«I think housework is far more tiring and frightening than hunting is, no comparison, and yet after hunting we had eggs for tea and were made to rest for hours, but after housework people expect one to go on just as if nothing special had happened.» (Nancy Mitford) | setadespedida@yahoo.co.uk

Domingo, 13 de Janeiro de 2008

Dreyer e o humor

De facto, assistir a filmes mudos sem acompanhamento musical é sempre uma aventura plena de emoções fortes para a qual o cinéfilo deve preparar-se mentalmente com antecedência, sobretudo se o filme passar na sala pequena da Cinemateca.
Não estou a falar dos ruídos inevitáveis. Já se sabe: há sempre alguém que tosse, ou é viciado em rebuçados com pratinhas, ou mexe em sacos, ou adormece e ressona. Estas coisas já deixaram de me irritar.
Por mais que tente, no entanto, e, a sério, já tentei muito, não consigo encarar com naturalidade que se passe um filme inteiro a fazer comentários (argutos ou estultos, não interessa) para o parceiro do lado, mesmo que com o objectivo meritório de o impressionar.
Sessões de fim-de-semana, ou próximas do fim-de-semana, são sessões de risco. Na sexta-feira, antes do filme La Passion de Jeanne D’Arc, de Dreyer, quando o casal discutindo grandes questões sobre o relacionamento homem-mulher se sentou ao meu lado, bem suspeitei que se trataria de um par avaliando possibilidade de futura relação. Apesar disso, não troquei de lugar.
E bem me arrependi, depois, quando começou o filme e com ele os comentários jocosos do elemento masculino.
Em alturas como esta, sinto-me sempre dilacerada por dúvidas inquietantes. Que fazer: chamar a atenção das pessoas em causa de modo a prevenir futuras intervenções, ou deixar passar, na esperança de que não se repita? Regra geral, o meu perigoso optimismo deixa passar.
Nesta sexta-feira em particular, parece-me que estava um pouco abatida. Até fiz um esforço sincero por detectar o elemento humorístico do julgamento sempre que o casal ao meu lado achava engraçadas as respostas com que a pobre Jeanne D’Arc resistia às perguntas manipulativas, chantagens e ameaças de tortura dos juízes, mas, infelizmente para mim, não fui capaz.

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