«I too am not a bit tamed, I too am untranslatable» (Walt Whitman) | setadespedida@yahoo.co.uk

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Especulação




O romance Dept. of Speculation, de Jenny Offill (n. 1968), foi uma referência constante nas listas dos melhores livros de 2014. É um romance narrado por uma personagem feminina que tenta conciliar os papéis de escritora, mulher (esposa) e mãe, no qual se conta o desenvolvimento de uma relação, desde o início, com passagem pela decisão de casar e ter um filho, até uma crise do casamento desencadeada por uma infidelidade do marido. Em Portugal este livro será publicado em 2015 pela Relógio d’Água.

Descrito desta forma, Dept. of Speculation parece um romance semelhante a muitos outros. Contudo, apesar de pecar por não conseguir libertar-se completamente de alguns lugares-comuns mais gastos da ficção tradicional (além do tópico do adultério, a transição da vida urbana para a vida suburbana, mas também a preocupação de contar uma história «de interesse humano» em que é possível identificar princípio, meio e fim), Dept. of Speculation é um romance corajoso, original e único graças à organização formal e à narração a partir de parágrafos aforísticos e epigramáticos que surpreendem pela intensidade lírica e conceptual.

A noção de «especulação» está presente logo a partir do título: esta especulação é existencial, literária e filosófica. O romance destaca-se pela capacidade singular de narrar estes conflitos e as suas pequenas histórias a partir de parágrafos curtos mas dotados de uma densidade que os aproxima do ensaio breve e da poesia. Alguns destes parágrafos comentam referências culturais, factos, episódios ou citações literárias e filosóficas com uma ironia que se reflecte sobre o enredo principal: «My plan was to never get married. I was going to be an art monster instead. Women almost never become art monsters because art monsters only concern themselves with art, never mundane things. Nabokov didn’t even fold his umbrella. Vera licked his stamps for him.» (p. 8).

 
Uma distinção interessante de Dept. of Speculation em relação a livros que tratam tópicos parecidos é a fase da vida que a narradora atravessa, entre a juventude e a velhice. À tradição fascinada pelas ilusões e pelas instabilidades das mulheres jovens, Offill opõe a rotina e os compromissos da idade adulta, com os  ressentimentos e frustrações que lhe estão associados. Apesar disso, não perde de vista nem a urgência de viver e de escrever da protagonista, nem o modo como esta urgência se vai tornando cada vez mais preciosa ao longo da vida.

 
Talvez a maior proeza do livro de Jenny Offill seja o modo como a narradora articula as funções de escritora, mulher (adulta e esposa) e mãe na enunciação: os papéis de mulher e mãe são desempenhados enquanto escritora; não há uma fronteira decisiva entre a vida quotidiana e a vida literária. Não se escreve de modo diferente por se ser mulher e mãe, mas vive-se de modo diferente por se ser escritora, tal é o esforço constante de fazer sentido da existência quotidiana que esta condição implica. O impulso de fazer sentido exerce-se tanto sobre os textos lidos e escritos pela narradora como sobre os episódios e pormenores mais insignificantes da vida quotidiana. A dificuldade de escrever é descrita como equivalente da dificuldade de viver e sobreviver. Neste sentido, “Mother Courage”, o título do texto que James Wood publicou na revista New Yorker sobre este livro de Jenny Offill, é um pouco redutor. Se Dept. of Speculation tivesse um narrador e autor do sexo masculino, dificilmente alguém se lembraria de escolher “Father Courage” como título de uma recensão do livro. (Não estou a dizer que o trocadilho brechtiano foi escolhido com intenções discriminatórias, mas sim que, por vários motivos, o problema dos sacrifícios inerentes à paternidade raramente é sublinhado como tema principal de um livro com um autor do sexo masculino.)

 
No seu próprio site (http://jennyoffilll.com/), Jenny Offill publicou uma lista dos livros que considera influências próximas e distantes deste romance. Entre estes inclui autores como o Fernando Pessoa do Livro do Desassossego, Renata Adler, Maggie Nelson, Robert Walser, John Berryman, Lydia Davis, Kafka, Mary Ruefle e Anne Carson. É fácil perceber que se trata de uma família de autores que cultivaram ou cultivam formas curtas e intensas. Jenny Offill aproxima-se destes escritores pela capacidade de condensar ideias de modo simultaneamente lírico e racional. Distingue-se, no entanto, pelo imposição de uma corrente narrativa capaz de inspirar o leitor a relacionar estes parágrafos  num enredo coerente.

 
Se quisermos convocar uma família de escritores contemporâneos totalmente diferentes, podemos pensar em nomes como Elena Ferrante ou Karl Ove Knausgaard, autores torrenciais que não têm como preocupação principal desenvolver uma reflexão distanciada sobre os acontecimentos que estão a narrar, procurando antes expor e  explorar pormenores concretos e emocionais mais imediatos. Pelo contrário, Jenny Offill, à semelhança de Maggie Nelson e de Sarah Manguso, trabalha descrições depuradas e intensas de estados de espírito, usando a reflexão quer sobre incidentes existenciais, quer sobre citações ou anedotas filosóficas ou literárias, como lente através da qual a narração avança.

 
As maiores diferenças de Sarah Manguso e de Maggie Nelson relativamente a Jenny Offill residem, no caso das duas primeiras, tanto numa secundarização das preocupações narrativas do registo ficcional como na escolha de temas menos convencionais: Sarah Manguso publicou livros sobre a sua experiência de uma doença crónica auto-imune (The Two Kinds of Decay), sobre a sua reacção ao suicídio de um amigo (The Guardians) e sobre a experiência de escrever um diário (Ongoingness: The End of a Diary); entre outros, Maggie Nelson escreveu um livro que se organiza a partir de parágrafos sobre a cor azul (Bluets). Manguso e Nelson são, portanto, escritoras mais difíceis de classificar e até de divulgar.

Aliás, Sarah Manguso e Maggie Nelson não estão traduzidas em Portugal e não é fácil nomear escritores portugueses contemporâneos pertencentes à mesma família. Alguma prosa poética portuguesa actual tende a acentuar vertentes mais líricas, sem investimento verdadeiramente reflexivo nem grandes preocupações narrativas. Dir-se-ia que certos textos de Adília Lopes trabalham o mesmo registo dos de Jenny Offill, mas de modo mais desleixado ou, se quisermos, mais lúdico e deliberadamente ingénuo. Por este motivo, Adília Lopes é uma escritora muito diferente de Jenny Offill.
 
 
 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O Cinéfilo Preguiçoso




Desde fins de Dezembro de 2014, eu e o Alexandre temos estado a publicar um registo semanal das nossas aventuras cinematográficas.



27.4.2015 La Sapienza e Une Histoire Américaine (Eugène Green, 2014; Armel Hostiou, 2015)
21.04.2015 Carta de Uma Desconhecida (Max Ophüls, 1948)
14.04.2015 Roma, Cidade Aberta e Paisà (Roberto Rossellini, 1945; Roberto Rossellini, 1946)

6.04.2015 Na morte de Manoel de Oliveira

1.04.2015 The Outsiders (Francis Ford Coppola, 1983)

4.03.2015 Waking Life (Richard Linklater, 2001)
16.03.2015 L’Amour Est Un Crime Parfait (Arnaud e Jean-Marie Larrieu, 2013)

9.03.2015 Big Eyes (Tim Burton, 2014)
2.03.2015 Ida (Pawel Pawlikowski, 2013)

23.02.2015 Inherent Vice (Paul Thomas Anderson, 2014)

17.02.2015 The Future (Miranda July, 2011)

9.02.2015 Topsy-Turvy (Mike Leigh, 1999)
2.02.2015 The Theory of Everything (James Marsh, 2014)
27.01.2015 O Jogo da Imitação e Debaixo da Pele (Morten Tyldum, 2014; Jonathan Glazer, 2013)
9.01.2015 Sono de Inverno (Nuri Bilge Ceylan, 2014)
12.01.2015 Adeus à Linguagem (Jean-Luc Godard, 2014)

4.01. 2015 Mr. Turner (Mike Leigh, 2014)

29.12.2014 Tokyo Twilight  e E Agora? (Ozu, 1957; Joaquim Pinto, 2013)
22.12.2014 Boyhood (Richard Linklater, 2014)

16.12.2015 Lamentações gerais e Saint Laurent (Bertrand Bonello, 2014)

 

Imagens Proféticas e Outras


João Bénard da Costa. 2014. Crónicas: Imagens Proféticas e Outras. 3.º volume. Lisboa: Documenta.
 
 
            Publicado em 2014, o terceiro volume de Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, de João Bénard da Costa (1935-2009), reúne textos que saíram na imprensa em 2006, complementando a série iniciada com a antologia de textos de 2002-2003 (primeiro volume) e continuada com textos de 2004-2005 (2.º volume). Em relação aos outros dois volumes de crónicas, há a assinalar em primeiro lugar uma revisão de texto mais cuidada. Pela negativa, no entanto, verifica-se a ausência incompreensível de um índice dos textos, ainda que haja um índice remissivo que demonstra a diversidade de interesses e referências do autor.
            É natural associarmos Bénard da Costa à cinefilia. Não só fez parte da direcção da Cinemateca, enquanto subdirector entre 1980 e 1991 e como director até 2009, como desenvolveu actividades culturais relacionadas. Muitos e belos são os textos que Bénard da Costa escreveu sobre cinema. Nestes volumes de crónicas, contudo, os textos mais interessantes não são necessariamente sobre cinema – ou não são só sobre cinema. Apesar de publicar crónicas em jornais, Bénard da Costa não se deixa seduzir pelos encantos efémeros da actualidade, preferindo antes tópicos que lhe parecem essenciais, ainda que pouco abordados por outros no mesmo meio. Neste terceiro volume encontramos crónicas sobre Cristina Campo, Mozart, Manoel de Oliveira, Richard Strauss, Richard Fleischer, Paulo Rocha, Sophia de Mello Breyner, Alida Valli, Tchekov, Bento XVI, John Ford, Elisabeth Schwarzkopf, a Arrábida e Tiziano, entre outros.
Os interesses de Bénard da Costa vão do erudito (pintura, música clássica, clássicos da literatura), ao concreto e pessoal (memórias da família, da vida em Lisboa ou das férias na Arrábida, descritas ao pormenor). O que mais surpreende e comove o leitor nestas crónicas é um conjunto de características difíceis de encontrar em alguém que viva nos tempos tão virtuais que vivemos. Entre estas características, temos não só o empenhamento em estar presente na própria vida, percorrendo os lugares, encontrando-se com as pessoas de que gosta, observando as obras de arte no espaço em que estão expostas, mas também a vontade de partilhar interesses. O empenhamento em viver e o desejo de partilha de interesses reflecte-se no tom de conversa e de narração destes textos, pontuado, quando menos se espera, por um sentido de humor ligeiramente autodepreciativo: «Parei um bocadinho, para bater na madeira, que ‘presunção de salvação sem merecimento’ é pecado contra o Espírito e nunca devemos presumir de mais./Mas encandeio com uma dessas histórias dos meus pesadelos e vejam se não tenho razão para eles.» (p. 231). Outro dos traços distintivos destas crónicas relaciona-se com a linguagem de Bénard da Costa: palavras e construções de outros tempos mas que se revelam imprescindíveis pela sua expressividade, não se destacando portanto como arcaísmos, mas sim como reactualizações e revitalização de expressões caídas em desuso.
Além da generosidade do tom, o mais aliciante nestas crónicas reside na facilidade com que Bénard da Costa estabelece relações entre elementos diferentes de um modo em que uns ajudam a esclarecer o valor imaginativo dos outros. Entre os textos mais interessantes deste volume destaque, por exemplo, para «O Medalhão Reencontrado» (35-39), em que a recordação de infância de uma visita com a avó a casa de uma senhora misteriosa leva o autor a evocar um medalhão que lhe passaram para a mão para se entreter, suscitando a seguir a evocação do primeiro Livro de Pintura que os pais lhe ofereceram e, com este, de Bronzino e dos retratos de Eleonora de Toledo. Noutro exemplo de recordações que se sucedem de modo idiossincrático, na crónica «O Gerânio na Janela» (133-137) convoca-se Dante Gabriel Rossetti em articulação com as figuras de Prosérpina, Kim Novak, a Carlota Valdés de Vertigo e Ellen Page no filme Hard Candy. Outra das crónicas mais sugestivas deste volume é aquela que se intitula «O que Não Tem Penas» (199-205), em que o conto «The Man Who Liked Dickens», juntamente com o filme pouco conhecido em que Nicholas Ray adaptou este texto de Evelyn Waugh para a televisão (High Green Wall, 1954), funcionam como ponto de partida para algumas reflexões sobre os diversos modos de recepção da literatura, culminando numa espécie de teoria da arte que é uma filosofia de vida: «Felizes os que amam um só autor [...] até ao fim e passaram esta vida breve sem sair dele.» (p. 201).
Muitos dos textos mais inspiradores e mais inesperados de Bénard da Costa têm a ver com o registo das memórias, como se verifica nos casos de «Memórias do Alfredo» (61-64) ou «No Sexto Aniversário da Minha Morte» (127-131). Entre estes, salientam-se as crónicas que Bénard da Costa escreveu sobre a Arrábida. Nas palavras do autor, a Arrábida converte-se num espaço mental encantado que de algum modo resiste a todas as agressões políticas, ambientais e turísticas, ao ponto de se tornar difícil associar a Arrábida de Bénard da Costa a qualquer outra imagem da Arrábida que possamos encontrar ou captar inclusivamente na própria Arrábida. É possível comprovar isto mesmo no filme Outros Amarão as Coisas que Eu Amei (Manuel Mozos, 2014). Sobrepor as palavras de Bénard da Costa a imagens da Arrábida gera uma disjunção estranha. Quem visitar a Arrábida depois de ler as crónicas de Bénard da Costa ficará ligeiramente desorientado ou perdido, de tal modo a Arrábida de Bénard da Costa e dos que o leram está associada às memórias do autor.
            Entre os textos deste volume dedicados à Arrábida, realce para «Arrábida, Outra Vez» (227-233), um clássico de Bénard na Costa na sua construção. Depois de referências à participação do autor na filmagem de um filme de Manoel de Oliveira, à apresentação de um livro sobre o Convento da Arrábida, ao fantasma de um monge que assombraria este edifício, e a um romance de Agustina cuja acção decorre na mesma região, Bénard da Costa descreve a «Lapa do Médico»: entre fragas e penhascos, um «buraco no chão, onde mal cabe uma pessoa» e que dá acesso a uma sucessão de galerias. A seguir, a atmosfera de tom de fadas da aventura perigosa que caracteriza o relato da visita que um dia fez a este espaço com os dois filhos e um sobrinho termina com a menção de uma perspectiva diferente do mesmo episódio: «Estava a passar férias connosco o Nuno de Bragança, que mantinha um diário. Muito mais tarde, li o que ele tinha escrito referente a esse dia: ‘À tarde, o João, com estarrecedora inconsciência, enfiou-se numa gruta e arriscou os nervos de três crianças para o resto da vida.’»
Nesta crónica sobre a Arrábida é evidente toda a singularidade dos textos de Bénard da Costa: o tom erudito, um pouco épico, um pouco lírico, quase a tocar a mitomania, articulado com a citação irónica de um ponto de vista que o equilibra e torna mais nítido; um conjunto de referências culturais incluídas não como pose exibicionista, mas porque são essenciais à própria noção de vida praticada e partilhada pelo autor. É importante descrever Bénard da Costa como escritor e não só como divulgador e comentador de cinema.



 
 

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Forma de Vida #5



Neste número escrevi sobre Girls e o livro Not That Kind of Girl, de Lena Dunham. (Saudar a percepção infelizmente revolucionária de que afinal as mulheres, mesmo na casa dos vinte, conseguem pensar pela própria cabeça e não se preocupam só com a aparência e com os namorados umas das outras.)


Lena Dunham. 2014. Not That Kind of Girl: A Young Woman Tells You What She’s ‘Learned’. Londres: Fourth Estate.


Girls. Estreou na HBO em 2012. Criadora: Lena Dunham. Argumentos: Lena Dunham, Sarah Heyward, Deborah Schoeneman, Jennifer Konner, Judd Apatow, Bruce Eric Kaplan e outros.


Nos últimos tempos temos assistido à ascensão do ensaio pessoal ou autobiográfico no contexto americano. Textos que anteriormente seriam trabalhados e apresentados como ficção ou narrativa de cariz ensaístico ostentam agora o rótulo de não-ficção, sendo publicados em volume autónomo.

Esta situação traz vantagens e desvantagens. Do lado das vantagens, passamos a ter acesso a perspectivas singulares que encontram a sua voz neste formato. Estou a pensar, por exemplo, nos livros de Rebecca Solnit. Solnit escreve ensaios em que conseguimos identificar um ponto de vista que relaciona vários elementos, residindo neste trabalho de pensamento a marca distintiva e ao mesmo tempo o apelo universal destes textos. Por outro lado, a maior desvantagem do formato é a facilidade com que se produzem textos circunstanciais, como se bastasse dizer umas coisas ou contar um episódio biográfico para apresentar um texto merecedor de atenção. Nestes casos, falta-nos tanto reflexão conceptual como trabalho sobre a linguagem.

O livro Not That Kind of Girl, um compilação de ensaios pessoais da argumentista, actriz e realizadora Lena Dunham, infelizmente pertence ao segundo caso.

Enquanto celebridade, Lena Dunham é uma figura interessantíssima. Dunham e a série Girls, por si protagonizada e escrita em colaboração com uma equipa de argumentistas, adquiriram notoriedade devido à liberdade que demonstram relativamente ao que as convenções ditam que uma mulher seja: uma criatura afável e meiga que tem como maiores preocupações, um, a aparência e, dois, as relações sentimentais. De acordo com esta perspectiva, nenhuma mulher jovem deve interessar-se por mais alguma coisa além de manter o namorado e de parecer bonita, simpática, disponível e compreensiva.

Uma das características mais distintivas da série Girls é o modo como as actrizes, mesmo uma actriz tão convencionalmente bonita como Allison Williams (Marnie), não evitam expressões sérias ainda que com isso deixem de parecer tão agradavelmente desmioladas e desligadas de qualquer dificuldade existencial importante como a maior parte das mulheres jovens ficcionais que aparecem na televisão.

Dunham, em particular, tornou-se alvo de aversão porque, em contraste com a maior parte dos actores e actrizes que aparecem na televisão e no cinema americanos, tem quilos a mais, exibe um guarda-roupa que raramente a favorece e – pecado capital – não parece suficientemente preocupada com isso. Tanto Hannah Horvath, a personagem que a actriz representa em Girls, como a própria Dunham ousam ter outros interesses na vida além da aparência e dos namorados. Preocupam-se com problemas relacionados com questões de sobrevivência, trabalho, relações de amizade, perceber quem são e o que querem, pensar pela própria cabeça e assumir a responsabilidade pelos próprios erros e pelas próprias opções. O mesmo é verdadeiro sobre as outras protagonistas de Girls: há mais dimensões na vida destas personagens do que costumava acontecer na televisão. Talvez seja a primeira vez, por exemplo, que uma série tem como protagonista uma rapariga que lida com um distúrbio obsessivo-compulsivo e mostra alguns sintomas e dificuldades relacionados com este problema.

Uma das características que mais suscitam a indignação dos detractores de Girls (mulheres e homens) é a alegada «falta de empatia» das personagens: nem sempre estas personagens têm interesse ou paciência para os problemas umas das outras. Parece escandaloso a estes detractores que as mulheres às vezes tenham mais que fazer e mais que pensar do que falar sobre os namorados umas das outras. Esta nova percepção das figuras femininas é muito mais surpreendente e muito mais importante do que a desenvoltura das cenas de sexo da série.

Ainda que Girls seja uma série mais crua do que O Sexo e a Cidade, a primeira não teria sido possível sem a segunda. As protagonistas de Girls são menos glamourosas e debatem-se com problemas que podem assumir consequências mais graves. A verdade, contudo, é que já em O Sexo e a Cidade encontrávamos mulheres associadas a opções menos convencionais, tentando perceber quem eram e o que queriam por si mesmas. Sob o brilho quase ofuscante das roupas e dos sapatos, se prestássemos atenção, víamos os egoísmos, as infidelidades, as mentiras, os ciúmes, as invejas, os erros e as desavenças das personagens – não só mulheres superficialmente agradáveis. O Sexo e a Cidade era uma série mais suave e divertida porque as actrizes estavam sempre bem vestidas e a tentar sorrir, parecendo não ter grandes interesses além das relações sentimentais. Girls é uma série mais livre e mais honesta do que O Sexo e a Cidade porque de vez em quando dispensa as roupagens vistosas e amplia o contexto existencial das protagonistas.

Na introdução de Not That Kind of Girl, Lena Dunham sublinha a necessidade de as mulheres assumirem os seus interesses e contarem a própria história: «There is nothing gutsier to me than a person announcing that their story is one that deserves to be told, especially if that person is a woman […] there are still so many forces conspiring to tell women that our concerns are petty, our opinions aren’t needed, that we lack the gravitas necessary for our stories to matter» Segundo Dunham, esta atitude não é opcional: «I want to tell my stories and, more than that, I have to in order to stay sane».

Talvez o modelo escolhido por Dunham – o livro de autoajuda Having It All, de Helen Gurley Brown (1982), encontrado por acaso pela autora numa loja de coisas usadas – não tenha, contudo, sido o mais adequado. Ainda que Dunham teça alguns comentários irónicos relativamente a este volume, em certos capítulos adopta o tom didactico-moralizante dos maus livros de autoajuda. O próprio subtítulo do livro de Dunham – A Young Woman Tells You What She’s ‘Learned’ – sugere que este contém lições a transmitir.

Pelo contrário, a série Girls distingue-se por mostrar personagens à procura do próprio caminho, sem recorrerem a modelos prévios de comportamento. Aliás, um dos diálogos mais emblemáticos da série (no segundo episódio da primeira temporada) gira em torno de uma discussão em que se recusa os conselhos de um livro de autoajuda – intitulado Listen, Ladies: A Tough Approach to the Tough Game of Love – sobre as relações entre homens e mulheres. A discussão termina quando a personagem Jessa (Jemima Kirke) diz que não precisa que lhe ensinem a viver.

Nos capítulos menos pedagógicos de Not That Kind of Girl, encontramos desde narrações de episódios marcantes na vida de Dunham (sobre vertentes sexuais e afectivas, relações com terapeuta, relações familiares), listas insuficientemente engraçadas («18 unlikely things I’ve said flirtatiously», «15 Things I’ve learned from my mother», «My top ten health concerns», etc.), excertos de um diário de dietas, a emails reais ou imaginários. Apesar de os textos terem sido especificamente escritos para este volume, carecem de ligação entre si. Falta-nos uma perspectiva forte que de algum modo resgate estes capítulos da banalidade a que se condenam.


É verdade que estamos habituados a ver representações incompletas ou falseadas de mulheres. É verdade que as mulheres são constantemente incentivadas a secundarizar os próprios interesses e a fingir que se enquadram nos estereótipos. É verdade que habitualmente a opinião das mulheres não é tão valorizada como a opinião dos homens. É importante que as mulheres tenham a oportunidade de assumir, desenvolver e defender os próprios interesses. Isto, por si só, não é, porém, garantia de resultados interessantes.

Lena Dunham criou uma série marcante, que faz História televisiva, e produziu um livro totalmente irrelevante. Not That Kind of Girl não é irrelevante por abordar os interesses de uma mulher jovem, mas sim por ter sido mal pensado e pouco trabalhado. No que diz respeito à qualidade, o género do autor não é determinante.




quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Filmes em 2014

Indico os quatro filmes que mais gostei de ver em sala este ano, destacando a seguir alguns momentos do meu ano de cinema que quero preservar na memória.

 
[Nota: não incluo nesta lista qualquer filme estreado em Portugal em Dezembro de 2014 simplesmente porque, devido às atribulações características da época, não tive tempo para ir ao cinema.]
 
 

Violette, de Martin Provost
 

No início, Violette Leduc  avança pela escuridão com uma mala. Ainda não é escritora. Está a fugir de alguém. A dada altura, no meio da lama, a mala abre-se e revela vísceras embrulhadas num pano branco ensanguentado. Percebemos depois que Violette sobrevive durante a guerra como traficante de comida e de outros produtos difíceis de arranjar. Todo o filme tem a ver com estratégias de sobrevivência: sobreviver às emoções, sobreviver à publicação dos livros, sobreviver aos custos da sobrevivência.
 


 Nick Cave: 20,000 Days on Earth, de Iain Forsyth e Jane Pollard
 

Qualquer dia ponho no cabeçalho deste blogue um excerto desta citação do filme:
«I love the feeling of a song before you understand it. When we're all playing deep inside the moment the song feels wild and unbroken. Soon it will become domesticated and it will drag it back to something familiar and compliant and we'll put it in the stable with all the other songs. But there is a moment when the song is still in charge and you just cling on for dear life and you are hoping you don't fall and break your neck or something. It is that feeling we chase in the studio.»
 
 

Jeune et jolie, de François Ozon


Este filme não é tanto sobre o «tédio da classe média,» como sobre a necessidade de se descobrir o próprio caminho em vez de se ser quem os outros são e de repetir comportamentos desprovidos de significado mesmo para aqueles que os adoptam e defendem.
 


Her, de Spike Jonze


Um filme que recorda que o amor também é «coisa mental».
 




O início de Charulata, de Satyajit Ray.




A cena na estação de comboio de Tokyo Twilight, de Ozu, sobre a impossibilidade de perdoar.
 



 Este plano em O Quarto Azul, de Mathieu Amalric.





 Gene Hackman em The Conversation (1974), de Francis Ford Coppola.
 
 




A rima inesperada, através do mesmo Gene Hackman, entre The Conversation e Another Woman (1988), de Woody Allen. Em The Conversation Gene Hackman instala escutas. O filme de Woody Allen começa com uma académica (Gena Rowlands) que ouve uma conversa através do sistema de ventilação do escritório que aluga para escrever. Esta conversa leva-a a recordar uma época da sua vida em que teve de escolher entre dois homens, um dos quais é representado por Gene Hackman.





A sequência que culmina neste fotograma do filme An Angel at My Table, de Jane Campion, sobre a grande escritora Janet Frame.
 


A sequência no museu no filme Vestida para Matar, de Brian de Palma.
 



Três rostos masculinos

Ethan Hawke
 

Philip Seymour Hoffman


Ralph Fiennes
 
 
 
 

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