«I too am not a bit tamed, I too am untranslatable» (Walt Whitman) | setadespedida@yahoo.co.uk

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Livros em 2014


Série Old Filth, de Jane Gardam
 


Em 2012 Jane Gardam apareceu na lista das minhas leituras preferidas do ano, com Crusoe’s Daughter (1985), romance que, com todas as suas imperfeições, agora incluo na lista dos livros da minha vida. Em 2014 Jane Gardam aparece aqui devido aos três volumes da série Old Filth: Old Filth (2004), The Man in the Wooden Hat (2009), e Last Friends (2014).
Estamos habituados a livros que contam a mesma história na perspectiva de diferentes narradores, um mecanismo já bastante gasto e frequentemente conducente a resultados medíocres. Gardam faz uma coisa ligeiramente diferente. Continua a apresentar versões da mesma história (em torno de um triângulo constituído por Edward Feathers, Elizabeth Feathers e Terry Veneering) mas, em vez de mudar de narrador, em cada volume troca de personagem principal. Deste modo, a perspectiva mantém-se relativamente objectiva e imparcial, mas o leitor vai adquirindo mais informação sobre os acontecimentos. Nos três volumes há dados que nem todas as personagens conhecem, mesmo quando são as personagem principal do volume em que essa informação é fornecida. Devo ao segundo volume desta série uma das maiores surpresas que tive nos últimos anos de leitura. Quase no fim deste livro, já o leitor se distrai um pouco, achando que tudo está esclarecido, começando a pensar no livro a ler a seguir, quando,  do modo mais inofensivo que é possível imaginar, ocorre uma revelação que muda radicalmente a percepção  moral de uma das personagens.
Jane Gardam, felizmente, já revelou que está interessada em escrever pelo menos mais um volume desta série, no qual Isobel, uma das personagens mais misteriosas, pode assumir um papel principal. Por mim, imagino e desejo pelo menos mais um quinto livro para a série, protagonizado pela estranha personagem asiática que se chama Ross or Loss.
 


In Certain Circles, de Elizabeth Harrower

 


Sempre que me lembro, leio as críticas de James Wood na New Yorker. Nem sempre, no entanto, gosto dos livros de que ele gosta. Vejamos. Karl Ove Knausgaard: depois de ler o primeiro volume de My Struggle, acho que escreve muito bem, mas é desinteressante para mim; não tenciono ler mais livros desta série Rachel Kushner: depois de ler The Flamethrowers, acho que escreve mal e é desinteressante. Elena Ferrante: depois de ler os primeiros dois volumes da série Neapolitan Novels, ainda não decidi se gosto realmente do que escreve, mas vou ler todos os volumes desta série. Quanto a In Certain Circles, li este romance de Elizabeth Harrower graças a James Wood e não só  concordo totalmente com a avaliação dele, como vou tentar ler todos os livros disponíveis desta escritora australiana.
Não podemos gostar todos de igual modo das mesmas coisas.
 
 
 

Creature, de Amina Cain


 

Um excelente livro de contos poéticos publicado pela excelente editora Dorothy, a Publishing Project, um dos projectos editoriais que mais me entusiasmam nos tempos que correm. (Também li Wallcreeper, de Nell Zink, de que muito se falou. Este livro não me convenceu por aí além, mas fiquei interessada em ler mais da mesma autora.)
 
 
 
Bluets, de Maggie Nelson


 
Um livro sobre escrever poesia em prosa, de modo racional.

 

 
Yiyun Li

 
Neste caso, destaco não um livro, mas uma escritora que li pela primeira vez este ano. Ouvi falar desta escritora chinesa que escreve em inglês e vive nos Estados Unidos no episódio do excelente podcast Bookworm em que Michael Silverblatt a entrevistou a propósito do romance Kinder than Solitude. Gostei tanto de a ouvir que decidi ler tudo o que tivesse escrito. Quem estiver curioso experimente, por exemplo, ler o conto «Kindness», do livro Gold Boy, Emerald Girl,  ou o que ela escreveu aqui sobre um simples passo do romance The Death of the Heart, de Elizabeth Bowen.

 

 
 
Livros publicados em 2014


Para uma lista comentada dos livros publicados em 2014 de que mais gostei, ver aqui (página de Facebook da Forma de Vida).

 
 
 
 

Outras coisas em 2014

FAIXAS EM REPEAT
 
 
 
 
Aquilo que costumo descrever como «música para ouvir antes de conferências»: Yeah Yeah Yeahs, Arcade Fire (Reflektor, definitivamente o meu álbum preferido desta banda).
 
 

DISCOS MUITO OUVIDOS
 
 
 
Entre outros álbuns do mesmo músico.
 

 
 
 


 
Gosto muito mais da banda sonora do que do filme.

 





PODCASTS



DESISTENTE
 
Disco do meu computador entregou alma ao criador.
 
 
 
 
 

Ouvir música em todo o lado.

 
 

 
Josh Charles em The Good Wife.
 
 
 


Exposição de Jeff Wall em Amesterdão.




 
MULHERES

 


Mulheres cuja maior preocupação não é «parecer mais nova».
 
 




And We  Are Trying,  Nicholas Roerich (1922)





quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Livros em 2013




Gostei destes livros por serem tão pouco convencionais e tão diferentes do que se publica por aí (não só em Portugal, valha a verdade). Tanto Leonora Carrington como Jane Bowles tiveram existências invulgares, cheias de acidentes e reviravoltas, à semelhança das personagens destes livros. A diferença e as singularidades destas personagens e escritoras não são nem poses nem opções; são inevitáveis. Em vez de tentarem abafá-las, escritoras e personagens aceitam-nas, apesar de esta opção implicar efeitos imprevisíveis.
[A título de curiosidade, se li o livro de Leonora Carrington, mais conhecida como artista visual, foi porque o descobri aqui. Onde menos se espera está uma sugestão de boa leitura.]

 
Apesar de não ser a maior fã de Alice Munro (gosto, mas não é das minhas escritoras preferidas), cheguei a este livro depois de ler uma entrevista em que Munro o cita como obra-prima. Muito se falou este ano da valorização da categoria do conto implícita na atribuição do Nobel da Literatura a Alice Munro. The Golden Apples é um livro de contos que pode ser lido como romance se quisermos encaixar estes textos como num puzzle (tarefa que não é imprescindível e pode até ser considerada dispensável). Esta circunstância sugere uma certa porosidade nas fronteiras dentro do género narrativo.






Em boa hora o romance Speedboat, de Renata Adler, originalmente  publicado em 1976, foi recuperado na colecção da New York Review of Books (com um blogue muito recomendável), que propõe uma selecção primorosa  de livros um pouco esquecidos a que se pode recorrer com confiança quando se quer ler alguma coisa interessante. Em Speedboat reconheço uma atmosfera que recorda o filme Os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula. Imagino as personagens vestidas da mesma maneira, com um estilo casual, sem ser desleixado. Speedboat não é propriamente um livro de intriga política, mas a protagonista é jornalista. O traço distintivo deste romance é progredir por vinhetas em vez de assumir uma linearidade narrativa sem interrupções. Estabelece-se um contraste entre, por um lado, uma atmosfera de ansiedade intensa e, por outro, a extrema contenção do estilo: as maiores tempestades emocionais são tratadas com calma aparente.
 
Speedboat é um livro bastante diferente de Leaving the Atocha Station, de Ben Lerner. O segundo tem um narrador para o qual os episódios mais insignificantes são motivo de ataques de pânico ou de delírios ansiosos. Em comum entre os livros de Ben Lerner e de Geoff Dyer (que, aliás, escreveu sobre o romance de Lerner no Guardian), uma certa honestidade em relação aos efeitos da ansiedade. Dyer escreveu sobre a tentativa de escrever um ensaio sobre D. H. Lawrence. Uma das características que tornam este livro tão interessante depende da recusa corajosa de Geoff Dyer de se deixar limitar por fronteiras convencionais entre géneros. Distinguindo-se de um ensaio académico sobre literatura sobretudo pela atenção às impressões e experiências do seu autor, embora ao mesmo tempo escapando aos moldes tradicionais de géneros mais autobiográficos, Out of Sheer Rage explora os altos e baixos e os avanços e recuos da actividade de escrever, acabando assim por reflectir melhor sobre esta do que muitos textos académicos mais ambiciosos e supostamente mais sérios.


 
Este senhor escreve muito bem. É tudo o que há a dizer sobre este livro.





A ensaísta que mais li em 2013.




Filmes em 2013

Não se pode dizer que 2013 tenha sido um ano brilhante no que diz respeito aos filmes que estrearam em salas. Felizmente, destacam-se duas ou três excepções, houve reposições essenciais, estão à venda caixas preciosas e a Cinemateca continua a existir.



Os dois filmes que mais gostei de ver em sala foram duas magníficas reposições: Vertigo, de Hitchcock, e Viagem a Tóquio, de Ozu.

Por motivos académicos e por gosto pessoal, já vi mesmo muitas vezes alguns filmes de Hitchcock, entre os quais Vertigo. Não haja dúvida, no entanto, que ver este filme numa sala de cinema a sério revela quase um filme diferente. Temos de proteger os nossos cinemas, meus amigos.

Nunca tinha visto muito Ozu, mas sofri uma conversão instantânea à obra do cineasta quando vi Viagem a Tóquio. Uma das coisas mais admiráveis neste filme é a capacidade do realizador para gerir as diferenças de todos os elementos de uma família, com todas as suas crueldades ou bondades, evitando estereótipos e facilidades.  
 

AS QUATRO ESTREIAS EM SALA DE QUE MAIS GOSTEI


 
Like Someone in Love, Abbas Kiarostami

 
Em comum entre Ozu e Kiarostami encontramos os espaços cheios de objectos que tanto podem facilitar-nos a vida como ser obstáculos ou empecilhos no nosso caminho, fazer-nos perder tempo, ajudar-nos a explicar quem somos e como vivemos, ou até ajudar-nos a fingir que somos quem não somos. Interessam-me filmes que retratam o quotidiano e revelam elementos intrigantes na sua normalidade aparente, fazendo-nos prestar mais atenção à vida de todos os dias. (Não podia estar mais distante das pessoas que acham que o cinema que filma a vida de todos os dias é um não-cinema, como já li a propósito de alguns filmes de Alain Cavalier.)



 The Master, Paul Thomas Anderson

Personagens estranhíssimas, anti-heróicas, que estabelecem entre si relações difíceis de definir. Sobre que é este filme exactamente? Não sei responder nem acho a resposta muito importante.

 

 Frances Ha, Noah Baumbach


Um filme um tanto desequilibrado, com alguns ingredientes irritantes (Nova Iorque a preto e branco, certa ambição de ser o retrato de uma geração) que o transformam numa espécie de clássico instantâneo, Frances Ha consegue, ainda assim, ter momentos que muitos de nós já viveram, com destaque tanto para a sequência da viagem a Paris da protagonista, incluindo o jantar desconfortável que a desencadeia, como a sequência da procura de uma caixa multibanco que funcione quando é mesmo necessário levantar dinheiro.

Não tenho a certeza sobre a ideia, muito discutida a propósito deste filme, de que a dada altura da nossa vida precisamos de aceitar que nunca vamos ser quem queremos ser. De certo modo, seria mais fácil assim, mas não só o que somos e o que queremos ser está sempre em transformação, como também temos de lutar a vida inteira, todos os dias, para percebermos quem somos e quem realmente queremos ser. Não me parece que haja um momento na vida em que  podemos descansar desta tarefa.


 A Rapariga de Parte Nenhuma, Jean-Claude Brisseau

Um filme quase de terror, sobre a morte e outras forças negativas. Nenhum realizador vivo me assusta mais do que Brisseau.


OUTROS
Apesar de haver cada vez mais filmes iguais uns aos outros, totalmente previsíveis, este ano ainda foi possível ver em sala de cinema alguns filmes bastante invulgares.

-Dans la maison, François Ozon
-Stories We Tell, Sarah Polley
-Camille Claudel, Bruno Dumont
-Post Tenebras Lux, Carlos Reygadas
-Holy Motors, Leos Carax
-Fausto, Sokurov
-In Another Country, Hong Sang-Soo
-A Rapariga do 14 de Julho, Antoine Peretjako
-Vénus de Peles, Roman Polanski



 DVD
-Mélo, Alain Resnais
-Vous n’avez encore rien vu, Alain Resnais
-Un homme et une femme, Claude Lelouch
-Madame de…, Max Ophuls
-Bom Dia, Ozu

 




CINEMATECA, FESTIVAIS, ETC.
-Museum Hours, Jem Cohen
-I Walked with a Zombie, Jacques Tourneur
-Cortina Fechada, Jafar Panahi
-La Rencontre, Alain Cavalier
-The Woman in the Window, Fritz Lang

CAIXAS
-Victor Erice
- João César Monteiro

Vejo Erice como cineasta do Norte: do frio, do nevoeiro, da humidade, da luz cinzenta, dos casacos sobre camisolas – e de tudo o que se sente neste tipo de atmosfera que encontramos tanto em El Sur como em O Espírito da Colmeia. Quase fico contente pelo facto de El Sur não ter a secção mais solar e menos melancólica prevista inicialmente.

Nota Tenciono ver mais dois ou três filmes este ano, caso haja tempo e energia. Se for caso disso, essas referências hão-de aparecer aqui.


 

Outras coisas em 2013

ALGUMAS CANÇÕES
-Futile Devices, Sufjan Stevens

-Heartland Truckstop, Beth Orton
«Confidentialy speaking/all is at it seems»


-Valentine, Fiona Apple

-The Rip, Portishead
Estou viciada neste disco de 2008 em que só este ano reparei, eu que até aqui nunca gostei muito de Portishead.

 -Modern Drift, Efterklang

 
-The Heart’s a Lonely Hunter, David Byrne



PROVAVELMENTE OS DISCOS QUE MAIS OUVI ESTE ANO





 
 
 
PODCASTS DESCOBERTOS E APRECIADOS EM 2013

 
Brad Listi conversa com escritores ou pessoas ligadas à edição, muitas vezes sobre assuntos não necessariamente relacionados com a actividade de escrever, o que ocasionalmente desencadeia momentos interessantes. Também gosto dos monólogos de abertura destes programas.

 

Gosto sobretudo das emissões com artistas enquanto DJs convidados. Há programas com Brian Eno, Peter Gabriel, Patti Smith, etc. Muitas escolhas inesperadas.
 

 



quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Forma de Vida #3




Neste número, escrevo sobre o romance Hunger, de Knut Hamsun, relacionando-o com vários outros livros cujos protagonistas tentam lidar com a dificuldade de escrever.


Hamsun, Knut. Hunger (Sverre Lyngstad, trad.). Londres: Canongate, 2011.

 
Hunger, de Knut Hamsun, é um livro sobre as coisas que acontecem quando se tenta escrever. A própria estrutura narrativa parece reflectir as dificuldades desta actividade. Sem qualquer ligação forte de causa/efeito entre os seus diversos episódios e acontecimentos, cada secção do romance é construída a partir dos impulsos inesperados e autodestrutivos do protagonista (nunca nomeado), terminando sem qualquer resolução do problema fundamental. Em todos os momentos o protagonista tenta lidar com sua incapacidade para escrever, actividade a que se dedica em exclusividade e da qual, portanto, depende para sobreviver. Por não conseguir escrever, fica dependente de pequenos expedientes e raras esmolas para comer e pagar as dívidas, chegando muitas vezes a situações extremas de risco físico e mental relacionadas com a fome e a ausência de morada permanente. Apenas no último capítulo do livro, quando, ao que tudo indica, o protagonista desiste de tentar ser escritor, para trabalhar num barco, se verifica alguma progressão. Esta, no entanto, não é totalmente clara.

Só uma impossibilidade literária – sabermos o que acontece às personagens depois do fim dos romances de que fazem parte – poderia fixar o sentido deste livro. Depois do fim, o protagonista, um pouco como Rimbaud, pode optar definitivamente por uma vida sem mais preocupações nem riscos relacionados com a escrita, deixando-a ficar para trás como um episódio da juventude. Existe, no entanto, a hipótese de o protagonista encontrar em si o desejo e a capacidade para escrever, descobrindo-se mais forte depois da experiência negativa radical  da sua primeira tentativa.

Contudo, o final em aberto de Hunger torna-o resistente à sua associação sem reservas a algumas das tradições literárias que este livro evoca ou ajuda a definir. Não se pode incluí-lo sem hesitações no grupo de livros infelizmente estraçalhados por lugares-comuns de má crítica (Kafka, o Bartleby de Melville, entre outros) e que descreve a escrita como experiência de marginalidade ou como experiência radical de limites perigosos. Se o protagonista sobreviver tanto como não-escritor como enquanto escritor, isso verificar-se-á depois desta experiência dos limites e da marginalidade, e não por causa dela: o protagonista avança para algum tipo de futuro quando a deixa para trás.

Se acreditarmos na possibilidade de o protagonista se tornar escritor, teremos de incluir Hunger no subgénero dos livros sobre escritores em formação, como A Portrait of the Artist as a Young Man, de James Joyce, Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, A Moveable Feast, de Ernest Hemingway (não-ficção), Martin Eden, de Jack London, Ask The Dust, de John Fante e talvez até O Livro do Desassossego, de Bernardo Soares/Fernando Pessoa.

Neste grupo, talvez o livro mais próximo de Hunger seja Martin Eden, romance que termina com o suicídio do protagonista, exausto depois de um período em que escreve com uma energia e um ritmo quase sobrenaturais, pela capacidade de persistirem apesar de privações de vária ordem, incluindo fome. Ainda que Martin Eden, ao contrário do protagonista de Hunger, consiga escrever, ambos chegam esgotados ao fim da narrativa, o que os conduz à desistência. Depois de obtido o devido reconhecimento como escritor, Martin Eden perde a vontade de viver, abre a escotilha do camarote no barco em que viaja e simplesmente desliza para o mar.

Outro ponto de contacto interessante entre Hunger e Martin Eden – e talvez até entre estes dois livros e a obra de Pessoa –  é, aliás, a profissão de marinheiro. Em Martin Eden, esta profissão funciona como fonte de inspiração para a actividade de escrever; Martin Eden decide começar a escrever para contar as experiências que viveu no mar e nos trópicos. Em Hunger, no entanto, a escolha desta profissão é posterior à tentativa de escrever, sendo vista como ponto indesejável de chegada: o porto e os barcos que neste aguardam assumem uma presença vagamente ominosa ao longo do romance, talvez por serem entendidos como meio de transporte para um futuro em que o protagonista poderá não estar a tentar escrever.

A relação com Pessoa estabelece-se também pela tendência para a deambulação que Bernardo Soares partilha com o protagonista de Knut Hamsun. De notar, no entanto, que enquanto para Bernardo Soares tudo é motivo para escrever, no caso do protagonista de Knut Hamsun, nada suporta e ajuda a consolidar a escrita.

Ao contrário do que Paul Auster, autor que escreveu muitas vezes sobre sobre fome não-metafórica, sugere no posfácio da edição que li, não tenho a certeza de que em Hunger a fome esteja totalmente livre de associações metafóricas. Leitores e protagonista confrontam-se com duas perguntas importantes. Como escrever em vez de não escrever? Porquê escrever em vez de não escrever? Para a primeira, o protagonista não encontra uma solução persistente e satisfatória. Dir-se-ia, no entanto, que o título e a estrutura do romance sugerem uma resposta para a segunda. Podemos encontrar uma correspondência entre a fome e a vontade de escrever. Tal como a fome, escrever é um problema que constantemente se tem de resolver. Tal como a fome e como a vontade de viver, o desejo de escrever nunca chega a uma resolução permanente e satisfatória (a não ser através da morte), estando exposto a processos de desgaste  e renovação permanentes.

A fome de Hunger também se distingue da fome de Ernest Hemingway em A Moveable Feast (sobretudo na secção «Hunger is Good Discipline»). Neste livro em que narra os tempos que passou em Paris tentando afirmar-se como escritor, Hemingway descreve a fome associada à falta de dinheiro como uma espécie de intensificador da experiência e da percepção. Em Hunger, no entanto, Knut Hamsun concentra-se nos efeitos físicos (fraqueza, vómitos, doença) e psicológicos ou até psiquiátricos (instabilidade emocional, comportamentos anti-sociais, enfraquecimento da resistência mental, desconcentração, interpretações inverosímeis dos acontecimentos) da fome, sem referência directa a (im)possíveis vantagens artísticas relacionadas com esta situação. Apesar disso, a experiência da fome e da pobreza que, a dada altura, levam o protagonista, despojado de quase tudo, a tentar empenhar os últimos objectos que lhe restam (no limite do dispensável) –  os óculos e os botões que arranca do casaco que enverga – poderá ser descrita como tirocínio quer para a vida prática (no sentido em que ensina ao protagonista como não deve viver, no caso de esta personagem, no futuro pós-narrativo, optar, como Rimbaud, por uma vida sem literatura), quer para a vida literária (se preferirmos ver este despojamento radical como um percurso teleológico com recompensa).


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