Se não me engano, há um filme de
Jacques Rivette em que uma personagem comenta que o lugar mais perigoso é o
palco.
Num dia destes, quando entrei numa sala
de teatro para ver uma peça, os actores já estavam no palco. Era como se
assistissem com algum interesse ao espectáculo do público a chegar e a
instalar-se.
Talvez esperemos o início das peças
como esperamos a vida. Uns calam-se e concentram-se; outros falam ou consultam
as redes sociais. Há quem se comporte como se não estivesse no teatro. Nesse
dia, a dada altura, os arrumadores admoestaram uma senhora na primeira fila,
que, para preencher o tempo antes do início do espectáculo, via vídeos bastante
ruidosos no telemóvel.
Fecharam-se as portas. Os actores
começaram a falar. A dada altura, uma das personagens interpelou directamente o
público, encarando alguns espectadores de olhos nos olhos. Houve quem desviasse
o olhar.
Há um certo perigo em ir ao teatro.
O teatro, como o kung-fu, é uma arte
marcial, uma arte de combate. Isto é verdade não só do ponto de vista financeiro e cultural. Como
diz Dieudonné Niangouna, as companhias de teatro precisam de “abordar as
situações com murros” para continuarem a existir, mas o combate não fica por
aqui. Numa sala de teatro, o público está de frente para o palco: não pode
fingir que não sabe que o teatro é uma arte de confronto; não pode fingir que
não vê.
Poucos dias depois dessa minha ida ao
teatro, a companhia publicou nas redes sociais umas fotografias em que os
actores da peça tinham trocado de lugar: em vez de aparecerem no palco, estavam
na plateia. Em algumas fotografias, desviavam timidamente o olhar, numa
representação exagerada do constrangimento do público quando interpelado durante aquela peça. No texto que acompanhava
estas imagens, tinham escrito: há espectadores que não sabem que fazem parte do
espectáculo.
Também na peça Kung-Fu se
interpela o público: “É uma pena que aqueles que costumam vir ao teatro/sejam
um público tão asqueroso./ […] Nunca prestais atenção ao combate./Está à vossa
frente, mas olhais para o lado.”
Estaremos no teatro como estamos na
vida? O filósofo Stanley Cavell salienta que um dos grandes objectivos do
teatro é derrotar o estatuto de espectador e ajudar-nos a reflectir sobre os
modos como nos situamos na presença dos outros. Permitimos que os outros nos
vejam? Sabemos revelar-nos? Ou preferimos permanecer na escuridão?
Mais perigoso do que o palco talvez
seja o lugar do espectador que prefere só assistir. Vendo aquelas fotografias
dos actores no lugar dos espectadores, eu, que durante a peça tinha desviado o
olhar, perguntei-me se, no teatro como na vida, evitaria as interacções e
recearia o palco. É verdade: quer queiramos, quer não, fazemos parte do
espectáculo. Como será melhor existirmos: assistindo apenas, ou participando,
devolvendo o olhar?
A dada altura, em Kung-Fu,
pergunta-se: “Qual o palco do meu teatro?/Qual o palco da minha vida?” Como
podemos nós encontrar um palco?
Uma das respostas desta peça é: usando
as palavras, contando histórias. A actividade de contar filmes, descrita em Kung-Fu
como uma espécie de herança de família, corresponde a uma exploração de
possibilidades existenciais: “Imagens e mais imagens./Situações mancas/e
situações adiadas/porventura compreendidas no cérebro de outrem./Situações em
devir/ou mortas de antemão devido a acidentes da narração./Acidentes de
escuta./Acidentes ou caprichos do espectáculo./Tudo o que pode acontecer ao
correr da matéria.” Às vezes, basta inventar os títulos. Contando filmes,
contamo-nos a nós próprios, contamos o que podemos ser.
Quais são as histórias e as palavras
que ainda não temos? Quais são as palavras que precisamos de usar? Quais são as
histórias que precisamos de contar? O que precisamos de dizer, por ainda não o
termos dito?
Mas nesta peça também se lembra: “É
preciso palco para além da palavra./Falar a partir dos nervos de alguém.” Neste
aspecto, o teatro tem uma vantagem decisiva: a de ser uma arte encarnada. As palavras são
ditas por actores que se confrontam com espectadores de corpo presente. Assim, podem
“rasgar o caminho das veias”, “estabelecer a ligação entre o espírito, a
imaginação e o acto”.
O facto de haver corpos envolvidos chama
a atenção para uma questão importante, quase paradoxal: usando personagens e
histórias, o teatro permite que os intervenientes se deixem de personagens e
histórias. Esse percurso é assim descrito: “Representar a partir de outra
pessoa/para dar à luz a minha.” Através do confronto com as personagens e as
pessoas, encontramo-nos a nós mesmos, sem personagens: “O ser é o sujeito que é
e que parou de assumir personagens.”
Numa entrevista que deu há alguns anos,
o actor Ethan Hawke contou que foi protagonista de uma peça em que, quando o
público entrava, ele estava deitado no palco. Por isso, ouvia tudo o que os
espectadores diziam enquanto se instalavam. Foi uma experiência desagradável
porque estas pessoas faziam muitos comentários depreciativos sobre as suas
opções na vida, como se não o vissem ali. Talvez vissem só a personagem.
Um lugar muito perigoso também é aquele
em que os outros fingem que não nos vêem, ou não vêem mesmo, a ponto de nos
transformarem numa personagem. Mas claro que, quando as portas se fechavam e as
luzes se apagavam, Ethan Hawke se levantava e encarava os espectadores não só enquanto
personagem da peça, mas também como ele próprio era realmente: um perigo. É o
que acontece quando nos tratam como personagens: temos uma certa vontade de
reagir.
Até que ponto ser só um espectador não
é representar uma personagem? Uma máscara atrás da qual nos escondemos? Se nos
transformam numa personagem, também é porque deixamos. Desviamos o olhar.
Fingimos que não é connosco que falam. No fim da peça, no entanto, temos mesmo
de sair do teatro – e de combater pela vida, com golpes de kung-fu, se for
necessário.
[No Dia Mundial do Teatro, um textinho que
escrevi a convite da Renata Portas, quando a Público Reservado encenou a peça
Kung-Fu ou Todo o Teatro é Um Combate, de Dieudonné Niangouna (trad. de Regina
Guimarães).]
Imagem: Edward Hopper.