
Captain John
no filme The River, de Jean Renoir
«I too am not a bit tamed, I too am untranslatable» (Walt Whitman) | setadespedida@yahoo.co.uk


Pormenor da peça Fernando Pessoa, de Richard Serra
No contexto da recepção de Pessoa fora de Portugal, para além das relações propostas de forma explícita ou implícita na exposição Weltliteratur, tomando o Livro do Desassossego como elo de ligação, chega mesmo a ser possível estabelecer uma outra relação inesperada, entre Lisboa e Londres, mais especificamente entre a Gulbenkian e a Gagosian Gallery, onde está patente uma exposição mostrando obras de Richard Serra, uma das quais intitulada Fernando Pessoa.
Questionado sobre a escolha do título desta peça, Serra classifica a ligação entre o trabalho e Fernando Pessoa como «tangencial»: estava a ler o livro na altura em que construiu a peça; não se deve atribuir demasiada importância aos títulos, diz o artista.
Parece-me que a explicação de Serra para o título da peça chama a atenção para um factor que deve ser tomado em consideração pelos visitantes da exposição em Lisboa. Não se deve atribuir demasiada importância aos títulos mas o título da peça de Serra é aquele porque o artista estava a ler o Livro do Desassossego: estabelecer relações, perceber relações, não são processos lineares de simples observação mas dependem sempre de um processo de construção particular que cada um joga com o que sabe e o que tem. As relações propostas espacialmente entre imagens e textos de Pessoa e de outros autores na exposição Weltliteratur configuram um percurso de descoberta, não de recepção passiva.
Gagosian Gallery
Ler para esquecer parece continuar a ser o meu lema. (Isto há-de abrandar, espero.) Depois de Walser, mais ficção: A Sicilian Romance, de Ann Radcliffe. Publicado originalmente em 1790, está longe de ser uma saída recente e é, mais uma vez, um livro escolhido devido a uma referência num blogue.
Conheço algumas histórias de teses desaparecidas antes de serem terminadas ou até iniciadas, mas aquela que mais me divertiu nos últimos tempos está no décimo primeiro capítulo do livro Histoires de Peintures, de Daniel Arasse (Folio).

Fico um bocado perplexa quando se fala do desconhecimento da obra de Machado de Assis em Portugal. Pelo menos durante a década de noventa do séc. XX, a cadeira de Literatura Brasileira foi obrigatória para o curso de Estudos Portugueses, e opcional para as variantes de Línguas e Literaturas Modernas que incluíssem Português na Faculdade de Letras do Porto. Nesse tempo entravam por ano em cada variante à volta de 60 alunos. Durante esses anos, eu e centenas de outros alunos estudámos não só Machado de Assis (contos e o romance Memórias Póstumas de Brás Cubas), mas também Guimarães Rosa e Clarice Lispector. A cadeira de Literatura Brasileira era assegurada pelo Prof. Arnaldo Saraiva, um excelente comunicador. Muita gente lia depois mais romances de Machado de Assis: Quincas Borba e Dom Casmurro estavam disponíveis no mercado em edições baratinhas da Lello & Irmão.
Anne Enright