz de dar voz aos pensamentos íntimos dos frequentadores anónimos e solitários dos centros comerciais sem nunca perder o fio da narrativa.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Ironias do mercado



Os livros de Ian McEwan de que mais gosto são os três primeiros que publicou: duas antologias de contos (First Love, Last Rites, 1975, e In Between the Sheets, 1978) e o romance The Cement Garden (1978). Não ganharam prémios de destaque e acho que na altura ninguém os considerou obras-primas. São, aliás, livros que eu própria considero imperfeitos, desequilibrados e com alguns momentos pouco conseguidos.
Parece-me que descrições como «grande romance», «obra-prima», etc., apesar de rótulos práticos para alguns tipos de crítica literária, podem concentrar certos critérios (pouco explícitos) de gosto convencional e, por conseguinte, correr o risco de deixar escapar livros com características menos usuais.
Quando li Atonement/Expiação, dos livros que Ian McEwan tinha escrito até ali só não tinha lido ainda The Child in Time e The Innocent. Depois de Atonement, romance de consagração, ainda não tive vontade de ler mais nada dele. Receio que, assim como os mecanismos da recepção crítica a McEwan se foram reformulando e ajustando a um cânone que os próprios livros do escritor ajudaram a transformar, também McEwan tenha reconfigurado a sua escrita para se aproximar dos critérios convencionais de consagração, perdendo neste processo alguns dos traços que tão interessantes tinham tornado os seus livros no início.
O excesso de publicidade também não contribui para me motivar.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Coisas que não consigo compreender

2008 é o ano do centenário do nascimento de Simone de Beauvoir. Na Fnac Chiado, livraria que frequento e aprecio sobretudo porque não se limita a destacar bestsellers e saídas recentes, não consigo encontrar um único livro da autora. Nem em francês, nem em inglês, nem em português.
Na imagem, nova edição do volume de memórias da escritora (colecção Folio da Gallimard, 7.40 €), livro que, apesar de tudo, ainda não perdi a esperança de um dia lá ver.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Livros, gatos e café


Believe it or not, a Ana conhecia o gato da livraria em frente à Igreja de S. Roque, sendo até a feliz proprietária desta magnífica fotografia do guardião do misterioso espaço.

A propósito de livrarias, ainda não fui à Byblos, nem tenciono ir tão cedo, mas estou muito curiosa em relação à Trama, lá perto, na Rua de São Filipe Nery, 25 B (ao Rato). Sempre é um sítio em que é possível tomar um café chamado Pascal Quignard.

Lemas de fim-de-semana

Believe in the things that you know

Fallen Snow, Au Revoir Simone: letra, vídeo
(também gosto muito desta música e deste vídeo)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Malefícios do zapping

A TVI anuncia uma série intitulada Sexo, Dinheiro e Poder (não sei se por esta ordem). Mas não há outros temas à face da terra? A televisão, os jornais, a esmagadora e triste maioria dos cronistas portugueses parecem-me tragicamente condenados a estes três itens (incluo política no âmbito do poder e desporto numa espécie de cruzamento prático entre dinheiro, sexo e poder), orbitando incansavelmente em torno deles como satélites pouco importantes.
Para quando uma série intitulada Livros, Gatos e Chocolate? Para quando colunas regulares sobre viagens, pássaros, jardins, artes visuais ou passeios a pé nas cidades?

O valor decorativo dos relógios


Na Rua Miguel Bombarda (Porto), do lado esquerdo de quem vai em direcção a Cedofeita, há uma casa com uma cortina vermelha de veludo interposta entre o interior e um conjunto de despertadores suspensos à janela.
A imagem acima é de outra casa, não sei bem em que parte do mundo, e foi retirada de um destes magníficos blogues de decoração, arts and crafts e vida doméstica que tanto têm contribuído para a minha felicidade ultimamente:

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Pétalas brancas, fundo escuro

Já não gostei tanto do segundo episódio da série Seis Graus, a passar às segundas na RTP2. Vou, porém, tentar continuar a ver: suspeito que um dos argumentistas gosta de livros e de literatura. No primeiro episódio houve aquele momento dos livros à porta de uma casa. No segundo, a dada altura, bastante inesperadamente, aliás, uma personagem cita dois versos de Ezra Pound numa reunião a propósito da campanha publicitária para uma bebida. Ezra Pound, que não é propriamente um poeta pop. Na altura, fiquei tão estupefacta e a personagem disse aquilo tão depressa que nem consegui fixar as palavras. Mas andei entretanto a pensar na imagem de pétalas brancas sobre fundo escuro que imaginava ter ouvido. Fiz uma pesquisa na Internet e penso que foi este breve poema com pétalas, não necessariamente brancas, que a personagem usou:

IN A STATION OF THE METRO
The apparition of these faces in the crowd:
Petals on a wet, black bough.

(Para quem se interessar por essas coisas, Pound esclarece aqui as circunstâncias desta composição.)

Recados em atraso

Não podia deixar escapar esta imagem, que a Cristina guardou pouco antes de uma discussãozita com um senhor a quem os pardais vinham comer à mão, no jardim do Príncipe Real. A Lídia também foi testemunha. Gosto muitíssimo da Igreja de S. Roque. E não só por existir em frente uma estranha livraria com um gato que às vezes dorme na montra. Acho que há ali mistérios que interessa desvendar.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

A viagem

Entre os contos mencionados numa recensão do livro The New York Stories of Edith Wharton, antologia de contos publicada pela New York Review of Books, fiquei com muita vontade de ler «A Journey», assim descrito por Benjamin Markovits:
«One of the strongest early stories […] describes a woman’s reaction to the death of her husband. She pretends that he is still alive. They are on a train to New York, where her family live, and she worries that one of the stewards will force her to disembark if if he discovers that her travelling companion is a corpse. The madness of her actions has a great internal appearance of reasonableness, and that appearance itself suggests, as nothing else could, the madness of grieving.»

A reacção da personagem feminina à morte do marido recordou-me imediatamente o enredo-base do filme Sous le Sable, de François Ozon, em que, depois de o marido desaparecer numa praia, a personagem de Charlotte Rampling continua a agir como se ele ainda vivesse com ela.
Percebo bem este tipo de comportamento: revelar uma informação deste género contribui para confirmar não só a sua realidade mas também a da dor que ele nos provoca. Imagino, porém, que no conto de Edith Wharton não se trate apenas de um problema de negação das evidências. A personagem de Wharton percebe rapidamente que, para além de ter de lidar com a dor que não começou ainda a sentir, se verá obrigada a resolver e dar andamento a todos os insuportáveis pormenores concretos inerentes à situação. A vida vai continuando, o comboio avançando, mas ela prefere fazer operar uma espécie de suspensão temporária de funções vitais e de obrigações, como se, entretanto, nada de mais importante pudesse ocorrer do que a chegada da dor.
Se não me engano (não tenho o livro comigo), há também um conto de Raymond Carver intitulado «Três Rosas Amarelas» que se inspira nos últimos dias de Tchékhov, e em que, perante a morte do escritor, a companheira pede ao médico que assina a autópsia para não divulgar logo essa informação, de modo a garantir algumas horas que lhe permitam despedir-se do marido em paz e sossego.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Dreyer e o humor

De facto, assistir a filmes mudos sem acompanhamento musical é sempre uma aventura plena de emoções fortes para a qual o cinéfilo deve preparar-se mentalmente com antecedência, sobretudo se o filme passar na sala pequena da Cinemateca.
Não estou a falar dos ruídos inevitáveis. Já se sabe: há sempre alguém que tosse, ou é viciado em rebuçados com pratinhas, ou mexe em sacos, ou adormece e ressona. Estas coisas já deixaram de me irritar.
Por mais que tente, no entanto, e, a sério, já tentei muito, não consigo encarar com naturalidade que se passe um filme inteiro a fazer comentários (argutos ou estultos, não interessa) para o parceiro do lado, mesmo que com o objectivo meritório de o impressionar.
Sessões de fim-de-semana, ou próximas do fim-de-semana, são sessões de risco. Na sexta-feira, antes do filme La Passion de Jeanne D’Arc, de Dreyer, quando o casal discutindo grandes questões sobre o relacionamento homem-mulher se sentou ao meu lado, bem suspeitei que se trataria de um par avaliando possibilidade de futura relação. Apesar disso, não troquei de lugar.
E bem me arrependi, depois, quando começou o filme e com ele os comentários jocosos do elemento masculino.
Em alturas como esta, sinto-me sempre dilacerada por dúvidas inquietantes. Que fazer: chamar a atenção das pessoas em causa de modo a prevenir futuras intervenções, ou deixar passar, na esperança de que não se repita? Regra geral, o meu perigoso optimismo deixa passar.
Nesta sexta-feira em particular, parece-me que estava um pouco abatida. Até fiz um esforço sincero por detectar o elemento humorístico do julgamento sempre que o casal ao meu lado achava engraçadas as respostas com que a pobre Jeanne D’Arc resistia às perguntas manipulativas, chantagens e ameaças de tortura dos juízes, mas, infelizmente para mim, não fui capaz.

Pássaros, esquilos e compota de maçã

Li com enorme prazer o livro Conversas com Wittgenstein, de O. K. Bouwsma (Relógio d’Água, trad. Miguel Serras Pereira). O livro reproduz as notas em tom diarístico que Bouwsma achou por bem registar em memória do seu convívio com Wittgenstein. Esta leitura permite um contacto com o pensamento do filósofo em acção, por entre conversas pouco formais, passeios e discussões, e dá-nos a conhecer um pouco de quem ele realmente era.
Em Wittgenstein, a actividade filosófica foi sempre acompanhada por uma forma de vida em estrita correlação com ela. Para ele, não havia propriamente fronteiras entre questões filosóficas, estéticas, morais ou existenciais. Neste sentido, saber como ele era, como vivia, não corresponde apenas a um impulso gratuito de curiosidade em relação à vida alheia. Conhecer a sua forma de vida ajuda-nos a compreender a sua filosofia.
A entrada de 25 de Setembro de 1950 (p. 112) é particularmente adequada para ilustrar o que estou a dizer. Durante um passeio pelos prados de Oxford, a conversa entre Wittgenstein gira em torno de vários temas aparentemente desprovidos de importância: a arquitectura da região, algumas árvores (as sequóias), Elizabeth Anscombe ou os hábitos de certos aves comuns de Inglaterra (o tentilhão, o chapim, o pintarroxo, o cardeal, o cisne), algumas delas avistadas no percurso. A dada altura (p. 114), Bouwsma conta:

«W. deu de comer a um esquilo que estava debruçado de uma árvore e acariciou-o ao colo. […] Falou do facto de o esquilo castanho (penso eu) ter desaparecido da Europa. E depois dos nossos esquilos castanhos e cinzentos.
Enquanto passávamos por Merton, admirou uma pequena árvore com as folhas avermelhadas, e voltou a chamar a atenção para a torre de Merton e para a idade da capela. […]
À ceia comeu compota de maçã, mais tarde falou das nozes-de-coco – do seu sabor. Não gosta dos frutos da família do melão – abóboras, melões, pepinos.»

Com apontamentos aparentemente tão insignificantes quanto estes, o livro de Bouwsma ensina-me mais sobre Wittgenstein do que páginas e páginas de comentários sobre o Tractatus e as Investigações Filosóficas, redigidas com ambições académicas por especialistas em Wittgenstein.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Coisas que não acontecem em Lisboa

Na última página do Times Literary Supplement de 21-28 Dezembro de 2007, discorrendo a propósito de livros encontrados em alfarrabista, depois de uma grande lista de itens interessantes e adquiridos a preço irrisório, o autor da crónica «Plain Readership» revela:
«finally, we dipped gratefully into a box of giveaway books, including a 1902 The Rape of the Lock illustrated by Aubrey Beardsley, left outside a house in the Oxfordshire village of Pyrton

No episódio da série Seis Graus que passou ontem na RTP2, quando praticava jogging, uma das personagens principais estudou a pilha de livros e papéis deixados à porta de uma casa em Nova Iorque e levou um postal de que gostou, postal que, depois, acabou por dar origem a vários desenvolvimentos narrativos.

Em Lisboa nunca há pilhas de livros à porta das casas e, portanto, é inútil esperar ou desejar que qualquer desenvolvimento narrativo possa resultar de livros ou imagens colocados à nossa disposição por estranhos.

Imagem: Ilustração de Aubrey Beardsley para The Rape of the Lock

Provavelmente

No fim do filme Le Diable, Probablement, de Bresson, a personagem principal é morta a tiro no cemitério Père Lachaise por um amigo que assim acede a um seu pedido (e ao suborno que o acompanha). O tiro interrompe uma frase que nunca saberemos como poderia vir a terminar.
No filme Branco, de Kieslowski, há uma cena muito parecida. Não me lembro bem se se passa num cemitério, pois já não vejo o filme há muito tempo. Um amigo dispara contra outro para lhe fazer a vontade. Não lhe interrompe uma frase mas dispara logo a seguir à resposta afirmativa à pergunta «Tens a certeza?». (Lembro-me bem de ver o filme pela primeira vez, no cinema: com o tiro, dei um salto na cadeira e a pessoa ao meu lado também.)
Não faço ideia se Kieslowski conhecia bem este filme de Bresson. De qualquer modo, no filme Branco, a bala é falsa. O objectivo do amigo era fazer mudar de ideias aquele que queria morrer e o susto deste é tão grande que percebe não ser a morte afinal aquilo que realmente deseja. No filme de Bresson, ouve-se o tiro e o protagonista cai. O filme acaba pouco depois.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Deambular, recolher, guardar, esconder

Desde que li Dickens, ando a pensar na obsessão compulsiva que algumas pessoas têm de acumular objectos e materiais que outras consideram totalmente inúteis: jornais velhos, roupas que já ninguém usa, sacos de plástico ou de papel deformados e vazios, coisas recuperadas ao lixo dos outros. Nalguns casos, o problema pode ser muito grave: as divisões da casa, de tão cheias, vão-se tornando intransitáveis, portas ficam bloqueadas, casas inteiras apenas com exíguos pontos de passagem entre pilhas de tralha. Os proprietários, mesmo assim, são incapazes de se livrar do que vão acumulando sem parar.
Eu tive uma tia-avó assim. Acumulava tecidos, rendas, linhas e botões numas águas-furtadas, na esperança de um dia vir a usá-los em costura. Não gostava de deitar fora nada. Fotografias, documentos e correspondência antiga da família estavam guardados no sótão. Um dia, a minha avó quis queimar a papelada toda para que segredos antigos e bem guardados não fossem descobertos pelos herdeiros que não os conheciam e os segredos desvaneceram-se em cinzas, para grande desgosto da minha tia.
Já pensei muitas vezes que há certas semelhanças entre manter um blogue e a obsessão compulsiva de acumular coisas inúteis e acho até que pode haver uma relação entre algumas manifestações artísticas e este tipo de comportamento. Estou a lembrar-me, por exemplo, das exposições de Rauschenberg e Lucia Nogueira, em Serralves, que visitei no último domingo de 2007. Estes dois artistas trabalharam com objectos encontrados, rejeitados ou perdidos por outros. Para as obras desta exposição, Rauschenberg recorreu a caixas de cartão, diferentes tipos de tecido, cordas, madeiras, couro, pedra, tubos e cabos eléctricos, para além de objectos como cadeiras, jarras, almofadas, uma banheira velha e pedaços de metal usado.

Lucia Nogueira construía as suas obras com materiais e objectos que encontrava nos passeios que dava em Londres: fragmentos de vidros azuis e brancos, esferas misteriosas, armários, arquivadores, fósforos, um lavatório de porcelana, frigoríficos desligados, cabos de borracha, uma campânula transparente, um triciclo de criança parcialmente desmontado. A relação destes objectos com o espaço era uma questão importantíssima no trabalho posterior desta artista. As esculturas parecem ser atraídas pelos cantos, fazem fila quase imperceptível ao longo de paredes. O facto de Lucia Nogueira usar muitas caixas, armários, gaiolas com a porta virada para a parede (e, portanto, inacessível), enquanto a parte de trás se encontra exposta, transmite a sensação de haver neles coisas capturadas, fechadas ou escondidas, que talvez seja preferível não ver.
Objectos e materiais parecidos com aqueles que alguns bloggers usam. Estratégias que nenhum blogger pode afirmar desconhecer.

Imagem: Ends without End, instalação de Lucia Nogueira, 1993

sábado, 5 de janeiro de 2008

Ornitologia para 2008


Os piscos-de-peito-ruivo são pássaros bem conhecidos dos jardineiros ingleses pois gostam de andar por perto sempre que se cava a terra, atentos às minhocas incautas que possam dali emergir.
Desde a época vitoriana que os piscos-de-peito-ruivo figuram nos postais de Natal ingleses. À associação destes pássaros ao Natal não terá sido alheia a visibilidade das avezinhas neste período do ano: os piscos-de-peito-ruivo procuram parceiros em Dezembro, devendo já tê-los encontrado no Ano Novo. Na origem, a imagem dos piscos terá também sido usada como uma espécie de símbolo dos carteiros, que então usavam uniformes com uma cor semelhante à do peito destes pássaros. A presença de piscos nos postais representava, neste contexto, votos de boas novas.
No fim de 2007, uma das grandes estrelas do Natal dos jornais ingleses foi um pisco que um birdwatcher amador avistou no próprio jardim. Era um pisco albino, com o peito branco e não vermelho. Um representante da Royal Society for the Protection of Birds chegou a afirmar que em trinta anos de actividade sistemática de observação de pássaros nunca tinha visto nada assim. O fotógrafo esteve horas à espera para conseguir esta fotografia. Coloco-a aqui como emblema de boa sorte e de felicidade para 2008.
Para quem, como eu, simpatizar com estes pássaros e com jardins, há também um livro delicioso, de Frances Hodgson Burnett, intitulado The Secret Garden, em que um pisco-de-peito-ruivo desempenha um papel fundamental:

The flower-bed was not quite bare. It was bare of flowers because the perennial plants had been cut down for their winter rest, but there were tall shrubs and low ones which grew together at the back of the bed, and as the robin hopped about under them she saw him hop over a small pile of freshly turned up earth. He stopped on it to look for a worm. The earth had been turned up because a dog had been trying to dig up a mole and he had scratched quite a deep hole.

Mary looked at it, not really knowing why the hole was there, and as she looked she saw something almost buried in the newly-turned soil. It was something like a ring of rusty iron or brass and when the robin flew up into a tree nearby she put out her hand and picked the ring up. It was more than a ring, however; it was an old key which looked as if it had been buried a long time.

Mistress Mary stood up and looked at it with an almost frightened face as it hung from her finger.
"Perhaps it has been buried for ten years," she said in a whisper. "Perhaps it is the key to the garden!"

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