«I too am not a bit tamed, I too am untranslatable» (Walt Whitman) | setadespedida@yahoo.co.uk

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O Cinéfilo Preguiçoso




Desde fins de Dezembro de 2014, eu e o Alexandre temos estado a publicar um registo semanal das nossas aventuras cinematográficas.



27.4.2015 La Sapienza e Une Histoire Américaine (Eugène Green, 2014; Armel Hostiou, 2015)
21.04.2015 Carta de Uma Desconhecida (Max Ophüls, 1948)
14.04.2015 Roma, Cidade Aberta e Paisà (Roberto Rossellini, 1945; Roberto Rossellini, 1946)

6.04.2015 Na morte de Manoel de Oliveira

1.04.2015 The Outsiders (Francis Ford Coppola, 1983)

4.03.2015 Waking Life (Richard Linklater, 2001)
16.03.2015 L’Amour Est Un Crime Parfait (Arnaud e Jean-Marie Larrieu, 2013)

9.03.2015 Big Eyes (Tim Burton, 2014)
2.03.2015 Ida (Pawel Pawlikowski, 2013)

23.02.2015 Inherent Vice (Paul Thomas Anderson, 2014)

17.02.2015 The Future (Miranda July, 2011)

9.02.2015 Topsy-Turvy (Mike Leigh, 1999)
2.02.2015 The Theory of Everything (James Marsh, 2014)
27.01.2015 O Jogo da Imitação e Debaixo da Pele (Morten Tyldum, 2014; Jonathan Glazer, 2013)
9.01.2015 Sono de Inverno (Nuri Bilge Ceylan, 2014)
12.01.2015 Adeus à Linguagem (Jean-Luc Godard, 2014)

4.01. 2015 Mr. Turner (Mike Leigh, 2014)

29.12.2014 Tokyo Twilight  e E Agora? (Ozu, 1957; Joaquim Pinto, 2013)
22.12.2014 Boyhood (Richard Linklater, 2014)

16.12.2015 Lamentações gerais e Saint Laurent (Bertrand Bonello, 2014)

 

Imagens Proféticas e Outras


João Bénard da Costa. 2014. Crónicas: Imagens Proféticas e Outras. 3.º volume. Lisboa: Documenta.
 
 
            Publicado em 2014, o terceiro volume de Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, de João Bénard da Costa (1935-2009), reúne textos que saíram na imprensa em 2006, complementando a série iniciada com a antologia de textos de 2002-2003 (primeiro volume) e continuada com textos de 2004-2005 (2.º volume). Em relação aos outros dois volumes de crónicas, há a assinalar em primeiro lugar uma revisão de texto mais cuidada. Pela negativa, no entanto, verifica-se a ausência incompreensível de um índice dos textos, ainda que haja um índice remissivo que demonstra a diversidade de interesses e referências do autor.
            É natural associarmos Bénard da Costa à cinefilia. Não só fez parte da direcção da Cinemateca, enquanto subdirector entre 1980 e 1991 e como director até 2009, como desenvolveu actividades culturais relacionadas. Muitos e belos são os textos que Bénard da Costa escreveu sobre cinema. Nestes volumes de crónicas, contudo, os textos mais interessantes não são necessariamente sobre cinema – ou não são só sobre cinema. Apesar de publicar crónicas em jornais, Bénard da Costa não se deixa seduzir pelos encantos efémeros da actualidade, preferindo antes tópicos que lhe parecem essenciais, ainda que pouco abordados por outros no mesmo meio. Neste terceiro volume encontramos crónicas sobre Cristina Campo, Mozart, Manoel de Oliveira, Richard Strauss, Richard Fleischer, Paulo Rocha, Sophia de Mello Breyner, Alida Valli, Tchekov, Bento XVI, John Ford, Elisabeth Schwarzkopf, a Arrábida e Tiziano, entre outros.
Os interesses de Bénard da Costa vão do erudito (pintura, música clássica, clássicos da literatura), ao concreto e pessoal (memórias da família, da vida em Lisboa ou das férias na Arrábida, descritas ao pormenor). O que mais surpreende e comove o leitor nestas crónicas é um conjunto de características difíceis de encontrar em alguém que viva nos tempos tão virtuais que vivemos. Entre estas características, temos não só o empenhamento em estar presente na própria vida, percorrendo os lugares, encontrando-se com as pessoas de que gosta, observando as obras de arte no espaço em que estão expostas, mas também a vontade de partilhar interesses. O empenhamento em viver e o desejo de partilha de interesses reflecte-se no tom de conversa e de narração destes textos, pontuado, quando menos se espera, por um sentido de humor ligeiramente autodepreciativo: «Parei um bocadinho, para bater na madeira, que ‘presunção de salvação sem merecimento’ é pecado contra o Espírito e nunca devemos presumir de mais./Mas encandeio com uma dessas histórias dos meus pesadelos e vejam se não tenho razão para eles.» (p. 231). Outro dos traços distintivos destas crónicas relaciona-se com a linguagem de Bénard da Costa: palavras e construções de outros tempos mas que se revelam imprescindíveis pela sua expressividade, não se destacando portanto como arcaísmos, mas sim como reactualizações e revitalização de expressões caídas em desuso.
Além da generosidade do tom, o mais aliciante nestas crónicas reside na facilidade com que Bénard da Costa estabelece relações entre elementos diferentes de um modo em que uns ajudam a esclarecer o valor imaginativo dos outros. Entre os textos mais interessantes deste volume destaque, por exemplo, para «O Medalhão Reencontrado» (35-39), em que a recordação de infância de uma visita com a avó a casa de uma senhora misteriosa leva o autor a evocar um medalhão que lhe passaram para a mão para se entreter, suscitando a seguir a evocação do primeiro Livro de Pintura que os pais lhe ofereceram e, com este, de Bronzino e dos retratos de Eleonora de Toledo. Noutro exemplo de recordações que se sucedem de modo idiossincrático, na crónica «O Gerânio na Janela» (133-137) convoca-se Dante Gabriel Rossetti em articulação com as figuras de Prosérpina, Kim Novak, a Carlota Valdés de Vertigo e Ellen Page no filme Hard Candy. Outra das crónicas mais sugestivas deste volume é aquela que se intitula «O que Não Tem Penas» (199-205), em que o conto «The Man Who Liked Dickens», juntamente com o filme pouco conhecido em que Nicholas Ray adaptou este texto de Evelyn Waugh para a televisão (High Green Wall, 1954), funcionam como ponto de partida para algumas reflexões sobre os diversos modos de recepção da literatura, culminando numa espécie de teoria da arte que é uma filosofia de vida: «Felizes os que amam um só autor [...] até ao fim e passaram esta vida breve sem sair dele.» (p. 201).
Muitos dos textos mais inspiradores e mais inesperados de Bénard da Costa têm a ver com o registo das memórias, como se verifica nos casos de «Memórias do Alfredo» (61-64) ou «No Sexto Aniversário da Minha Morte» (127-131). Entre estes, salientam-se as crónicas que Bénard da Costa escreveu sobre a Arrábida. Nas palavras do autor, a Arrábida converte-se num espaço mental encantado que de algum modo resiste a todas as agressões políticas, ambientais e turísticas, ao ponto de se tornar difícil associar a Arrábida de Bénard da Costa a qualquer outra imagem da Arrábida que possamos encontrar ou captar inclusivamente na própria Arrábida. É possível comprovar isto mesmo no filme Outros Amarão as Coisas que Eu Amei (Manuel Mozos, 2014). Sobrepor as palavras de Bénard da Costa a imagens da Arrábida gera uma disjunção estranha. Quem visitar a Arrábida depois de ler as crónicas de Bénard da Costa ficará ligeiramente desorientado ou perdido, de tal modo a Arrábida de Bénard da Costa e dos que o leram está associada às memórias do autor.
            Entre os textos deste volume dedicados à Arrábida, realce para «Arrábida, Outra Vez» (227-233), um clássico de Bénard na Costa na sua construção. Depois de referências à participação do autor na filmagem de um filme de Manoel de Oliveira, à apresentação de um livro sobre o Convento da Arrábida, ao fantasma de um monge que assombraria este edifício, e a um romance de Agustina cuja acção decorre na mesma região, Bénard da Costa descreve a «Lapa do Médico»: entre fragas e penhascos, um «buraco no chão, onde mal cabe uma pessoa» e que dá acesso a uma sucessão de galerias. A seguir, a atmosfera de tom de fadas da aventura perigosa que caracteriza o relato da visita que um dia fez a este espaço com os dois filhos e um sobrinho termina com a menção de uma perspectiva diferente do mesmo episódio: «Estava a passar férias connosco o Nuno de Bragança, que mantinha um diário. Muito mais tarde, li o que ele tinha escrito referente a esse dia: ‘À tarde, o João, com estarrecedora inconsciência, enfiou-se numa gruta e arriscou os nervos de três crianças para o resto da vida.’»
Nesta crónica sobre a Arrábida é evidente toda a singularidade dos textos de Bénard da Costa: o tom erudito, um pouco épico, um pouco lírico, quase a tocar a mitomania, articulado com a citação irónica de um ponto de vista que o equilibra e torna mais nítido; um conjunto de referências culturais incluídas não como pose exibicionista, mas porque são essenciais à própria noção de vida praticada e partilhada pelo autor. É importante descrever Bénard da Costa como escritor e não só como divulgador e comentador de cinema.



 
 

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Forma de Vida #5



Neste número escrevi sobre Girls e o livro Not That Kind of Girl, de Lena Dunham. (Saudar a percepção infelizmente revolucionária de que afinal as mulheres, mesmo na casa dos vinte, conseguem pensar pela própria cabeça e não se preocupam só com a aparência e com os namorados umas das outras.)


Lena Dunham. 2014. Not That Kind of Girl: A Young Woman Tells You What She’s ‘Learned’. Londres: Fourth Estate.


Girls. Estreou na HBO em 2012. Criadora: Lena Dunham. Argumentos: Lena Dunham, Sarah Heyward, Deborah Schoeneman, Jennifer Konner, Judd Apatow, Bruce Eric Kaplan e outros.


Nos últimos tempos temos assistido à ascensão do ensaio pessoal ou autobiográfico no contexto americano. Textos que anteriormente seriam trabalhados e apresentados como ficção ou narrativa de cariz ensaístico ostentam agora o rótulo de não-ficção, sendo publicados em volume autónomo.

Esta situação traz vantagens e desvantagens. Do lado das vantagens, passamos a ter acesso a perspectivas singulares que encontram a sua voz neste formato. Estou a pensar, por exemplo, nos livros de Rebecca Solnit. Solnit escreve ensaios em que conseguimos identificar um ponto de vista que relaciona vários elementos, residindo neste trabalho de pensamento a marca distintiva e ao mesmo tempo o apelo universal destes textos. Por outro lado, a maior desvantagem do formato é a facilidade com que se produzem textos circunstanciais, como se bastasse dizer umas coisas ou contar um episódio biográfico para apresentar um texto merecedor de atenção. Nestes casos, falta-nos tanto reflexão conceptual como trabalho sobre a linguagem.

O livro Not That Kind of Girl, um compilação de ensaios pessoais da argumentista, actriz e realizadora Lena Dunham, infelizmente pertence ao segundo caso.

Enquanto celebridade, Lena Dunham é uma figura interessantíssima. Dunham e a série Girls, por si protagonizada e escrita em colaboração com uma equipa de argumentistas, adquiriram notoriedade devido à liberdade que demonstram relativamente ao que as convenções ditam que uma mulher seja: uma criatura afável e meiga que tem como maiores preocupações, um, a aparência e, dois, as relações sentimentais. De acordo com esta perspectiva, nenhuma mulher jovem deve interessar-se por mais alguma coisa além de manter o namorado e de parecer bonita, simpática, disponível e compreensiva.

Uma das características mais distintivas da série Girls é o modo como as actrizes, mesmo uma actriz tão convencionalmente bonita como Allison Williams (Marnie), não evitam expressões sérias ainda que com isso deixem de parecer tão agradavelmente desmioladas e desligadas de qualquer dificuldade existencial importante como a maior parte das mulheres jovens ficcionais que aparecem na televisão.

Dunham, em particular, tornou-se alvo de aversão porque, em contraste com a maior parte dos actores e actrizes que aparecem na televisão e no cinema americanos, tem quilos a mais, exibe um guarda-roupa que raramente a favorece e – pecado capital – não parece suficientemente preocupada com isso. Tanto Hannah Horvath, a personagem que a actriz representa em Girls, como a própria Dunham ousam ter outros interesses na vida além da aparência e dos namorados. Preocupam-se com problemas relacionados com questões de sobrevivência, trabalho, relações de amizade, perceber quem são e o que querem, pensar pela própria cabeça e assumir a responsabilidade pelos próprios erros e pelas próprias opções. O mesmo é verdadeiro sobre as outras protagonistas de Girls: há mais dimensões na vida destas personagens do que costumava acontecer na televisão. Talvez seja a primeira vez, por exemplo, que uma série tem como protagonista uma rapariga que lida com um distúrbio obsessivo-compulsivo e mostra alguns sintomas e dificuldades relacionados com este problema.

Uma das características que mais suscitam a indignação dos detractores de Girls (mulheres e homens) é a alegada «falta de empatia» das personagens: nem sempre estas personagens têm interesse ou paciência para os problemas umas das outras. Parece escandaloso a estes detractores que as mulheres às vezes tenham mais que fazer e mais que pensar do que falar sobre os namorados umas das outras. Esta nova percepção das figuras femininas é muito mais surpreendente e muito mais importante do que a desenvoltura das cenas de sexo da série.

Ainda que Girls seja uma série mais crua do que O Sexo e a Cidade, a primeira não teria sido possível sem a segunda. As protagonistas de Girls são menos glamourosas e debatem-se com problemas que podem assumir consequências mais graves. A verdade, contudo, é que já em O Sexo e a Cidade encontrávamos mulheres associadas a opções menos convencionais, tentando perceber quem eram e o que queriam por si mesmas. Sob o brilho quase ofuscante das roupas e dos sapatos, se prestássemos atenção, víamos os egoísmos, as infidelidades, as mentiras, os ciúmes, as invejas, os erros e as desavenças das personagens – não só mulheres superficialmente agradáveis. O Sexo e a Cidade era uma série mais suave e divertida porque as actrizes estavam sempre bem vestidas e a tentar sorrir, parecendo não ter grandes interesses além das relações sentimentais. Girls é uma série mais livre e mais honesta do que O Sexo e a Cidade porque de vez em quando dispensa as roupagens vistosas e amplia o contexto existencial das protagonistas.

Na introdução de Not That Kind of Girl, Lena Dunham sublinha a necessidade de as mulheres assumirem os seus interesses e contarem a própria história: «There is nothing gutsier to me than a person announcing that their story is one that deserves to be told, especially if that person is a woman […] there are still so many forces conspiring to tell women that our concerns are petty, our opinions aren’t needed, that we lack the gravitas necessary for our stories to matter» Segundo Dunham, esta atitude não é opcional: «I want to tell my stories and, more than that, I have to in order to stay sane».

Talvez o modelo escolhido por Dunham – o livro de autoajuda Having It All, de Helen Gurley Brown (1982), encontrado por acaso pela autora numa loja de coisas usadas – não tenha, contudo, sido o mais adequado. Ainda que Dunham teça alguns comentários irónicos relativamente a este volume, em certos capítulos adopta o tom didactico-moralizante dos maus livros de autoajuda. O próprio subtítulo do livro de Dunham – A Young Woman Tells You What She’s ‘Learned’ – sugere que este contém lições a transmitir.

Pelo contrário, a série Girls distingue-se por mostrar personagens à procura do próprio caminho, sem recorrerem a modelos prévios de comportamento. Aliás, um dos diálogos mais emblemáticos da série (no segundo episódio da primeira temporada) gira em torno de uma discussão em que se recusa os conselhos de um livro de autoajuda – intitulado Listen, Ladies: A Tough Approach to the Tough Game of Love – sobre as relações entre homens e mulheres. A discussão termina quando a personagem Jessa (Jemima Kirke) diz que não precisa que lhe ensinem a viver.

Nos capítulos menos pedagógicos de Not That Kind of Girl, encontramos desde narrações de episódios marcantes na vida de Dunham (sobre vertentes sexuais e afectivas, relações com terapeuta, relações familiares), listas insuficientemente engraçadas («18 unlikely things I’ve said flirtatiously», «15 Things I’ve learned from my mother», «My top ten health concerns», etc.), excertos de um diário de dietas, a emails reais ou imaginários. Apesar de os textos terem sido especificamente escritos para este volume, carecem de ligação entre si. Falta-nos uma perspectiva forte que de algum modo resgate estes capítulos da banalidade a que se condenam.


É verdade que estamos habituados a ver representações incompletas ou falseadas de mulheres. É verdade que as mulheres são constantemente incentivadas a secundarizar os próprios interesses e a fingir que se enquadram nos estereótipos. É verdade que habitualmente a opinião das mulheres não é tão valorizada como a opinião dos homens. É importante que as mulheres tenham a oportunidade de assumir, desenvolver e defender os próprios interesses. Isto, por si só, não é, porém, garantia de resultados interessantes.

Lena Dunham criou uma série marcante, que faz História televisiva, e produziu um livro totalmente irrelevante. Not That Kind of Girl não é irrelevante por abordar os interesses de uma mulher jovem, mas sim por ter sido mal pensado e pouco trabalhado. No que diz respeito à qualidade, o género do autor não é determinante.




quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Filmes em 2014

Indico os quatro filmes que mais gostei de ver em sala este ano, destacando a seguir alguns momentos do meu ano de cinema que quero preservar na memória.

 
[Nota: não incluo nesta lista qualquer filme estreado em Portugal em Dezembro de 2014 simplesmente porque, devido às atribulações características da época, não tive tempo para ir ao cinema.]
 
 

Violette, de Martin Provost
 

No início, Violette Leduc  avança pela escuridão com uma mala. Ainda não é escritora. Está a fugir de alguém. A dada altura, no meio da lama, a mala abre-se e revela vísceras embrulhadas num pano branco ensanguentado. Percebemos depois que Violette sobrevive durante a guerra como traficante de comida e de outros produtos difíceis de arranjar. Todo o filme tem a ver com estratégias de sobrevivência: sobreviver às emoções, sobreviver à publicação dos livros, sobreviver aos custos da sobrevivência.
 


 Nick Cave: 20,000 Days on Earth, de Iain Forsyth e Jane Pollard
 

Qualquer dia ponho no cabeçalho deste blogue um excerto desta citação do filme:
«I love the feeling of a song before you understand it. When we're all playing deep inside the moment the song feels wild and unbroken. Soon it will become domesticated and it will drag it back to something familiar and compliant and we'll put it in the stable with all the other songs. But there is a moment when the song is still in charge and you just cling on for dear life and you are hoping you don't fall and break your neck or something. It is that feeling we chase in the studio.»
 
 

Jeune et jolie, de François Ozon


Este filme não é tanto sobre o «tédio da classe média,» como sobre a necessidade de se descobrir o próprio caminho em vez de se ser quem os outros são e de repetir comportamentos desprovidos de significado mesmo para aqueles que os adoptam e defendem.
 


Her, de Spike Jonze


Um filme que recorda que o amor também é «coisa mental».
 




O início de Charulata, de Satyajit Ray.




A cena na estação de comboio de Tokyo Twilight, de Ozu, sobre a impossibilidade de perdoar.
 



 Este plano em O Quarto Azul, de Mathieu Amalric.





 Gene Hackman em The Conversation (1974), de Francis Ford Coppola.
 
 




A rima inesperada, através do mesmo Gene Hackman, entre The Conversation e Another Woman (1988), de Woody Allen. Em The Conversation Gene Hackman instala escutas. O filme de Woody Allen começa com uma académica (Gena Rowlands) que ouve uma conversa através do sistema de ventilação do escritório que aluga para escrever. Esta conversa leva-a a recordar uma época da sua vida em que teve de escolher entre dois homens, um dos quais é representado por Gene Hackman.





A sequência que culmina neste fotograma do filme An Angel at My Table, de Jane Campion, sobre a grande escritora Janet Frame.
 


A sequência no museu no filme Vestida para Matar, de Brian de Palma.
 



Três rostos masculinos

Ethan Hawke
 

Philip Seymour Hoffman


Ralph Fiennes
 
 
 
 

Livros em 2014


Série Old Filth, de Jane Gardam
 


Em 2012 Jane Gardam apareceu na lista das minhas leituras preferidas do ano, com Crusoe’s Daughter (1985), romance que, com todas as suas imperfeições, agora incluo na lista dos livros da minha vida. Em 2014 Jane Gardam aparece aqui devido aos três volumes da série Old Filth: Old Filth (2004), The Man in the Wooden Hat (2009), e Last Friends (2014).
Estamos habituados a livros que contam a mesma história na perspectiva de diferentes narradores, um mecanismo já bastante gasto e frequentemente conducente a resultados medíocres. Gardam faz uma coisa ligeiramente diferente. Continua a apresentar versões da mesma história (em torno de um triângulo constituído por Edward Feathers, Elizabeth Feathers e Terry Veneering) mas, em vez de mudar de narrador, em cada volume troca de personagem principal. Deste modo, a perspectiva mantém-se relativamente objectiva e imparcial, mas o leitor vai adquirindo mais informação sobre os acontecimentos. Nos três volumes há dados que nem todas as personagens conhecem, mesmo quando são as personagem principal do volume em que essa informação é fornecida. Devo ao segundo volume desta série uma das maiores surpresas que tive nos últimos anos de leitura. Quase no fim deste livro, já o leitor se distrai um pouco, achando que tudo está esclarecido, começando a pensar no livro a ler a seguir, quando,  do modo mais inofensivo que é possível imaginar, ocorre uma revelação que muda radicalmente a percepção  moral de uma das personagens.
Jane Gardam, felizmente, já revelou que está interessada em escrever pelo menos mais um volume desta série, no qual Isobel, uma das personagens mais misteriosas, pode assumir um papel principal. Por mim, imagino e desejo pelo menos mais um quinto livro para a série, protagonizado pela estranha personagem asiática que se chama Ross or Loss.
 


In Certain Circles, de Elizabeth Harrower

 


Sempre que me lembro, leio as críticas de James Wood na New Yorker. Nem sempre, no entanto, gosto dos livros de que ele gosta. Vejamos. Karl Ove Knausgaard: depois de ler o primeiro volume de My Struggle, acho que escreve muito bem, mas é desinteressante para mim; não tenciono ler mais livros desta série Rachel Kushner: depois de ler The Flamethrowers, acho que escreve mal e é desinteressante. Elena Ferrante: depois de ler os primeiros dois volumes da série Neapolitan Novels, ainda não decidi se gosto realmente do que escreve, mas vou ler todos os volumes desta série. Quanto a In Certain Circles, li este romance de Elizabeth Harrower graças a James Wood e não só  concordo totalmente com a avaliação dele, como vou tentar ler todos os livros disponíveis desta escritora australiana.
Não podemos gostar todos de igual modo das mesmas coisas.
 
 
 

Creature, de Amina Cain


 

Um excelente livro de contos poéticos publicado pela excelente editora Dorothy, a Publishing Project, um dos projectos editoriais que mais me entusiasmam nos tempos que correm. (Também li Wallcreeper, de Nell Zink, de que muito se falou. Este livro não me convenceu por aí além, mas fiquei interessada em ler mais da mesma autora.)
 
 
 
Bluets, de Maggie Nelson


 
Um livro sobre escrever poesia em prosa, de modo racional.

 

 
Yiyun Li

 
Neste caso, destaco não um livro, mas uma escritora que li pela primeira vez este ano. Ouvi falar desta escritora chinesa que escreve em inglês e vive nos Estados Unidos no episódio do excelente podcast Bookworm em que Michael Silverblatt a entrevistou a propósito do romance Kinder than Solitude. Gostei tanto de a ouvir que decidi ler tudo o que tivesse escrito. Quem estiver curioso experimente, por exemplo, ler o conto «Kindness», do livro Gold Boy, Emerald Girl,  ou o que ela escreveu aqui sobre um simples passo do romance The Death of the Heart, de Elizabeth Bowen.

 

 
 
Livros publicados em 2014


Para uma lista comentada dos livros publicados em 2014 de que mais gostei, ver aqui (página de Facebook da Forma de Vida).

 
 
 
 

Outras coisas em 2014

FAIXAS EM REPEAT
 
 
 
 
Aquilo que costumo descrever como «música para ouvir antes de conferências»: Yeah Yeah Yeahs, Arcade Fire (Reflektor, definitivamente o meu álbum preferido desta banda).
 
 

DISCOS MUITO OUVIDOS
 
 
 
Entre outros álbuns do mesmo músico.
 

 
 
 


 
Gosto muito mais da banda sonora do que do filme.

 





PODCASTS



DESISTENTE
 
Disco do meu computador entregou alma ao criador.
 
 
 
 
 

Ouvir música em todo o lado.

 
 

 
Josh Charles em The Good Wife.
 
 
 


Exposição de Jeff Wall em Amesterdão.




 
MULHERES

 


Mulheres cuja maior preocupação não é «parecer mais nova».
 
 




And We  Are Trying,  Nicholas Roerich (1922)





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