Animais Domésticos

«I too am not a bit tamed, I too am untranslatable» (Walt Whitman) | setadespedida@yahoo.co.uk

terça-feira, 1 de abril de 2025

Entra Hamlet, lendo um livro


 

Entre 3 e 27 de Abril, representa-se Hamlet no Teatro São João (encenação de Nuno Cardoso).

No Manual de Leitura da peça, encontram um texto meu sob a égide de Marlene Dumas, a partir da didascália: "Entra Hamlet, lendo um livro."

Obrigada ao Rui Manuel Amaral pelo convite e pela ideia irrecusável.

 

 

quinta-feira, 27 de março de 2025

O lugar mais perigoso



Se não me engano, há um filme de Jacques Rivette em que uma personagem comenta que o lugar mais perigoso é o palco.

Num dia destes, quando entrei numa sala de teatro para ver uma peça, os actores já estavam no palco. Era como se assistissem com algum interesse ao espectáculo do público a chegar e a instalar-se.

Talvez esperemos o início das peças como esperamos a vida. Uns calam-se e concentram-se; outros falam ou consultam as redes sociais. Há quem se comporte como se não estivesse no teatro. Nesse dia, a dada altura, os arrumadores admoestaram uma senhora na primeira fila, que, para preencher o tempo antes do início do espectáculo, via vídeos bastante ruidosos no telemóvel.

Fecharam-se as portas. Os actores começaram a falar. A dada altura, uma das personagens interpelou directamente o público, encarando alguns espectadores de olhos nos olhos. Houve quem desviasse o olhar.

Há um certo perigo em ir ao teatro.

O teatro, como o kung-fu, é uma arte marcial, uma arte de combate. Isto é verdade não só  do ponto de vista financeiro e cultural. Como diz Dieudonné Niangouna, as companhias de teatro precisam de “abordar as situações com murros” para continuarem a existir, mas o combate não fica por aqui. Numa sala de teatro, o público está de frente para o palco: não pode fingir que não sabe que o teatro é uma arte de confronto; não pode fingir que não vê.

Poucos dias depois dessa minha ida ao teatro, a companhia publicou nas redes sociais umas fotografias em que os actores da peça tinham trocado de lugar: em vez de aparecerem no palco, estavam na plateia. Em algumas fotografias, desviavam timidamente o olhar, numa representação exagerada do constrangimento do público quando interpelado  durante aquela peça. No texto que acompanhava estas imagens, tinham escrito: há espectadores que não sabem que fazem parte do espectáculo.

Também na peça Kung-Fu se interpela o público: “É uma pena que aqueles que costumam vir ao teatro/sejam um público tão asqueroso./ […] Nunca prestais atenção ao combate./Está à vossa frente, mas olhais para o lado.”

Estaremos no teatro como estamos na vida? O filósofo Stanley Cavell salienta que um dos grandes objectivos do teatro é derrotar o estatuto de espectador e ajudar-nos a reflectir sobre os modos como nos situamos na presença dos outros. Permitimos que os outros nos vejam? Sabemos revelar-nos? Ou preferimos permanecer na escuridão? 

Mais perigoso do que o palco talvez seja o lugar do espectador que prefere só assistir. Vendo aquelas fotografias dos actores no lugar dos espectadores, eu, que durante a peça tinha desviado o olhar, perguntei-me se, no teatro como na vida, evitaria as interacções e recearia o palco. É verdade: quer queiramos, quer não, fazemos parte do espectáculo. Como será melhor existirmos: assistindo apenas, ou participando, devolvendo o olhar?

A dada altura, em Kung-Fu, pergunta-se: “Qual o palco do meu teatro?/Qual o palco da minha vida?” Como podemos nós encontrar um palco?

Uma das respostas desta peça é: usando as palavras, contando histórias. A actividade de contar filmes, descrita em Kung-Fu como uma espécie de herança de família, corresponde a uma exploração de possibilidades existenciais: Imagens e mais imagens./Situações mancas/e situações adiadas/porventura compreendidas no cérebro de outrem./Situações em devir/ou mortas de antemão devido a acidentes da narração./Acidentes de escuta./Acidentes ou caprichos do espectáculo./Tudo o que pode acontecer ao correr da matéria.” Às vezes, basta inventar os títulos. Contando filmes, contamo-nos a nós próprios, contamos o que podemos ser.

Quais são as histórias e as palavras que ainda não temos? Quais são as palavras que precisamos de usar? Quais são as histórias que precisamos de contar? O que precisamos de dizer, por ainda não o termos dito?

Mas nesta peça também se lembra: “É preciso palco para além da palavra./Falar a partir dos nervos de alguém.” Neste aspecto, o teatro tem uma vantagem decisiva:  a de ser uma arte encarnada. As palavras são ditas por actores que se confrontam com espectadores de corpo presente. Assim, podem “rasgar o caminho das veias”, “estabelecer a ligação entre o espírito, a imaginação e o acto”.

O facto de haver corpos envolvidos chama a atenção para uma questão importante, quase paradoxal: usando personagens e histórias, o teatro permite que os intervenientes se deixem de personagens e histórias. Esse percurso é assim descrito:Representar a partir de outra pessoa/para dar à luz a minha.” Através do confronto com as personagens e as pessoas, encontramo-nos a nós mesmos, sem personagens: “O ser é o sujeito que é e que parou de assumir personagens.”

Numa entrevista que deu há alguns anos, o actor Ethan Hawke contou que foi protagonista de uma peça em que, quando o público entrava, ele estava deitado no palco. Por isso, ouvia tudo o que os espectadores diziam enquanto se instalavam. Foi uma experiência desagradável porque estas pessoas faziam muitos comentários depreciativos sobre as suas opções na vida, como se não o vissem ali. Talvez vissem só a personagem.

Um lugar muito perigoso também é aquele em que os outros fingem que não nos vêem, ou não vêem mesmo, a ponto de nos transformarem numa personagem. Mas claro que, quando as portas se fechavam e as luzes se apagavam, Ethan Hawke se levantava e encarava os espectadores não só enquanto personagem da peça, mas também como ele próprio era realmente: um perigo. É o que acontece quando nos tratam como personagens: temos uma certa vontade de reagir.

Até que ponto ser só um espectador não é representar uma personagem? Uma máscara atrás da qual nos escondemos? Se nos transformam numa personagem, também é porque deixamos. Desviamos o olhar. Fingimos que não é connosco que falam. No fim da peça, no entanto, temos mesmo de sair do teatro – e de combater pela vida, com golpes de kung-fu, se for necessário.

 

[No Dia Mundial do Teatro, um textinho que escrevi a convite da Renata Portas, quando a Público Reservado encenou a peça Kung-Fu ou Todo o Teatro é Um Combate, de Dieudonné Niangouna (trad. de Regina Guimarães).]

Imagem: Edward Hopper.

 

terça-feira, 18 de março de 2025

O Cinéfilo Preguiçoso entre Setembro e Dezembro de 2024


 

15.12. 2024 Four Quartets (real. Sophie Fiennes, 2022)

8.12.2024 Dahomey (real. Mati Diop, 2024)

1.12.2024 Quando Chega o Outono (real. François Ozon, 2024)

24.11.2024 Jardins de Pedra (real. Francis Ford Coppola, 1987)

17.11.2024 Estranha Sedução (real. Paul Schrader, 1990)

10.11.2024 Megalopolis (real. Francis Ford Coppola, 2024)

29.9.2024 Grand Tour (real. Miguel Gomes, 2024)

22.9.2024 A Paixão segundo G. H. (real. Luiz Fernando Carvalho, 2023)

15.9.2023 The Wonderful Story of Henry Sugar and Three More (real. Wes Anderson, 2024)

8.9.2024 The Neon Bible (real. Terence Davies, 1995)

1.9.2024 A Torre sem Sombra (real. Zhang Lu, 2023)


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