«Water, water, every where,/Nor any drop to drink.» Imaginem-me por impróprias águas para consumo, com um pequeno depósito de água potável em equilíbrio precário sobre a cabeça, extraído a custo sabe-se lá de onde e como. Se entretanto não for arrastada pela corrente e por acaso conseguir chegar viva à margem longínqua, aviso.
«I too am not a bit tamed, I too am untranslatable» (Walt Whitman) | setadespedida@yahoo.co.uk
sexta-feira, 29 de agosto de 2008
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Abandonados

quarta-feira, 23 de julho de 2008
Vivem em nós inúmeros
Só em filmes como Margot at the Wedding, em que aparece com um aspecto ligeiramente diferente do habitual e assume personagens pouco convencionais, consigo reencontrar a memória da imagem dela pré-cirurgias.
Gostei muito de a ver em Fur, por exemplo (que quase toda a gente detestou, já sei, mas eu não). Na altura até guardei esta fotografia que saiu na Vanity Fair da actriz enquanto Diane Arbus. O cabelo, a posição das mãos, o olhar mal domesticado lembram-me coisas em que acho saudável pensar de vez em quando.
sábado, 19 de julho de 2008
I remember you well
Nem sempre fui a péssima ouvinte de música que hoje sou mas nunca fui uma melómana fiável. Quando compro um disco, encontro invariavelmente uma ou duas faixas que ouço em repeat até à exaustão, esquecendo as outras. Não é bonito.
Vivo numa casa com muitos discos de Leonard Cohen, mas não acho que ele seja «um dos maiores artistas de sempre», como ouvi anunciado na televisão a propósito do concerto de hoje. (Prefiro, sei lá, Proust e Miguel Ângelo.) Nem sequer gosto especialmente da voz dele. Ouço muitas vezes First We Take Manhattan e Famous Blue Raincoat, mas, sacrilégio pop, optando frequentemente pelas versões de Jennifer Warnes. É verdade que certo Verão pouco mais ouvi para além da faixa Take This Waltz; hoje, contudo, não consigo ouvi-la duas vezes seguidas.
Imagem de Linda Troeller
Seria incapaz de comparar a audição de um disco a uma experiência religiosa. A única experiência religiosa de que me lembro é a de ter desmaiado numa igreja na adolescência durante uma missa a que assisti sem tomar o pequeno-almoço, depois de uma noite com poucas horas de sono, num dia muito quente, ao mesmo tempo que estranhamente me recordava de uns versos de Chuva Oblíqua.
Para momentos mesmo críticos, reconheço, no entanto, que guardo no computador uma pasta com algumas músicas que não só me desconcentram como perturbam os gatos, não podendo ser ouvidas a não ser com um volume bastante elevado. E uma delas, por acaso, é de Leonard Cohen.
PS: Nada a fazer, Henrique. O problema é a minha alma ter um fundo pop que não consigo ignorar e com que, para dizer a verdade, até simpatizo.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Of taxis and cats
É possível que quem viaja de táxi com gatos regularmente corra o risco de se habituar a dividir a humanidade em três categorias:- os que cobram legitimamente uma taxa de cerca de quatro euros para transportar dois gatos (dois euros por cada, a lei assim o permite);
- os que cobram apenas dois euros ainda que transportando dois gatos;
- os que não cobram nada.
Ter ou não ter gatos é estranhamente irrelevante para a equação. Os que cobram a taxa na totalidade são por vezes orgulhosos e conversadores donos de gatos .
E você, caro leitor, se fosse taxista, quanto cobraria?
segunda-feira, 7 de julho de 2008
A natureza do lugar

Conheci em tempos uma pessoa que sempre que havia derramamentos de petróleo no oceano começava o dia de trabalho analisando nos jornais a progressão da mancha em direcção à costa e os efeitos destrutivos da catástrofe ecológica, como se esses percursos lhe revelassem coisas sobre a própria vida.


sábado, 5 de julho de 2008
A senhora da romã
Para mim, alguns dos passos mais inesquecíveis da Recherche são as descrições de Odette enunciadas a partir do ponto de vista de Swann: os desvios em relação aos padrões de beleza que o esteta cultiva acabam por atrair ainda mais a sua atenção relativamente àquela com que acabará por casar.Gosto muito da noção de alguém a descrever uma pessoa que o interessa apesar de não corresponder a padrões convencionais. Tenho pensado nisto porque, um pouco por acaso, venho ultimamente encontrando várias descrições de beleza feminina imperfeita nas coisas que ando a ler.
Não me consigo lembrar de muitos retratos deste género e tenho até a suspeita de que só grandes escritores são capazes de captar de forma superior não só a mistura subtil de atracção e repulsa suscitada por um objecto de desejo imprevisto, mas também a investigação que tal desconcerto pode desencadear.
Na descrição de Nabokov gosto da noção de expansão desordenada da carne:
(Cotovia, trad. Ernesto Rodrigues, D. Quixote, p. 89)
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Animais com gatos
Eu própria venho de um sítio onde ainda conheci mulheres capazes de percorrer dois quilómetros a pé equilibrando sobre a cabeça um recipiente com flores para vender ou para enfeitar campas no cemitério. Independentemente da idade, tinham os pescoços mais elegantes que já vi.
Segundo o autor da peça, o gatinho da imagem representa uma homenagem bem-humorada aos bibelôs domésticos e à sua capacidade de ignorar elementos como gravidade, escala e leis da natureza, mas não me venham dizer que não andamos todos por aí com coisas estranhas, em equilíbrio precário, sobre a cabeça. Dá-se simplesmente o caso de ninguém as ver.
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Narrativas mesmo micro
«For sale: baby shoes, never worn.»
Aqui há uns tempos, o Guardian propôs o desafio das seis palavras a alguns escritores conhecidos.
Alexandre O'Neill tem uma micronarrativa em forma de poema telegráfico que obedece à regra das seis palavras:
«JORGE / Podes vir. / Mamã, enfim, morta.»
«Só mais cinco minutos.»
Londres para aficionados
- A Pérgula do Rei do Sabão (Hampstead Heath)
- Zero Graus de Longitude (Greenwich)
- As Portas do Paraíso (Cemitério de Kensal Green)
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Os pássaros de Shakespeare
De Eugene Schieffelin pouco mais se sabe para além do facto de ter libertado sessenta estorninhos europeus no Central Park de Nova Iorque em 1890 e outros quarenta em 1891. Conta-se que Schieffelin agiu movido pelo desejo de que os americanos pudessem ver no seu país todos os pássaros mencionados nas peças de Shakespeare.
Schieffelin terá depois chegado a tentar introduzir piscos, tentilhões, rouxinóis e cotovias nos Estados Unidos, mas sem o sucesso que obteve com os estorninhos. Os descendentes dos estorninhos de Schieffelin são actualmente tão numerosos no país que é bem possível que se tenham tornado mais conhecidos lá do que o próprio escritor inglês que os referiu apenas uma vez na sua obra.
E foi assim que o capricho vagamente literário de um excêntrico alterou a fauna dos Estados Unidos.
segunda-feira, 16 de junho de 2008
O cão que traz um pau na boca
O Homem Sem Qualidades, Musil
p. 165 (trad. João Barrento)
Moondust will cover you
Num dos feriados, umas cassetes antigas em que não apontei as músicas que na altura gravei deram origem a um difícil jogo de identificação. Por um lado, nomear os intérpretes. Por outro, perceber o que me teria passado pela cabeça ao escolher, há tanto tempo, aquelas faixas.De repente, dei por mim a pensar que a inesperada combinação poderia estar a revelar-se uma banda sonora adequada ao presente, como se a pessoa que então fui tivesse adivinhado que, anos depois, alguém como ela pudesse vir a precisar de ouvir certas músicas outra vez, naquela ordem, durante um jogo desprovido de consequências.
Noutro destes dias, saí pela primeira vez do cinema antes de um filme acabar. Foi durante Rocco e os seus Irmãos. Depois de duas horas de filme, fiz as contas. Se ficasse na sala, ainda teria quarenta e cinco minutos de gritos e vinganças a suportar. Não estou nada arrependida. Visconti é sobrevalorizado.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Flutuar, flutuar
- Comecei o primeiro volume de O Homem Sem Qualidades. Digamos que não é propriamente leitura fácil. Esta é para a Cristina:
«A régua de cálculo: […] um pequeno símbolo que se traz no bolso do peito e se sente sobre o coração como um risco duro e branco. Quando se tem uma régua de cálculo e alguém nos vem com afirmações bombásticas e sentimentos grandiosos, dizemos-lhe: Espere um momento, vamos primeiro calcular a margem de erro e o valor provável de tudo isso!» (p. 69.). - A propósito da Feira do Livro, gostei muito da primeira visita do Francisco José Viegas. Como quero sempre saber quem lê o quê, divirto-me todos os dias com os posts «É fazer as contas» do Blogue do JL.
- No excelente Os Livros Ardem Mal, entre outros posts dignos de nota, este, sobre um Animalário. Ainda sobre animais, ver Domesticated, uma série de fotografias que Amy Stein elaborou a partir de histórias supostamente reais sobre interacções inesperadas entre pessoas e vida selvagem: «We at once seek connection with the mystery and freedom of the natural world, yet we continually strive to tame the wild around us and compulsively control the wild within our own nature. Within my work I examine the primal issues of comfort and fear, dependence and determination, submission and dominance that play out in the physical and psychological encounters between man and the natural world.»
- Via Ciberescritas, um conceito interessantíssimo, que até agora, infelizmente, não teve ainda resultados muito entusiasmantes.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Fins-de-semana
Gostei especialmente dos quadrinhos de Miguel Branco: figuras antropomórficas com um rosto cujas contorções de tinta escapam ao humano. Diria que vemos assim o rosto das pessoas antes de sabermos que estamos a vê-las.
Para chegar à Galeria, atravessar um corredor exterior encimado por glicínias perfumadas.

Numa das casas de banho do King, ala feminina, um retrato a lápis de Ludivine Sagnier e seis versos de Rilke.
O filme de Chabrol protagonizado pela actriz, apesar de ter um cartaz bonito, não é grande coisa, infelizmente. (O corte de cabelo de Benoit Magimel, valha-me deus.)
Para uma História da Alimentação de Lisboa e seu Termo, de Alfredo Saramago e Lendas, de Gustavo Adolfo Bécquer, ambos em saldo na Assírio&Alvim.
Compro o Expresso com a esperança de encontrar informação sobre os filmes do festival de Cannes. Só duas páginas sobre o assunto. Nenhuma referência elucidativa a filmes de realizadores que me interessam (Desplechin, Garrel, Nuri Bilge Ceylan, etc.). Na Revista, dezenas e dezenas de páginas sobre futebol, desde o Euro até Figo. Isto de comprar jornais que só me vendem aquilo que já encontro em toda a parte não leva a lado nenhum.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Lemas de fim-de-semana
Make mistakes faster.
(via An Incomplete Manifesto for Growth, de Bruce Mau)
terça-feira, 27 de maio de 2008
segunda-feira, 26 de maio de 2008
Fins-de-semana
Feira do LivroFui no domingo. Muita gente e, hélas!, fila interminável para as farturas.
A diversidade, para mim, é um dos grandes atractivos da Feira. Sou totalmente a favor da liberdade de escolha do modelo do pavilhão. Os pavilhões da Leya, com uma luz estranha e desagradável no interior devido à cobertura vermelha, transmitiram-me, no entanto, a sensação de escassa variedade de títulos disponíveis. O espaço para as pessoas circularem no interior pareceu-me exíguo para tanta gente. O facto de os livros não terem preços marcados também se revelou uma grande falha.
Por outro lado, a D. Quixote estava a fazer desconto de 40% no primeiro volume de O Homem Sem Qualidades e só por isso já merecia um beijinho. Livros do Dia que não interessam a ninguém são um mal desnecessário.
Quanto às minhas compras, para além de Musil, Verão, de Edith Wharton (Relógio D’Água) e dois Nabokov a preços reduzidos: Na Outra Margem da Memória – uma autobiografia revisitada (Difel) e Aulas de Literatura (Relógio D’Água).
Sou fã. O meu preferido é o terceiro. Ainda hoje me comove a sequência que culmina com a descoberta do Graal: o «leap of faith» que Indiana Jones tem a coragem de dar sobre o abismo, a ponte invisível que se materializa sob as botas gastas do herói, o combate inesperadamente fácil com o cavaleiro imortal, os critérios da escolha do cálice.
Em todos os filmes, gosto da arquitectura dos cenários: túmulos, subterrâneos, túneis, passagens secretas, armazéns de acesso interdito. Sigo com muita atenção os momentos em que as personagens decifram instruções, resolvem enigmas e superam provas para chegar àquilo que procuram ou pensam procurar.
Deste quarto filme não saí totalmente decepcionada porque me agradaram a sequência nos armazéns americanos e a breve passagem pela aldeia de testes nucleares, a descoberta e a visita ao túmulo de Francisco de Orellana (decerto com uma versão mais longa a sair em DVD) e todo o percurso pelo templo das caveiras de cristal.
Hitchcock dizia que um vilão tem de ter charme e suscitar um mínimo de empatia, mas tudo indica que poucos foram os que aprenderam a lição. A personagem de Cate Blanchett, caricatural e histriónica, parece-me, neste sentido, totalmente falhada e excepcionalmente irritante. Um filme deste género depende muito da actuação de um adversário bem conseguido, essa guerra não foi ganha aqui e o filme como um todo saiu a perder.
São como as palavras
Já tinha lido sobre elas na blogosfera. Vi depois umas pessoas na televisão numa espécie de festival de cerejas no Porto, comentando os preços:
- Encontrei a dois euros e cinquenta num hipermercado. Comprei um quilo por cinco euros no Bulhão.
Uma senhora a dizer que ia comer sozinha uma caixa de cerejas inteira, depois de as fotografar e enviar as imagens para o Brasil.
Comprei a três euros e trinta, aqui em Lisboa, no sábado, enquanto uma adolescente, chocada, interpelava outra que usava a balança no supermercado:
- Vais gastar todo o dinheiro que tens em cerejas?
