
«I too am not a bit tamed, I too am untranslatable» (Walt Whitman) | setadespedida@yahoo.co.uk
sexta-feira, 9 de janeiro de 2009
O que tem de ser tem muita força

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
2008 em livros e filmes
Para além de Dickens:
- A Saga de Gösta Berling, Selma Lagerlöf;
- Gente Independente, Halldór Laxness;
- The Gathering, Anne Enright;
- The Complete Stories, Flannery O’Connor;
- Collected Stories, John Cheever.
- Lust, Caution, Ang Lee;
- Luz Silenciosa, Carlos Reygadas;
- Nightwatching, Peter Greenaway;
- No Country for Old Men, Irmãos Coen.
- Honra de Cavalaria, Albert Serra;
- Tristana, Buñuel;
- Nachmittag, Angela Schanelek;
- Margot at the Wedding, Noah Baumbach;
- Ne touchez pas la hache, Rivette.
- Broken Blossoms / True Heart Susie, D. W. Griffith;
- L’amour fou / L’amour par terre, Rivette;
- A Imperatriz Vermelha, Sternberg;
- À Beira do Mar Azul, Boris Barnett;
- The Wind, V. Sjöström;
- Le genou d’Artemide / L’itinéraire de Jean Bricard, Straub;
- The River / La fille de l’eau, Jean Renoir.
- Darjeeling Limited, Wes Anderson;
- Segunda Juventude, F. Coppola;
- Expiação, Joe Wright.
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
A luz e a escuridão
Luís XIV ficou conhecido como o Rei Sol. Sun King é o título não só da biografia que Nancy Mitford escreveu sobre o monarca e que eu traduzi (chancela Livros da Raposa, Edições Cotovia), mas também de uma canção pouco conhecida dos Beatles (álbum Abbey Road), que eu não traduzi mas, as the story goes, terá sido escrita por John Lennon depois da leitura de uma biografia deste rei francês.Já li muitas coisas sobre Luís XIV, mas parece-me que a biografia de Nancy Mitford se distingue sobretudo pelo tom espirituoso e pela atenção dedicada às figuras femininas que rodearam e influenciaram o Rei.
O livro é uma saída recente e espero que todos os que o comprem o achem tão divertido como eu achei. E que o Rei Sol possa continuar a inspirar manifestações artísticas tão breves e semanticamente obscuras como a canção dos Beatles.
Barcas novas

Captain John
no filme The River, de Jean Renoir
quinta-feira, 6 de novembro de 2008
«Os sentidos são a nossa ponte entre o incompreensível e o compreensível»
(Por outras palavras, por muito imperfeitos que sejam os resultados finais dos nossos esforços para dizer e compreender alguma coisa, qualquer resultado final é infinitamente superior a nenhum resultado final.)
A grande sala real
O escritor que descreve a própria obra como «beleza retumbante de destaque e brilho, infinita de espelhos, convulsa de mil cores - muito verniz e muito ouro: teatro de mágicas e apoteoses com rodas de fogo e corpos nus. Medo e sonambulismo, destrambelhos sardónicos cascalhando através de tudo» é capaz de perceber muito antes de todos que Pessoa virá a ser uma espécie de marco de grandeza de uma literatura, o nome que toda a gente terá de pronunciar quando falar de literatura portuguesa: «toda uma civilização é, meu querido Amigo, o que você hoje perturbadoramente se me afigura», «o Prometeu que dentro do seu Mundo Interior de génio arrastaria toda uma nacionalidade: uma raça e uma civilização». E também de compreender que o seu próprio lugar se definirá por relação com Pessoa: «é você a Nação, a Civilização - e eu serei a grande Sala Real, atapetada e multicor - a cetins e esmeraldas - em douraduras e marchetações».
Esta carta é de uma clarividência esmagadora.
Pleure qui peut, rit qui veut
Extremamente labiríntica na minha cabeça, Marselha vai-se aproximando perigosamente do estatuto de cidade-fetiche.
sexta-feira, 17 de outubro de 2008
Pensamentos dúbios e questionáveis
O autor começa por descrever Sherlock Holmes como uma máquina maximamente racional e observadora. Para este tipo de pessoa, segundo o narrador, as «paixões menores» só podem ser instrumentos úteis, válidos apenas na medida em que levantam o véu dos motivos e das acções dos seres humanos.
O malabarismo torna-se evidente na oração adversativa final do passo citado («And yet there was but one woman to him, and that woman was the late Irene Adler, of dubious and questionable memory.»), quando a tradicional e consagrada oposição entre actividade racional e amor entra por momentos em desequílibrio. O facto de mesmo o homem mais racional do mundo poder interessar-se por uma mulher sugere que o amor é uma coisa mental, com um fundo mais racional do que à primeira vista poderia parecer.
A famosa incompatibilidade entre Sherlock Holmes e o amor pode afinal ser falsa: se o amor é uma coisa mental, quanto mais racional se for, maior é o risco de vulnerabilidade ao amor.
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Je me reconnais plus facilement dans les maladroits

Autor e protagonista do filme Un Baiser s’il vou plaît, que passou no sábado, na Festa do Cinema Francês.
Prestem-lhe atenção: é tudo o que tenho a dizer.
Capítulo III … ou IV
«Como é que eu não percebi que isto podia vir a acontecer?».
Jogo duplo
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Fernando Pessoa desconhecido
Se Pessoa escrevesse agora, talvez tivesse um blogue em que publicasse, quem sabe se em articulação com imagens muito semelhantes àquelas que aparecem na primeira sala desta exposição, algumas das coisas que agora encontramos reunidas no Livro do Desassossego:
«E, hoje, pensando no que tem sido a minha vida, sinto-me qualquer bicho vivo, transportado num cesto de encurvar o braço, entre duas estações suburbanas.» ou «Sou uma criança, com uma palmatória acesa, que atravessa, de camisa de noite, uma grande casa deserta.», ou ainda «Faço a paisagem ter para mim os efeitos da música, evocar-me imagens visuais […]. O meu triunfo máximo no género foi quando, olhando para o Cais do Sodré nitidamente o vi um pagode chinês com estranhos guizos nas pontas dos telhados como chapéus absurdos […].» E, contudo, encontro mais vezes comentários ou citações deste livro em blogues ingleses e americanos do que em blogues portugueses. Fora de Portugal lê-se o Livro do Desassossego. Em Portugal, o conhecimento de Pessoa parece esgotar-se na discussão do folclore dos heterónimos. Logo na primeira sala da exposição, no entanto, os três belíssimos fragmentos do Livro do Desassossego expostos lembram que neste livro tão pouco lido e discutido entre nós estão alguns dos melhores textos do autor. Será que os estrangeiros compreendem Pessoa melhor do que os portugueses?
Pormenor da peça Fernando Pessoa, de Richard Serra
No contexto da recepção de Pessoa fora de Portugal, para além das relações propostas de forma explícita ou implícita na exposição Weltliteratur, tomando o Livro do Desassossego como elo de ligação, chega mesmo a ser possível estabelecer uma outra relação inesperada, entre Lisboa e Londres, mais especificamente entre a Gulbenkian e a Gagosian Gallery, onde está patente uma exposição mostrando obras de Richard Serra, uma das quais intitulada Fernando Pessoa.
Questionado sobre a escolha do título desta peça, Serra classifica a ligação entre o trabalho e Fernando Pessoa como «tangencial»: estava a ler o livro na altura em que construiu a peça; não se deve atribuir demasiada importância aos títulos, diz o artista.
Parece-me que a explicação de Serra para o título da peça chama a atenção para um factor que deve ser tomado em consideração pelos visitantes da exposição em Lisboa. Não se deve atribuir demasiada importância aos títulos mas o título da peça de Serra é aquele porque o artista estava a ler o Livro do Desassossego: estabelecer relações, perceber relações, não são processos lineares de simples observação mas dependem sempre de um processo de construção particular que cada um joga com o que sabe e o que tem. As relações propostas espacialmente entre imagens e textos de Pessoa e de outros autores na exposição Weltliteratur configuram um percurso de descoberta, não de recepção passiva.
Gagosian Gallery
Telheiras by night, Telheiras by day
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
A lição do mau aluno
«Quem saiba resignar-se, adaptar-se e mexer-se, por tolo e ignorante que seja, ainda não está perdido, talvez encontre melhor o seu caminho na vida do que aquele que é esperto e vem equipado com com conhecimentos.» (p. 32); «É claro que temos de pensar, pensar muito até. Mas a submissão é muito, muito mais refinada do que pensar. Quando pensamos, oferecemos resistência, e é tão feio isto, tão vicioso. Se quem pensa soubesse o quanto pensar vicia as coisas. Quem por zelo não pensa, faz qualquer coisa, e esta coisa é bem mais necessária.» (p. 89)
Não se pode dizer que o narrador seja bom aluno, uma vez que demonstra algumas dificuldades em adaptar-se aos princípios em que assenta a educação da escola.
Em vez de viver como «uma pessoa de cultura numa era de cultura» percebe o mundo como um conto de fadas e um sonho selvagem e arrebatador devido à atmosfera estabelecida pelo ritmo apressado das pessoas na rua e pelo brilho dos seus olhos deixando transparecer as suas ambições: «todas estas figuras, e eu com elas, caminham apressadamente sob a gaze opaca, como figuras de um sonho, à procura de alguma coisa, mas sem nunca encontrar, parece, o que é belo e certo. Todos aqui procuram alguma coisa, todos anseiam por riquezas e fortunas fabulosas. Sempre com pressa. Não, sabem dominar-se em tudo, mas a pressa, a ânsia, o tormento e a inquietude brilham em lampejos nos olhos ávidos.» (p. 40)
No núcleo deste conto de fadas que se joga com regras pouco compreensíveis reside um paradoxo que o narrador não consegue resolver: apesar de desejar acima de tudo permanecer pequeno («Fico tão feliz por não ver nada em mim digno de consideração e de respeito! Ser e permanecer pequeno. E se uma mão, uma circunstância, uma onda, me erguesse e levasse aonde o poder e a influência dominam, eu próprio desfaria os laços que me privilegiassem, eu próprio me atiraria para a escuridão baixa e muda. Só consigo respirar nas regiões inferiores.», p. 142), nunca consegue ser do tamanho adequado para sequer desejar ter sucesso no mundo, ao contrário de alguns dos seus colegas: «gente estúpida como ele foi criada para avançar, chegar longe, viver bem e mandar, ao passo que pessoas sensatas como eu têm de deixar florescer e esmorecer os seus bons impulsos ao serviço dos outros. Eu, eu serei qualquer coisa muito insignificante e pequena.» (p. 44).
O livro seguinte
Ler para esquecer parece continuar a ser o meu lema. (Isto há-de abrandar, espero.) Depois de Walser, mais ficção: A Sicilian Romance, de Ann Radcliffe. Publicado originalmente em 1790, está longe de ser uma saída recente e é, mais uma vez, um livro escolhido devido a uma referência num blogue.A arquitectura dos castelos dos romances góticos (ruínas, passagens secretas, sombras, segredos, percursos labirínticos) agrada-me muito. Apesar de não ser grande apreciadora de Jane Austen, li Northanger Abbey durante o Verão e, como achei muito divertidas as referências paródicas a Radcliffe, decidi procurar a origem.
O que li até agora de A Sicilian Romance não me está a parecer entusiasmante, mas aguardemos.
domingo, 5 de outubro de 2008
A tese roubada
Conheço algumas histórias de teses desaparecidas antes de serem terminadas ou até iniciadas, mas aquela que mais me divertiu nos últimos tempos está no décimo primeiro capítulo do livro Histoires de Peintures, de Daniel Arasse (Folio).Depois de uma tese de mestrado sobre Masolino, Arasse planeava escrever a tese de doutoramento sobre S. Bernardino de Siena. Naquele momento crítico em que a bibliografia está lida e as ideias mais ou menos organizadas, pouco antes de se começar a escrever, Arasse levava para todo o lado um saco pesado de aparência valiosa onde guardava todos os papéis e livros com que iria trabalhar. Um dia, em Florença, esse saco desapareceu-lhe da mala do carro.
Arasse conta que na altura colocou vários anúncios desesperados nos jornais e chegou a rezar a S. Bernardino pela recuperação do material perdido. Tudo em vão. Depois acrescenta que suspeita que S. Bernardino tivesse um segredo e por isso não quisesse que a tese fosse escrita. O roubo ter-se-ia dado por intercessão do santo.
Por acaso, tenho uma explicação diferente. Embora haja momentos difíceis na história de redacção de uma tese, não há nada tão horrível como o momento em que o trabalho preparatório está terminado. Logo que se tenta começar a escrever torna-se evidente que a tese genial que há meses vínhamos idealizando afinal não terá nunca existência real. Nunca estamos à altura daquilo de que nos imaginamos capazes. O início da redacção de uma tese é um momento de agora ou nunca: trata-se de optar entre viver com aquilo que somos capazes de fazer ou simplesmente passar a alimentar durante anos o que imaginamos mas somos incapazes de realizar.
Durante a redacção da tese é preciso optar permanentemente por continuar a escrevê-la em vez de parar ou destruir todos os documentos relacionados com ela. (No meu caso, todos os dias desejava secretamente que os meus gatos descobrissem um botão mágico que apagasse a tese e todas as cópias que dela tinha guardado, quando, cansados de me ver horas a fio a olhar para um écran em vez de lhes prestar a devida atenção, iam para cima do teclado. Todos os dias colocava a hipótese de abandonar o tema e escolher um assunto em que os meus esforços pudessem não me desiludir tanto.) Mas o mais difícil de tudo é começar: quanto mais se escreve, mais fácil é continuar a escrevê-la e mais custa perder o que já se conseguiu.
O segundo momento mais difícil é o da conclusão da tese: qualquer discussão de um tema pode continuar ad aeternum sem o esgotar. Há uma altura em que ou entregamos a nossa tese imperfeita ou passamos o resto da vida a tentar melhorá-la sem que isso nos faça necessariamente sentir mais satisfeitos.
Quanto a Arasse, depois da tese roubada, decidiu que não ia repetir o trabalho já feito, a investigação, as fotografias. Achou melhor mudar de tema e de orientador; e fez o doutoramento sobre uma questão diferente. Ainda hoje continua a pensar sobre S. Bernardino de Sienna, que considera um assunto apaixonante.
Cá para mim, foi Arasse que suprimiu o próprio saco. Uma tese roubada é o sonho secreto mais querido de qualquer candidato a mestrado ou a doutoramento.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
Animais na cabeça

Ando a ler uma tradução de Walser que saiu em 2005: Jakob Von Gunten. Não sou grande leitora de saídas recentes. Para dizer a verdade, os motivos que me fazem escolher um livro relevam muitas vezes da natureza do capricho. Desta vez, por exemplo, peguei no romance de Walser simplesmente por ter encontrado estas duas belíssimas capas num blogue.
Ainda vou muito no início. Para já, no passo que se segue, gostei imenso da relação inusitada que se estabelece entre contar histórias, estar deitado na cama vestido e calçado e infringir os regulamentos:
«Nós, eu e ele, muitas vezes nos deitamos juntos na cama do meu quarto, vestidos, sem tirar os sapatos, e fumamos cigarros, o que vai contra os regulamentos. Schacht gosta de infringir os regulamentos, e eu, digo-o abertamente, não gosto menos. Contamos grandes histórias um ao outro, enquanto estamos assim deitados, histórias da vida, ou seja, reais, mas sobretudo histórias inventadas com acontecimentos que apanhamos do ar. E então à nossa volta tudo parece levemente ressoar num movimento ascendente e descendente ao longo das paredes. O quarto estreito e escuro estende-se, surgem estradas, salões, cidades, palácios, pessoas e paisagens desconhecidas, trovões e sussurros, prantos e conversas, e assim por diante.»
Trad. Isabel Castro Silva, Relógio d’Água, p. 15
Acidentes
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Meu querido Verão de 2008
O dia a começar através da montagem dos guarda-sóis e da arrumação das mesas e das cadeiras, ecos metálicos pelo ar. Uma lufada de vento mais forte, a meio da manhã, fazendo os guarda-sóis desabar sobre os clientes mais adormecidos; os gémeos jogando futebol sobre a relva, com sandálias verde fluorescente; o dentista bodybuilder e motard fumando um cigarro antes de ir trabalhar.
Julgar-se-ia que um homem e uma mulher envergando camisas no mesmo invulgar tom de rosa-choque, lado a lado mas em mesas diferentes e sem se conhecerem, fossem mais adequados a um filme de Rohmer do que a um café de Telheiras observado por alguém que sofre de enxaquecas e apesar disso tenta organizar as ideias durante o Verão, mas pormenores insólitos e dissonantes ocorrem invariavelmente a meio da tarde.
De entre os figurantes e protagonistas da esplanada, chamava-me sempre a atenção um senhor de alguma idade que aparecia sozinho com um cãozinho branco de aparência pouco simpática. Muito nervoso, o cãozinho rosnava a qualquer outro animalzito que lhe acontecesse avistar ao longe. Bastava o dono deixá-lo cá fora enquanto ia pagar para ele armar grande chinfrineira. Optar por ficar dentro do café e deixá-lo no exterior era a garantia mais certa de cerca de meia-hora de latidos lancinantes e de três parágrafos para deitar fora.