«I too am not a bit tamed, I too am untranslatable» (Walt Whitman) | setadespedida@yahoo.co.uk

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Forma de Vida #2




No número dois de Forma de Vida, escrevi sobre Ana Teresa Pereira a propósito do livro O Lago.



Ana Teresa Pereira. O Lago. Lisboa: Relógio d’Água, 2011.

Como explicar porque se gosta dos livros de Ana Teresa Pereira a quem nunca os leu ou, tendo lido, acha que é uma escritora repetitiva, de recursos narratológicos pouco complicados, com um português demasiado próximo da língua inglesa?

A cada novo livro se renova a surpresa de ser preciso tão pouco para convocar um universo. Não há política, não há digressões de cariz sociológico ou economicista, não há História, não há jornalismo, não há referências ao colonialismo, não há realismo mágico, não há monólogo interior em roda livre, não há futebol. Livres destas perturbações por outros exploradas até à exaustão, leitores e autora ficam com as personagens e aquilo que é importante para elas: serem quem são, fazendo o que lhes interessa.

O que se afirma a propósito do protagonista de O Lago poderia ser dito em relação a outros protagonistas dos livros de Ana Teresa Pereira: «Tom não tinha muitos amigos. Não dava grande importância à amizade, à família ou ao amor. […] Quase esquecera o rosto da mulher com quem estivera casado durante dois anos. E não havia dúvida de que fizera bem em não ter filhos. Gostava dos livros e dos cães que tinham partilhado a sua vida; de personagens e de actores.» (p. 26). Não há dispersão na vida de Tom; há concentração. Para Ana Teresa Pereira, basta reduzir as coisas ao essencial: arte, personagens/actores, acção. Estas três dimensões são inseparáveis. Não é possível conceber as personagens desta escritora a não ser por referência à arte. A arte é não só o espaço em que se movem existencial e profissionalmente, mas também o espaço de onde vêm. Sem alguns livros, filmes ou pinturas, estas personagens não seriam quem são.

Habitualmente, as personagens de Ana Teresa Pereira são artistas, mesmo quando as suas carreiras não se distinguem pelo sucesso. Em O Lago destacam-se Tom, um escritor/encenador que foi actor, e Jane, uma actriz que tinha optado inicialmente por ser bailarina, mas teve de desistir devido a uma lesão. A segunda é escolhida como protagonista da peça que o primeiro escreveu e vai encenar. Sobre a peça de Tom não nos é dito muito; o trabalho de encenação e preparação da actriz é mais importante. A peça vai sendo reescrita durante os ensaios, a a partir da interacção com os actores. Quando, vendo Jane a coxear levemente à saída do teatro, Tom se interroga se o coxear pertence à actriz ou à personagem, torna-se evidente que as fronteiras entre arte e vida não são importantes.

A indistinção actor/personagem é clara também na caracterização da figura de Tom, sempre descrito por referência a actores, personagens, peças de teatro e outros textos literários. Tom decidiu ser actor depois de ver a peça Death of A Salesman, de Arthur Miller (1949), aos onze anos. Como grande influência na sua vida, é referida a interpretação de um actor no filme de Sidney Lumet (1960) que adapta uma peça de Eugene O’Neill (1939): «A interpretação de Jason Robards em The Iceman Cometh influenciara-o muito. Como actor e como escritor. Ao longo dos anos revira inúmeras vezes o monólogo final. Robards, um piano, uma jarra de flores. Era o mais belo poema que conhecia.» (p. 61). Fisicamente, Tom recorda o actor Gabriel Byrne (p. 18), figura cara a esta escritora.

Sem arte não haveria Tom, mas é curioso notar que se para esta personagem a representação e a interpretação são tão importantes como a acção e a criação («Mas [só] quando estou a representar sou eu mesmo.», «Não há qualquer diferença entre escrever e representar.», p. 105), isso acontece porque não se distinguem destas. As personagens de Ana Teresa Pereira são quem são, fazem o que fazem, a partir de influências e participações. Criar e viver são sempre representações e interpretações.

Por via da participação de umas coisas nas outras se explica também a diluição de fronteiras que se opera quer entre personagens, quer entre personagens e autora, quer entre os interesses das personagens e da autora e elas próprias, quer entre os diferentes livros de Ana Teresa Pereira. Tanto escritora como protagonista escrevem textos sempre muito parecidos uns com os outros. Livros, escritora e personagens representam-se e reinterpretam-se a si mesmos.

Nestes livros, a referência aos mecanismos da criação não se processa por meio de digressões metaliterárias sobre o tema, mas antes pela aproximação à – ou dir-se-ia até pela participação na – figura de Deus. Pelo facto de esta figura ser imanente tanto às personagens como aos espaços em que se movem e à sua vida de todos os dias, não se trata de uma aproximação propriamente religiosa, mas existencial. Deus está presente porque tudo é como ele na medida em que cria e se recria como ele, correspondendo a criação a um modo de expressão. Para Ana Teresa Pereira, o verbo «criar» tem o sentido mais abrangente possível, devendo ser relacionado não só com actividades artísticas, mas também articulado com sentidos do contexto da Natureza: uma planta que dá flores,  um pintor a trabalhar numa tela, um actor a representar, um dia em que neva são equivalentes para Ana Teresa Pereira. Criar é ser-se o que se é. (Deus terá dito: «Eu sou Aquele que é.») Em O Rosto de Deus, outro romance desta autora com uma personagem chamada Tom, pode ler-se: «Para mim, os deuses estavam por todos os lados, nas plantas, nos animais, nos livros, nos desenhos, nas músicas, nos sonhos. E todos esses deuses eram pequenas partes de Deus, as flores que eu pintava, o meu cão, as minhas noites de amor com os meus namorados. Mesmo respirar era Deus, e as manhãs, claro, e as cores, e o crepúsculo, e o mar.» Em O Lago, a dada altura fala-se da proximidade entre Tom e Deus (p. 97).

A preparação da actriz prolonga-se fora do teatro, através da relação entre esta e o encenador, que se vai desenvolvendo numa casa que este um dia adquirira num vale «completamente fechado e longe de tudo. Como um lugar sagrado, sozinho, sem qualquer ligação com o resto do mundo» (p. 73). O trabalho em torno da peça culmina no fim do livro, quando se consuma totalmente a abolição das fronteiras entre arte e vida através da conversão ou descoberta de Jane na personagem de Tom. Este momento coincide com o fim do Inverno. Sem mais nada dentro de si a não ser as memórias da personagem e uma «missão» a cumprir (a actuação no teatro), Jane dá um passeio pela neve. Dentro de si, encontra só o conjunto de memórias baseadas em livros, filmes e quadros de que Tom dotou a personagem, as quais ao mesmo tempo se confundem com as memórias de Tom, por sua vez tão semelhantes às memórias de outras personagens de Ana Teresa Pereira:  «Memórias. Tinha de encontrar um sentido para o que estava a acontecer. Algumas imagens soltas. Uma pintura em madeira, uma madona numa árvore. Um ícone de bronze que alguém punha numa mala antes de viajar. Uma pequena árvore de fruto. Mas a árvore de fruto estava num quadro. Um teatro.» (p. 115). Neste momento, Jane é só o que vai fazer: representar.





terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Forma de Vida #1




A minha colaboração foi uma recensão do livro As Minhas Lembranças Observam-me, de Tomas Tranströmer.


Tendo em conta que o autor de uma autobiografia tem acesso privilegiado à consciência do objecto de escrita, seria de esperar que numa autobiografia houvesse mais espaço para sentimentos ou apontamentos de carácter subjectivo do que numa biografia. E, no entanto, muitos biógrafos se deixam tentar por especulações de cariz psicologista com resultados variáveis, talvez por pensarem que sem isso não obtêm um retrato completo do biografado, enquanto neste volume de prosa Tomas Tranströmer (n. 1931), prémio Nobel da literatura em 2011, conta a sua vida até à adolescência (a última data mencionada é o ano de 1948, teria o poeta 17 anos) sem grandes preocupações sentimentais e destacando elementos tão objectivos que, sem o olhar específico que os refere, poderiam ser descritos como triviais.

O título do livro – As Minhas Lembranças Observam-me – é bastante expressivo na sugestão não só da importância da especificidade do olhar, mas também do movimento de exteriorização de coisas interiores levado a cabo neste texto. Tranströmer descreve-se a partir do exterior logo desde o título, ao ponto de desligar de si o que há de mais subjectivo (as lembranças), para as situar de fora, como simples coisa concreta entre as outras através das quais se foi definindo a sua vida. Verifica-se deste modo  alguma sabotagem entre os pólos da dicotomia público/privado. O privado torna-se público através de coisas partilháveis, como, por exemplo, um professor de liceu  entrar na sala de aula com um cogumelo na mão («Pousou-o na secretária. Libertador e chocante – tínhamos vislumbrado alguma coisa da vida pessoal do Målle! Apanhava cogumelos!», p. 61). De modo semelhante, para falar de um amigo que teve na escola, Tranströmer descreve a sua família, os seus interesses e as suas colecções (p. 54).

Se há neste livro referências a sensações ou sentimentos, estas aparecem sempre subordinadas a elementos concretos e localizados. Por exemplo, no percurso que o poeta efectuava habitualmente entre casa e liceu, a recordação mais nítida é 0 surpreendente cavalo que todas as manhãs ele encontrava a comer palha de um saco pendurado ao pescoço no caminho para a escola: «Era um cavalo de tiro –  um cavalo das Ardenas – , grande, fumegante. Passava por um instante ao alcance do seu odor, e ainda hoje tenho bem viva a recordação daquele animal paciente e do cheiro que exalava no frio húmido. Um cheiro que era ao mesmo tempo sufocante e reconfortante.» (p. 54).          

Os lugares pelos quais o poeta vai passando em percursos reais ou imaginários estabelecem as coordenadas do seu retrato. Lugares como Kungsholmen, de que o narrador ouviu falar numa conversa entre vizinhos da casa ao lado, para depois ficar a saber que aí se situava o edifício da polícia (pp. 15-16), ou Eslöv, o local de onde era uma empregada da família  (pp. 15-16), a propósito do qual Tranströmer comenta: «ainda hoje sinto qualquer coisa de especial quando passo, de comboio, na estação de Eslöv. Mas nunca desembarquei nesse lugar mágico.» Do mesmo modo, na relação especial entre o poeta e o Museu de História Natural, uma das recordações mais nítidas é das caminhadas para o edifício «sempre com vento, sempre com o nariz a pingar e os olhos a lacrimejar» (p. 23).

Com a importância do espaço neste relato articula-se directamente o interesse do autor por geografia, reflectido nas suas leituras e actividades da infância e adolescência, designadamente o Verão que dedica a expedições imaginárias em África usando um mapa para se orientar (p. 49).

            Um dos lugares mais importantes na geografia do jovem Tranströmer era sem dúvida a biblioteca de um centro cívico em que também se situava uma piscina. A importância deste local é descrita de duas maneiras. Por um lado, através das aventuras e desventuras do jovem poeta entre as secções de adultos e de crianças e das estratégias usadas com o objectivo de requisitar os livros desejados, geralmente relacionados com zoologia e geografia, e de superar estas fronteiras guardadas ferozmente pelas funcionárias. Por outro lado, a associação entre biblioteca e piscina, além de distinguir esta biblioteca (por oposição à biblioteca central de Sveavägen, «onde o ambiente era mais sombrio e o ar era parado, sem vapores de cloro, sem o eco das vozes. O cheiro dos livros também era diferente e fazia dores de cabeça.», p. 48), recria de forma sensorial extremamente sugestiva a riqueza de evocações contida neste espaço:  «Logo à entrada se sentiam os vapores da piscina e o cheiro a cloro que vinha dos respiradouros, e ouvia-se o eco das vozes lá dentro. Todas as instalações de banhos têm uma acústica magnífica.» (p. 46). Baseando-se em elementos olfactivos e sonoros, a descrição é objectiva e concreta. A proximidade entre biblioteca e piscina parece, no entanto, dar vozes aos livros e intensificar o seu odor através do cloro.

O interesse do escritor por museus e por colecções relaciona-se com esta preferência pelo concreto e pela geografia. Não só a identidade dos museus e das colecções depende do ordenamento de um espaço, como tanto nos museus como nas colecções os objectos são sempre representantes de alguma coisa (de uma experiência, de uma espécie animal, botânica ou mineral, de um período artístico, de um autor, de uma civilização), contendo em si um conjunto de evocações e ecos comparáveis aos das bibliotecas e piscinas povoadas. Quando fala da sua colecção de insectos, o autor sublinha esta riqueza evocativa: «Tinha começado a fazer uma colecção. As minhas colecções cabiam num armário lá em casa. Mas dentro da minha cabeça crescia um museu imenso e entre este museu de fantasia e o museu verdadeiro […] estabeleceu-se uma relação.» (pp. 22-23). O museu verdadeiro é indissociável do museu de fantasia, tal como os objectos das colecções e dos museus são inseparáveis daquilo em que fazem pensar.

Da entrada do Museu de História Natural, Tranströmer  recorda os dois esqueletos de elefante tanto como guardiões da vida exposta nesse espaço como enquanto mensageiros da morte e dos episódios de angústia e de pânico vividos pelo poeta no Inverno em que tinha 15 anos («[t]alvez a minha experiência mais importante», p. 69). Torna-se claro que as próprias colecções de insectos do autor podem ser vistas como intimações de mortalidade: «Desse mundo, eu capturava a mais ínfima fracção de uma ínfima fracção, que depois pregava nas caixas que ainda hoje guardo. Um minimuseu escondido, de que raramente me lembro. Mas eles lá estão, os insectos. Como que à espera da sua hora.» (pp. 25-26).

Quando Tranströmer tem à volta de 15 anos, os interesses artísticos ocupam o espaço da entomologia e das colecções, de algum modo funcionando como prolongamento natural destes. Com a consciência de que tanto a vida como a morte se inscrevem de modo inescapável no concreto (dos museus, das colecções, da geografia, da vida) se articulará a actividade poética do autor nos anos que este volume já não abrange.




quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

2012 em livros

Como de costume, publico aqui listas de algumas das coisas de que mais gostei este ano
Escrevi «livros» ali em cima mas esta é uma lista de ficção. Em 2012 li uma quantidade inaudita de ensaios, alguns excelentes, outros nem por isso. No entanto, visto que todos se relacionam com caprichos académicos, desta vez prefiro poupar os incautos leitores às minhas apreciações.

Por simples curiosidade ociosa, estive a fazer contas em relação aos últimos cinco anos e tenho lido em média entre 40 a 50 livros de ficção anualmente. Acho que o meu hábito de ler ficção antes de adormecer mesmo quando passei o dia a ler outro tipo de livro ajuda a explicar esta regularidade de resultados.
Este ano, apesar de só destacar seis romances, o número de livros lidos manteve-se. Fico, contudo, com a impressão de que  houve períodos anteriores em que gostei mais do que li, talvez por ter investido mais tempo na selecção.

Habitualmente  não presto muita atenção a saídas recentes em Portugal nem organizo as minhas leituras de acordo com esse ritmo.  Em 2013, no entanto, espero ler mais ficção portuguesa recente. Fica aqui este pedaço de wishful thinking.
 
 

Annie John, de Jamaica Kincaid

Em 2012 li mais livros escritos por Jamaica Kincaid, mas o livro dela de que mais gostei foi lido no ano passado, apesar de não ter aparecido na lista. Não esqueci o primeiro capítulo de Annie John desde que o ouvi num dos muito recomendáveis podcasts de ficção da revista New Yorker. (Para quem não conhece, nestas emissões de periodicidade mensal, um escritor é convidado a escolher um conto do arquivo da revista para ler em voz alta. Não só os textos costumam ser muito bons como a própria conversa que antecede e segue a leitura tem interesse.)
Louise Erdrich disse uma vez que sempre que lê Virginia Woolf repara no esforço que esta escritora faz, por uma questão de educação e de delicadeza, para não soar muito zangada apesar do ressentimento mal contido que é possível perceber nas suas palavras. Neste aspecto, Jamaica Kincaid está no extremo oposto de Virginia Woolf. Não só expressa sem pudor toda a fúria que mesmo as situações mais comezinhas suscitam às suas personagens, como usa esse sentimento para iluminar a narrativa com uma estranheza que torna tudo mais curioso.


 
 
Great House, de Nicole Krauss
 
É intrigante como um livro tão sugestivo do ponto de vista visual ainda não teve direito a uma única capa bonita. Reparei neste romance da nova-iorquina Nicole Strauss por acaso na Fnac. Muito bem escrito, surpreendentemente complexo, tem a ver com a relação entre a identidade pessoal e os objectos que cada um vai usando ao longo da vida. A profissão de uma das personagens consiste em recuperar objectos que as pessoas um dia perderam.
Li depois o mais conhecido The History of Love, mas não achei tão bom.
 




An Artist of the Floating World, de Kazuo Ishiguro

Em geral, não simpatizo com narradores pouco dignos de confiança (vulgo «unreliable narrators»), mas neste romance a supressão de informação pode ser entendida como uma das manifestações da melancolia da personagem principal. O narrador não consegue articular toda a verdade de que mais ou menos vamos suspeitando.



Crusoe’s Daughter, de Jane Gardam

A história conta-se facilmente: trata-se das aventuras e desventuras, desde a infância até à idade adulta, de uma personagem feminina que procura sobreviver usando como guia as estratégias do protagonista do seu livro preferido (Robinson Crusoe). Neste percurso obtém resultados irregulares.
Gostei principalmente das personagens das tias da protagonistas, tão desfasadas do mundo como todas as personagens realmente dignas de lembrança.


 
Open City, de Teju Cole
 
Decidi comprar este romance por ter lido que assentava na narrativa dos passeios do protagonista por Nova Iorque. Estes passeios e as meditações que desencadeiam têm, no entanto, uma pulsão a que vou chamar «sebaldiana» não só por saber que Teju Cole admira Sebald, mas também devido à preocupação com o que, porque se perdeu para sempre (grupos de pessoas que foram objecto de violência), tem de ser imaginado porque nunca poderá ser conhecido completamente de modo objectivo.
 


 
 

Barnaby Rudge, de Charles Dickens

O meu décimo romance de Dickens. Apesar de não ser dos livros mais conhecidos do autor, passou a fazer parte do grupo dos meus preferidos, com Bleak House, Great Expectations, A Tale of Two Cities e Our Mutual Friend. Em Barnaby Rudge, gostei sobretudo da invulgaridade das personagens, das descrições da taberna Maypole e da preparação e do rescaldo dos tumultos em Londres.
Por outro lado, não consigo gostar nem de Hard Times nem de David Copperfield, dois dos romances mais valorizados e estudados do escritor.
 


 
 

Livros que ficaram aquém das expectativas




The Marriage Plot, de Jeffrey Eugenides
The Chemistry of Tears, de Peter Carey
Bomarzo, de Manuel Mujica Láinez


Três casos de boas ideias que correram mal. Nos três exemplos achei extremamente irritante o tom infantilóide dos narradores. Quanto a Bomarzo especificamente, não há paciência para romances supostamente históricos, porém narrados em tom contemporâneo, sem qualquer noção do espírito da época, quer por opção consciente do autor, quer por incapacidade deste. Não vou dizer nada sobre Peter Carey.
 
 
 

Filmes em 2012

CIRCUITO COMERCIAL
The Girl with the Dragon Tattoo, David Fincher
Le Havre, Kaurismaki
Tabu, Miguel Gomes
Era uma vez na Anatólia, Nuri Bilge Ceylan
Cosmopolis, David Cronenberg
Moonrise Kingdom, Wes Anderson
O Gebo e a Sombra, Manoel de Oliveira

DVD
Le père de mes enfants, Mia Hansen-Love
Beginners, Mike Mills
Ghost Writer, Roman Polanski
Man on Wire, James Marsh
Un étrange voyage, Alain Cavalier
A Toupeira, Tomas Alfredson
Sou um Autárquico, Nanni Moretti
The Shape of Things, Neil Labute
O Americano, Anton Corbijn

CINEMATECA, FESTIVAIS, ETC.
Mercado de Futuros, Mercedes Alvarez
Mekong Hotel, Apitchapong
El Sur, Victor Erice


Desde que vivo em Lisboa, este foi o ano em que menos vezes fui à Cinemateca. Isto deve-se sem dúvida à minha preguiça e falta de organização, ambas crescentes, mas também ao facto de a programação deste ano ter sido menos diversificada por causa dos problemas de financiamento que todos conhecemos.
 

Provavelmente por motivos relacionados, 2012 talvez tenha sido o ano em que vi mais DVDs. Aproveitei para ver algumas coisas que tinha perdido em sala noutros anos. Por coincidência ou talvez não, vi e gostei muito de vários filmes em que as personagens estão de algum modo envolvidas numa investigação, como The Ghost Writer, de Polanski, A Toupeira, de Tomas Alfredson, Man on Wire, de James Marsh ou Un étrange voyage, de Alain Cavalier. Associo a estes o filme The Girl with the Dragon Tattoo, de David Fincher. Nestes filmes gostei principalmente da presença de papéis e papelada provavelmente com uma fina película de pó, conversas breves, frustrações triviais, écrans cheios de informação, solidão desesperada em interiores opressivos e passeios ou investidas em paisagens inóspitas – no fundo, o quotidiano de qualquer investigador.





 

Dos filmes que vi em DVD, destaco ainda Le Père de Mes Enfants, o meu filme preferido de Mia Hansen-Love até agora. (Devo dizer, aliás, que fiquei muito contente quando vi a realizadora nesta lista um tanto desequilibrada do Guardian: The 23 best film directors in the world today.)
 




Quanto aos filmes vistos em sala, os meus favoritos, além do de David Fincher, foram, sem dúvida alguma, Le Havre, de Kaurismaki e Moonrise Kingdom, de Wes Anderson. Não sou a maior fã de Wes Anderson (além deste filme, só gostei de The Life Aquatic with Steve Zissou), mas Moonrise Kingdom conquistou-me completamente devido à capacidade de criação de um universo próprio com personagens providas de alguma espessura, em vez de ser só um divertimento decorativo. Em Le Havre gostei da exploração da possibilidade de não acontecerem só coisas más.




Por último, dois casos absolutamente singulares no cinema: Apitchapong e Victor Erice.

Em Mekong Hotel Apitchapong continua a explorar o tempo, ampliando-o de modo brutal, entre o real, o imaginado (do filme que se está a preparar) e as diversas encarnações das personagens e dos actores. Com efeito, a invulgaridade do trabalho sobre o tempo é uma das características que torna O Tio Boonmee tão especial. Apesar de em geral encarar filmes muito longos com alguma resistência, vi os 114 minutos deste filme sem olhar para o relógio uma única vez. (A propósito, em Tabu, de Miguel Gomes, também encontramos uma perspectiva temporal única, esta mais relacionada com a memória.)


Quanto a El Sur, de Victor Erice, acho que é um filme sobre sobre o grande mistério que é a vida dos nossos pais, durante muito tempo as pessoas mais importantes na nossa vida.





Para terminar, o filme mais insuportável do ano: O Cavalo de Turim, de Béla Tarr. A banda sonora epico-apocalíptica expõe o conflito insanável entre a intenção exibicionista de fazer um filme sobre coisas e pessoas simples e pobres, por um lado,  e a ambição autoconsciente de realizar aquilo que se imagina ser uma «obra-prima cinematográfica», por outro. É como tentar fazer Bresson à maneira de Spielberg.  


Nota final: ainda não tive oportunidade de ver o filme Amour, de Michael Haneke, e provavelmente só terei disponibilidade para isso depois do fim do ano. Nesse caso, será tomado em consideração nas listas de 2013. O mesmo é válido para outros filmes que estrearão ainda em 2012, como Holy Motors, que aguardo com expectativa.

Outras coisas em 2012

Como um ano não se faz só de livros e filmes, deixo aqui uma última lista de coisas que me fizeram feliz em 2012, ainda que algumas não sejam exclusivas deste ano.
 
 


 

- chá branco com alperce e flor de sabugueiro da London Tea Company quando se chega  a casa exausto a meio da tarde e English Breakfast tea para começar bem o dia;


 
 
- os XX, principalmente o primeiro álbum (que só descobri este ano);
 
- os Greatest Hits dos Fleetwood Mac [Dreams, Gypsy, Sara, Big Love, Seven Wonders, Little Lies] quando se tem de escrever;
 



- as imagens e palavras destes blogues:

Leslie Williamson (vide imagem);


 
- Roz Chast;

 
- Maira Kalman;
 


 
 
- as temporadas das séries Mad Men, Bones, Californication e Big-Bang Theory que passaram na RTP2;
- o programa Eureka ( RTP2), o programa Portugueses pelo Mundo (RTP1);
 
 
- uma conversa ao telemóvel sobre priolos ouvida por acaso no Alfa pendular;

Madeline von Foerster
 
- etiquetas e caixas transparentes com subdivisões;
 


 
- esta menina vista no Louvre em Agosto.

 
 
 

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

2011 em filmes


CIRCUITO COMERCIAL
Another Year, Mike Leigh
Tio Boonmee, Apitchapong
O Estranho Caso de Angélica, Manoel de Oliveira
Tournée, Mathieu Amalric
Meek’s Cutoff, Kelly Reichardt
Pater, Alain Cavalier
Habemus Papam, Nanni Moretti
Pina, Wim Wenders
Filme Socialismo, Godard

DVD
Orphans of the Storm, Griffith
Cléo de 5 à 7, Agnès Varda
Drowning by Numbers, Peter Greenaway
Quatrocentos Golpes, François Truffaut

CINEMATECA, FESTIVAIS, ETC.
Words and Silk, P. Tyndall
Du côté d’Orouet, Jacques Rozier
Francesco Giullare di Rio, Rossellini
Man Hunt, Fritz Lang
Vou para Casa, Manoel de Oliveira
Old Joy, Kelly Reichardt
Mysterious Object at Noon, Apitchapong
Un Amour de Jeunesse, Mia Hansen-Love
Street Angel, Frank Borzage

 
Em 2011, com a excepção do mês de Agosto, sempre que tive vontade de ir ao cinema havia coisas relativamente interessantes para ver.


Para mim, Apitchapong, Manoel de Oliveira e Kelly Reichardt são os três realizadores que se destacam. Dos três vi um filme novo (Tio Boonmee, O Estranho Caso de Angélica, Meek's Cutoff) e um filme antigo (Mysterious Object at Noon, Vou para Casa, Old Joy) que teriam redimido o meu ano de cinema mesmo que não tivesse visto mais nada interessante.

Uma nota sobre a realizadora Mia Hansen-Love. Depois de ver Un Amour de Jeunesse compreendi melhor e comecei a gostar de Tout est pardonné, que inicialmente me tinha deixado sentimentos muito ambíguos. Em ambos os filmes as personagens têm atitudes irracionais e uma visão do mundo difícil de compreender, mas parece-me que isso pode ser descrito simplesmente como aprender a viver.

Enquanto o filme mais recente de Godard puder estrear nas salas de cinema portuguesas, nem tudo estará ainda perdido. Assim como na dicotomia Jane Eyre-Wuthering Heights, admiro o segundo título incondicionalmente mas estou mais próxima do primeiro, também na dicotomia Godard-Truffaut (explorada pelo filme Deux de la Vague, de Emmanuel Laurent, igualmente estreado este ano), apoio a inteligência e a radicalidade do primeiro sem restrições, embora reconheça que os filmes do segundo estão mais perto.

Dois filmes amados por muita gente mas detestados por mim: Tree of Life, de Terrence Malick, e Road to Nowhere, de Monte Hellman. Tenciono rever o segundo para testar a minha opinião, mas ninguém conte comigo para mudar de ideias sobre o primeiro.

Um filme subvalorizado pela crítica: The Girlfriend Experience, de Steven Soderbergh.

Dois filmes que demonstram que ainda há esperança (concordo com o que o Luís Miguel Oliveira diz aqui): Sleepless Nights Stories, de Jonas Mekas, e First Cinema Experience, de Peter von Bagh.

Gostava de ter visto e não vi: Aurora, de Cristi Pui.

2011 em livros

2010 e 2011 foram anos em que estive muito ocupada. Isso foi excelente, ainda que com a consequência de hoje o animus ser de exaustão.

Uma grande parte da segunda metade de 2011 foi passada a planear e preparar leituras de ensaios para 2012, mas na primeira metade houve algum tempo para a ficção.

Entre as minhas leituras de ficção, destaco três autoras maravilhosas a que ainda não tinha prestado a devida atenção: Rebecca West, Elizabeth Bowen e Shirley Hazzard.

Durante o ano, a Páscoa foi um das épocas mais agradáveis, com uma viagem de comboio a Madrid na companhia do primeiro volume das crónicas de Bénard da Costa. (A profusão de gralhas e erros não arruinou o prazer da leitura, mas, editoras do meu país, mais cuidado com a revisão.)

Por incrível que pareça, nunca tinha lido nada de Saul Bellow. Além de Seize the Day, em 2011 li The Adventures of Augie March e praparo-me para ler Herzog. Não se fala tanto de Bellow como se devia.

Assinalo ainda a descoberta de um grande e estranho escritor argentino (César Aira) e a conclusão da leitura de uma selecção de excertos dos diários de Virginia Woolf, iniciada há anos. Gosto de ler diários. Parece-me inclusivamente que Virginia Woolf se liberta nestes textos da compulsão de «escrever bem» que caracteriza muitos dos seus romances -- e só ganha com isso.








Depois de acabar Virginia Woolf, passei para os diários de Thoreau, leitura que no futuro certamente figurará numa lista de final do ano deste blogue.

Cartas de jogar

Four game cards from a Cavagnole Game Bag and Pieces (Jeu de cavagnole, c. 1750)


«Everyone was like the faces on a playing card, upside down either way.»


Saul Bellow, Seize the Day

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

2010 em filmes






CIRCUITO COMERCIAL
Bright Star, Jane Campion
Shutter Island, Martin Scorsese
Um Homem Sério, Irmãos Coen
Ruínas, Manuel Mozos
Eu Sou o Amor, Luca Guadagnino
Vão-me Buscar Alecrim, Irmãos Safdie
Inception, Christopher Nolan
A Dança, Frederick Wiseman
Irène, Alain Cavalier
Não, Minha Filha, Tu Não Vais Dançar, Christophe Honoré
36 Vues du Pic Saint Loup, Rivette

DVD
The Match Factory Girl, Kaurismaki
Faca na Água, Polanski
Sombras de Antepassados Esquecidos, Paradjanov
Zellig, Woody Allen
Interiors, Woody Allen
Another Woman, Woody Allen
Ghost Dog, Jim Jarmusch

CINEMATECA, FESTIVAIS, ETC.
Les Cinéphiles, Skorecki
Kasaba, Nuri Bilge Ceylan
Toutes les nuits/Le Pont des Arts, Eugène Green
Badlands, Terrence Malick
Stranger than Paradise, Jim Jarmusch
Coitado do Jorge, Jorge Silva Melo

Alguns comentários sobre a lista


O lugar mais perigoso: o palco

A ordem dos filmes é arbitrária. Aqueles de que mais gostei aparecem nas imagens.

Em 2010, felizmente, vi mais filmes em DVD do que no ano anterior. Estou a comprar e a rever os filmes de Woody Allen, um dos meus realizadores preferidos de sempre. O mesmo em relação a Jim Jarmusch.

Por outro lado, quanto a festivais, a coisa andou muito mal. Em Lisboa parece não valer a pena tentar comprar bilhetes no próprio dia em que os filmes passam. A vida não corre bem aos que não têm tempo para analisar a programação antecipadamente.

A grande descoberta que fiz este ano foi Eugène Green, graças à Cinemateca. (Estupidamente, no entanto, não vi A Religiosa Portuguesa. Quando percebi, já não estava em exibição.)

Não entendo por que razão Jorge Silva Melo não realiza mais filmes. Gosto mesmo muito de Agosto (o único filme que conheço com uma personagem com o meu nome) e de Coitado do Jorge.

Entre os filmes que passaram em circuito comercial, os meus preferidos foram Não, Minha Filha, Tu Não Vais Dançar, de Christophe Honoré e 36 Vues du Pic Saint Loup, de Jacques Rivette. O primeiro por ter uma personagem feminina como há muito não via no cinema, o segundo por me falar ao coração (expressão idiota, bem sei, mas neste caso foi mesmo assim, pelo que não há nada a fazer).

Os filmes que mais me desiludiram foram Greenberg, de Noah Baumbach e Noite e Dia, de Hong Sang-Soo (não consegui ultrapassar a antipatia que os protagonistas me suscitaram), além de O Laço Branco, de Michael Haneke, que achei explicativo e manipulador.

Vi e gostei de A Rede Social, de David Fincher, mas menos que dos filmes que aparecem na lista. Não detestei Cópia Certificada, mas pareceu-me o pior dos filmes de Kiarostami que conheço, uma mistura de Cenas da Vida Conjugal e Depois do Ensaio, de Ingmar Bergman.

Não encontro em lado nenhum uma caixa de filmes da Jane Campion, mas se encontrasse comprava. Para quando um ciclo na Cinemateca dedicado a mulheres que, against all odds, realizaram filmes?

De resto, Éric Rohmer para sempre.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

2010 em livros





Apesar de o meu 2010 ter sido um ano sem disponibilidade para actualizar blogue, não foi um ano sem leitura.

Continuei a interessar-me mais por livros escritos por mulheres.
Comecei o ano com as Collected Stories de Lydia Davies, de que gostei bastante.
Descobri a finlandesa Tove Jansson, de quem li tudo o que encontrei traduzido em inglês (The True Deceiver, A Winter Book, The Summer Book, Fair Play, Travelling Light) menos os livros para crianças. Penso que nunca foi publicada em Portugal, mas recomendo vivamente.
Li romances e contos excelentes de Janet Frame.
Tornei-me fã indefectível de Shirley Jackson. Mesmo quando as suas narrativas se desenrolam no quotidiano, são histórias de terror. Apesar disso, é impossível não nos identificarmos com as protagonistas. We Have Always Lived in the Castle foi publicado recentemente em português. Se calhar gostei ainda mais de The Haunting of Hill House e dos contos de The Lottery and Other Stories.
Deliciei-me com The Pattern in the Carpet, de Margaret Drabble. Gosto cada vez mais deste registo memorialístico.
Li dois romances bastante overwritten de Paula Fox (avó de Courtney Love), de que ainda assim gostei muito.
Entre outras coisas, li também o Wolf Hall, da Hilary Mantel, mas com tantas expectivas que só poderia ficar desiludida. Li A Terra das Ameixas Verdes, de Herta Müller, mas não me impressionou ao ponto de desejar ler mais coisas da autora.

Mais uma vez, não li muitas coisas em português.
Gostei muito de dois livros de poesia: O Viajante Sem Sono, de José Tolentino de Mendonça, e Mãe-do-Fogo, de João Miguel Fernandes Jorge.
Li do princípio ao fim Ó, de Nuno Ramos, que achei bastante interessante (no sentido em que faz pensar sobre diversos assuntos), mas nem sempre me convenceu plenamente.

Entre os livros que li por motivos profissionais, destaco:
- Ao Cair da Noite, de Michael Cunningham, um dos melhores romances que li este ano (a cena do confronto com o tubarão de Damien Hirst é inesquecível);
- Parrot e Olivier na América, de Peter Carey, embora longe dos meus romances preferidos do autor, vale a pena ler;
- Nova História da Filosofia Ocidental, de Anthony Kenny, uma história da filosofia em quatro volumes.

No panorama editorial português saúdo a reedição da obra de Maria Judite Carvalho pela Babel.

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