«I too am not a bit tamed, I too am untranslatable» (Walt Whitman) | setadespedida@yahoo.co.uk

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Rebecca Solnit



Aproveitando a saída em português do livro The Faraway Nearby (publicado pela Quetzal com o título Esta Distante Proximidade) para homenagear modestamente a ensaísta Rebecca Solnit, escrevi sobre um livro mais antigo, mas de que gosto muito, intitulado A Field Guide to Getting Lost.

Para um excelente ensaio de Rebecca Solnit, publicado no número de Outubro deste ano da Harper’s Magazine: The Mother of All Questions.
(Nota: o texto pode ser lido na íntegra, mas tem de se clicar página por página.)

 
Rebecca Solnit. 2006. A Field Guide to Getting Lost. Edimburgo e Londres: Canongate.


 

Na primeira secção de A Field Guide to Getting Lost, Rebecca Solnit revela que o ponto de partida deste livro foi uma citação descontextualizada do diálogo Ménon, de Platão, que uma aluna trouxe um dia para um workshop. Nesta citação perguntava-se: «How will you go about finding that thing the nature of which is totally unknown to you?» (p. 4). Como procurar o que desconhecemos totalmente ao ponto de não dispormos sequer dos meios para o identificar? De acordo com Rebecca Solnit, é importante responder a esta pergunta porque aquilo que desconhecemos totalmente pode ser precisamente o que mais falta faz descobrir. Na estação em que a Quetzal publica em português o livro The Faraway Nearby (ver recensão de Maria Rita Furtado nesta secção), recuperamos um livro anterior de Rebecca Solnit.

 
O que Solnit diz sobre os tópicos que aborda em A Field Guide to Getting Lost (do azul nas telas de alguns pintores do Renascimento, a Yves Klein, passando por Vertigo, de Hitchcok, entre mais histórias de pessoas perdidas e reencontradas) parece menos importante do que aquilo que a partir destes assuntos sugere. Este livro progride numa corrente subterrânea de reflexões que, através de repetições, formulações deceptivamente light e reformulações ou recuperações discretas, vão construindo em acto, de modo indirecto e musical, um argumento acerca da própria actividade de escrever um ensaio.
 
Para descobrir o que faz mais falta, Solnit propõe que, tal como ela, aceitemos ou encontrarmo-nos depois de nos termos perdido ou encontrarmos o que foi perdido. Ainda que nunca referindo directamente o poema «One Art» (salvo minha distracção), A Field Guide to Getting Lost parece companheiro do famoso texto em que Elizabeth Bishop recomenda ironicamente: «Lose something every day.» Enquanto o poema de Bishop corresponde a uma prestidigitação irónica para lidar com a dor da perda, aliada a uma incitação apócrifa à vida minimalista, o livro de Solnit, ainda que partindo da mesma constatação de que a natureza das coisas e das pessoas é perder-se («It’s in the nature of things to be lost and not otherwise», p. 185), tenta explorar as possibilidades quer da perda quer da situação de estar perdido.

 



Estar perdido, em A Field Guide to Getting Lost, assume duas acepções principais (pp. 22-33). 1) Uma pessoa pode perder-se num contexto desconhecido, tendo necessidade de prestar atenção a tudo para obter algum tipo de conhecimento e de orientação, como no caso dos navegadores que acharam terras ainda não cartografadas, com plantas, animais, pessoas,  objectos e até conceitos para os quais não tinham sequer vocabulário a que recorrer para organizar as novas percepções. 2) Uma história, um objecto, um percurso, uma memória podem desaparecer, deixando as pessoas (a que pertenciam ou não) num contexto em que tudo é familiar menos a ausência do que se perdeu.

 
Porque se relaciona com a memória, o segundo tipo de ausência deve ser descrito através de graus. É possível recordar o que se perdeu durante algum tempo com maior ou menor pesar. O que se perdeu pode igualmente ser esquecido aos poucos, até se desvanecer. Mesmo quando tudo indica que foi totalmente esquecido pelo proprietário, pelos intervenientes, pelas testemunhas, mesmo que até estas tenham desaparecido, há a possibilidade de (o objecto, a história, o percurso) reaparecer. A este caso pertencem situações em que são redescobertos elementos do passado de uma paisagem ou de um contexto: histórias sobre acontecimentos que ali tiveram lugar ou funções desempenhadas nesse espaço, cemitérios esquecidos, rios subterrâneos, pessoas que ali passaram ou moraram.

 
Perder-se, perder coisas, encontrar coisas perdidas, esquecidas ou subterrâneas, na medida em que correspondem a situações que convocam a maior atenção, funcionam como descrições da escrita de ensaio. À semelhança das pessoas que perderam coisas, também os ensaístas se encontram frequentemente num contexto familiar em que se destaca uma ausência por vezes dificilmente perceptível, mas que é preciso explorar. À semelhança das pessoas que se perderam, os ensaístas dão por si num território desconhecido em que se vêem obrigados a adquirir ou forjar novo vocabulário ou novas ferramentas para se poderem orientar.

 
Como Solnit sugere noutro dos seus livros (Wanderlust: A History of Walking) quando se refere à sua própria motivação para escrever, redige-se um ensaio para abrir um caminho novo através da imaginação ou chamar a atenção para elementos impensados num percurso supostamente  familiar.

 
Num dos passos mais importantes de A Field Guide to Getting Lost, Solnit descreve a escrita de ensaio ou de não-ficção por oposição à escrita de ficção:  «Nonfiction seems to me photographic; it poses the same challenge of finding form and pattern in the stuff already out there and the same ethical obligations to the subject. Fiction like painting lets you start with a blank canvas […] (In essays, ideas are the protagonists, and they often develop much like characters down to the surprise denouement.)» (p. 144). Enquanto o autor de ficção pode começar do nada se assim o desejar, fabricando personagens, contextos e situações, cabe ao autor de não-ficção ou ao ensaísta, à semelhança do que se verifica na actividade de um fotógrafo, encontrar formas e padrões no que existe, desenvolvendo ideias como o autor de ficção desenvolve personagens. As ideias são as personagens do ensaísta.

 
A propósito da beleza, Solnit observa o seguinte: «Beauty is often spoken of as though it only stirs lust or admiration, but the most beautiful people are so in a way that makes them look like destiny or fate or meaning, the heroes of a remarkable story. Desire for them is in part a desire for a noble destiny, and beauty can seem like a door to meaning as well as to pleasure.» (p. 96). Também este passo sobre a beleza se aplica à arte do ensaio. Assim como a beleza de alguém pode ser associada à sua capacidade de ser protagonista do próprio destino, escrever um ensaio, uma actividade de captação da beleza segundo Solnit, corresponde a identificar os protagonistas de determinado assunto, revelando o destino ou as relações de significado perdidas dos assuntos estudados. Cabe-nos a nós, enquanto autores ou leitores de ensaios, decidirmos que assuntos se tornarão os protagonistas da nossa vida.

 
É uma questão de movimento e de atenção, dois dos tópicos mais importantes nos livros da ensaísta e activista Rebecca Solnit. Como se verifica noutros livros desta autora, por vezes os protagonistas que com mais clareza ajudam a explicar determinada questão são inesperados e é preciso muita atenção para não os deixar escapar. Neste e noutros livros, o mais valioso do trabalho de Solnit reside na atenção ao que outros ignoram ou deixam passar.
 






 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O Cinéfilo Preguiçoso em Setembro




 

28.9.2015 As Mil e Uma Noites: Volume 2, O Desolado (real. Miguel Gomes, 2015)

21.9.2015 Irrational Man (real. Woody Allen, 2015)

14.9.2015 The Day He Arrives (real. Hong Sang-Soo, 2011)

 
7.9.2015 Metamorfoses e As Mil e Uma Noites: Volume 1, O Inquieto (real. Christophe Honoré, 2014; real. Miguel Gomes, 2015)




 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Quartos Alugados



Para um texto realmente interessante sobre Quartos Alugados, ler o excelente prefácio da Cristina. Como, no entanto, acredito que só somos felizes se pudermos expressar e partilhar o nosso interesse pelas pessoas e coisas importantes para nós, também quero dizer umas palavrinhas sobre o livro, apontando para as características que me parecem mais invulgares. (Outros valorizarão elementos diferentes.)


Quartos Alugados é um livro que se distingue por ter uma voz narrativa absolutamente única.


Reúne nove contos, escritos num português belíssimo, sem rodriguinhos estilísticos e gramaticais supostamente originais ou idiossincráticos.


Como o próprio autor salientou no lançamento do Porto, a noção de «quarto alugado» deve ser relacionada com personagens numa fase de transição: aluga-se um quarto porque ainda não se pode ter uma casa. Estes contos situam-se em lugares de passagem. As palavras e as acções destas personagens poderiam ser descritos como ensaios e tentativas pouco conseguidas de quem está a aprender a viver.



Uma característica marcante do livro, se calhar aquela que mais suscita a perplexidade e a surpresa do leitor, é o fraco investimento na psicologia das personagens. Não se pode sequer dizer que as acções das personagens manifestam ou concretizam a psicologia destas. As acções parecem cumprir rituais estranhos, realizados para permitir que os protagonistas de algum modo se inscrevam na existência, apesar da leveza e da indefinição que os caracterizam. Por exemplo, no conto «Rua da Velha Lanterna», um dos meus textos preferidos deste volume, o protagonista, deambulando por Paris, leva a cabo uma estranha missão que consiste em desenhar cuidadosamente os lugares em que cinco escritores se suicidaram, e depois, disfarçado de cego, inserir estas cinco imagens entre as páginas de livros de bibliotecas. Cumprida a missão, o protagonista deixa Paris. Não se sabe o que aconteceu antes nem o que acontecerá depois.



As próprias trocas linguísticas que testemunhamos nestes textos se reduzem a fórmulas enunciadas apenas para que a conversa e a vida possam  progredir. Expressões que ouvimos todos os dias por acaso, em conversas ao telemóvel, na rua ou no metro, registadas nestas páginas, exibem toda a sua estranheza ou vacuidade.


Podemos sugerir que estas narrativas se desenrolam um pouco antes do sentido – de tal modo se baseiam na observação e no inventário meticuloso do que é meramente exterior. Gera-se um contraste intrigante entre a insignificância aparente do que está em jogo e o cuidado com que é registado. A cinefilia do autor manifesta-se claramente nesta atenção intensa à superfície das coisas.


Descrevendo a cinematografia de Rohmer, Pascal Bonitzer refere duas noções quase contrastantes: «uma atmosfera de paranóia vaga» e «a ameaça do nada». Em termos simples, a paranóia expressa-se através da atribuição excessiva de sentido a gestos, acções ou acasos. Muitas personagens de Rohmer são absorvidas por interpretações complexas de situações que acabam por revelar-se menos decisivas do que inicialmente pareciam. De acordo com Bonitzer, a obsessão interpretativa das personagens rohmerianas é uma forma de estas responderem à «ameaça do nada» que paira sobre as suas existências: se certos actos tiverem sentido, então há alguma coisa em vez de nada. Por sua vez, os textos de Alexandre Andrade enfrentam directamente a mesma ameaça, mas sem qualquer álibi paranóico. Nestes textos há mais contemplação do que interpretação. O sentido, se existir, virá depois – tanto na vida dos protagonistas, como na vida do leitor.



Talvez o traço distintivo mais importante de um escritor seja persistir em escrever numa voz singular, mesmo que esta seja praticamente inaudível no contexto da barulheira ensurdecedora dos lugares-comuns que nos acossa a todos. É isso que este autor faz todos os dias.


 

 

Surpresas da campanha



Antes do lançamento do livro na Biblioteca Almeida Garrett, lina & nando espalharam pelas redondezas estes cartazes. (Aqui temos uma imagem na Rua Júlio Dinis, com um percurso que eu própria fiz diariamente durante vários anos para ir trabalhar.)


Além de explorar a ligação do título Quartos Alugados com as actividades das agências e dos proprietários de imobiliário, o cartaz incluía frases dos contos com descrições dos quartos ocupados pelas personagens. O transeunte que se aproximasse podia destacar estas citações como quem destaca um número de contacto.


Coisas que só acontecem no Porto.

 

 

Cartaz completo




Ora aqui estão as citações.


Avesso



Quartos Alugados é o segundo volume publicado da Colecção Avesso, coordenada pelo Rui Amaral para a editora Exclamação.


O primeiro volume desta colecção é Notícias em Três Linhas, de Félix Fénéon, com tradução do Manuel Resende. Como fiquei ligeiramente horrorizada quando me revelaram o baixo número de vendas deste primeiro volume, deixo aqui também a referência, porque merece muito mais atenção das pessoas que compram e lêem livros.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

No próximo sábado



Já desejei muitas vezes que houvesse para cada pessoa um número limitado de viagens possíveis entre Lisboa e Porto. Cumprido esse número, as pessoas teriam de ficar na cidade onde no momento se encontrassem, sem qualquer possibilidade de mais viagens para a frente e para trás.
Alimento a esperança secreta de estar no Porto quando o meu número chegar ao fim.




segunda-feira, 27 de julho de 2015

O Cinéfilo Preguiçoso em Julho




27.7.2015 A Essência do Amor (real. Terrence Malick, 2012)

20.7.2015 Dois Dias, Uma Noite (real. Luc e Jean-Pierre Dardenne, 2014)


14.7.2015 Táxi (real. Jafar Panahi, 2015)

6.7.2015 As Nuvens de Sils Maria (real. Olivier Assayas, 2014)

 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

O Cinéfilo Preguiçoso em Junho



1.6.2015 National Gallery (real. Frederick Wiseman, 2014)

 

8.6.2015 Gaslight (real. George Cukor, 1944)


15.6.2015 Enquanto Somos Jovens (real. Noah Baumbach, 2014)
 
22.6.2015 The Royal Tenembaums (real. Wes Anderson, 2001)
 
29.6.2015 Um Pombo Pousou Num Ramo a Reflectir na Existência (real. Roy Andersson, 2014)
 

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Nenúfares






segunda-feira, 1 de junho de 2015

O Cinéfilo Preguiçoso em Maio



25.5.2015 O Grande Museu (Johannes Holzhausen, 2014)
 
18.5.2015 Eden e Phoenix (Mia Hansen-Løve, 2014; Christian Petzold, 2014)

11.5.2015 O Passado e o Presente (Manoel de Oliveira, 1971)



 

 

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Especulação




O romance Dept. of Speculation, de Jenny Offill (n. 1968), foi uma referência constante nas listas dos melhores livros de 2014. É um romance narrado por uma personagem feminina que tenta conciliar os papéis de escritora, mulher (esposa) e mãe, no qual se conta o desenvolvimento de uma relação, desde o início, com passagem pela decisão de casar e ter um filho, até uma crise do casamento desencadeada por uma infidelidade do marido. Em Portugal este livro será publicado em 2015 pela Relógio d’Água.

Descrito desta forma, Dept. of Speculation parece um romance semelhante a muitos outros. Contudo, apesar de pecar por não conseguir libertar-se completamente de alguns lugares-comuns mais gastos da ficção tradicional (além do tópico do adultério, a transição da vida urbana para a vida suburbana, mas também a preocupação de contar uma história «de interesse humano» em que é possível identificar princípio, meio e fim), Dept. of Speculation é um romance corajoso, original e único graças à organização formal e à narração a partir de parágrafos aforísticos e epigramáticos que surpreendem pela intensidade lírica e conceptual.

A noção de «especulação» está presente logo a partir do título: esta especulação é existencial, literária e filosófica. O romance destaca-se pela capacidade singular de narrar estes conflitos e as suas pequenas histórias a partir de parágrafos curtos mas dotados de uma densidade que os aproxima do ensaio breve e da poesia. Alguns destes parágrafos comentam referências culturais, factos, episódios ou citações literárias e filosóficas com uma ironia que se reflecte sobre o enredo principal: «My plan was to never get married. I was going to be an art monster instead. Women almost never become art monsters because art monsters only concern themselves with art, never mundane things. Nabokov didn’t even fold his umbrella. Vera licked his stamps for him.» (p. 8).

 
Uma distinção interessante de Dept. of Speculation em relação a livros que tratam tópicos parecidos é a fase da vida que a narradora atravessa, entre a juventude e a velhice. À tradição fascinada pelas ilusões e pelas instabilidades das mulheres jovens, Offill opõe a rotina e os compromissos da idade adulta, com os  ressentimentos e frustrações que lhe estão associados. Apesar disso, não perde de vista nem a urgência de viver e de escrever da protagonista, nem o modo como esta urgência se vai tornando cada vez mais preciosa ao longo da vida.

 
Talvez a maior proeza do livro de Jenny Offill seja o modo como a narradora articula as funções de escritora, mulher (adulta e esposa) e mãe na enunciação: os papéis de mulher e mãe são desempenhados enquanto escritora; não há uma fronteira decisiva entre a vida quotidiana e a vida literária. Não se escreve de modo diferente por se ser mulher e mãe, mas vive-se de modo diferente por se ser escritora, tal é o esforço constante de fazer sentido da existência quotidiana que esta condição implica. O impulso de fazer sentido exerce-se tanto sobre os textos lidos e escritos pela narradora como sobre os episódios e pormenores mais insignificantes da vida quotidiana. A dificuldade de escrever é descrita como equivalente da dificuldade de viver e sobreviver. Neste sentido, “Mother Courage”, o título do texto que James Wood publicou na revista New Yorker sobre este livro de Jenny Offill, é um pouco redutor. Se Dept. of Speculation tivesse um narrador e autor do sexo masculino, dificilmente alguém se lembraria de escolher “Father Courage” como título de uma recensão do livro. (Não estou a dizer que o trocadilho brechtiano foi escolhido com intenções discriminatórias, mas sim que, por vários motivos, o problema dos sacrifícios inerentes à paternidade raramente é sublinhado como tema principal de um livro com um autor do sexo masculino.)

 
No seu próprio site (http://jennyoffilll.com/), Jenny Offill publicou uma lista dos livros que considera influências próximas e distantes deste romance. Entre estes inclui autores como o Fernando Pessoa do Livro do Desassossego, Renata Adler, Maggie Nelson, Robert Walser, John Berryman, Lydia Davis, Kafka, Mary Ruefle e Anne Carson. É fácil perceber que se trata de uma família de autores que cultivaram ou cultivam formas curtas e intensas. Jenny Offill aproxima-se destes escritores pela capacidade de condensar ideias de modo simultaneamente lírico e racional. Distingue-se, no entanto, pelo imposição de uma corrente narrativa capaz de inspirar o leitor a relacionar estes parágrafos  num enredo coerente.

 
Se quisermos convocar uma família de escritores contemporâneos totalmente diferentes, podemos pensar em nomes como Elena Ferrante ou Karl Ove Knausgaard, autores torrenciais que não têm como preocupação principal desenvolver uma reflexão distanciada sobre os acontecimentos que estão a narrar, procurando antes expor e  explorar pormenores concretos e emocionais mais imediatos. Pelo contrário, Jenny Offill, à semelhança de Maggie Nelson e de Sarah Manguso, trabalha descrições depuradas e intensas de estados de espírito, usando a reflexão quer sobre incidentes existenciais, quer sobre citações ou anedotas filosóficas ou literárias, como lente através da qual a narração avança.

 
As maiores diferenças de Sarah Manguso e de Maggie Nelson relativamente a Jenny Offill residem, no caso das duas primeiras, tanto numa secundarização das preocupações narrativas do registo ficcional como na escolha de temas menos convencionais: Sarah Manguso publicou livros sobre a sua experiência de uma doença crónica auto-imune (The Two Kinds of Decay), sobre a sua reacção ao suicídio de um amigo (The Guardians) e sobre a experiência de escrever um diário (Ongoingness: The End of a Diary); entre outros, Maggie Nelson escreveu um livro que se organiza a partir de parágrafos sobre a cor azul (Bluets). Manguso e Nelson são, portanto, escritoras mais difíceis de classificar e até de divulgar.

Aliás, Sarah Manguso e Maggie Nelson não estão traduzidas em Portugal e não é fácil nomear escritores portugueses contemporâneos pertencentes à mesma família. Alguma prosa poética portuguesa actual tende a acentuar vertentes mais líricas, sem investimento verdadeiramente reflexivo nem grandes preocupações narrativas. Dir-se-ia que certos textos de Adília Lopes trabalham o mesmo registo dos de Jenny Offill, mas de modo mais desleixado ou, se quisermos, mais lúdico e deliberadamente ingénuo. Por este motivo, Adília Lopes é uma escritora muito diferente de Jenny Offill.
 
 
 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

O Cinéfilo Preguiçoso




Desde fins de Dezembro de 2014, eu e o Alexandre temos estado a publicar um registo semanal das nossas aventuras cinematográficas.



27.4.2015 La Sapienza e Une Histoire Américaine (Eugène Green, 2014; Armel Hostiou, 2015)
21.04.2015 Carta de Uma Desconhecida (Max Ophüls, 1948)
14.04.2015 Roma, Cidade Aberta e Paisà (Roberto Rossellini, 1945; Roberto Rossellini, 1946)

6.04.2015 Na morte de Manoel de Oliveira

1.04.2015 The Outsiders (Francis Ford Coppola, 1983)

4.03.2015 Waking Life (Richard Linklater, 2001)
16.03.2015 L’Amour Est Un Crime Parfait (Arnaud e Jean-Marie Larrieu, 2013)

9.03.2015 Big Eyes (Tim Burton, 2014)
2.03.2015 Ida (Pawel Pawlikowski, 2013)

23.02.2015 Inherent Vice (Paul Thomas Anderson, 2014)

17.02.2015 The Future (Miranda July, 2011)

9.02.2015 Topsy-Turvy (Mike Leigh, 1999)
2.02.2015 The Theory of Everything (James Marsh, 2014)
27.01.2015 O Jogo da Imitação e Debaixo da Pele (Morten Tyldum, 2014; Jonathan Glazer, 2013)
9.01.2015 Sono de Inverno (Nuri Bilge Ceylan, 2014)
12.01.2015 Adeus à Linguagem (Jean-Luc Godard, 2014)

4.01. 2015 Mr. Turner (Mike Leigh, 2014)

29.12.2014 Tokyo Twilight  e E Agora? (Ozu, 1957; Joaquim Pinto, 2013)
22.12.2014 Boyhood (Richard Linklater, 2014)

16.12.2015 Lamentações gerais e Saint Laurent (Bertrand Bonello, 2014)

 

Imagens Proféticas e Outras


João Bénard da Costa. 2014. Crónicas: Imagens Proféticas e Outras. 3.º volume. Lisboa: Documenta.
 
 
            Publicado em 2014, o terceiro volume de Crónicas: Imagens Proféticas e Outras, de João Bénard da Costa (1935-2009), reúne textos que saíram na imprensa em 2006, complementando a série iniciada com a antologia de textos de 2002-2003 (primeiro volume) e continuada com textos de 2004-2005 (2.º volume). Em relação aos outros dois volumes de crónicas, há a assinalar em primeiro lugar uma revisão de texto mais cuidada. Pela negativa, no entanto, verifica-se a ausência incompreensível de um índice dos textos, ainda que haja um índice remissivo que demonstra a diversidade de interesses e referências do autor.
            É natural associarmos Bénard da Costa à cinefilia. Não só fez parte da direcção da Cinemateca, enquanto subdirector entre 1980 e 1991 e como director até 2009, como desenvolveu actividades culturais relacionadas. Muitos e belos são os textos que Bénard da Costa escreveu sobre cinema. Nestes volumes de crónicas, contudo, os textos mais interessantes não são necessariamente sobre cinema – ou não são só sobre cinema. Apesar de publicar crónicas em jornais, Bénard da Costa não se deixa seduzir pelos encantos efémeros da actualidade, preferindo antes tópicos que lhe parecem essenciais, ainda que pouco abordados por outros no mesmo meio. Neste terceiro volume encontramos crónicas sobre Cristina Campo, Mozart, Manoel de Oliveira, Richard Strauss, Richard Fleischer, Paulo Rocha, Sophia de Mello Breyner, Alida Valli, Tchekov, Bento XVI, John Ford, Elisabeth Schwarzkopf, a Arrábida e Tiziano, entre outros.
Os interesses de Bénard da Costa vão do erudito (pintura, música clássica, clássicos da literatura), ao concreto e pessoal (memórias da família, da vida em Lisboa ou das férias na Arrábida, descritas ao pormenor). O que mais surpreende e comove o leitor nestas crónicas é um conjunto de características difíceis de encontrar em alguém que viva nos tempos tão virtuais que vivemos. Entre estas características, temos não só o empenhamento em estar presente na própria vida, percorrendo os lugares, encontrando-se com as pessoas de que gosta, observando as obras de arte no espaço em que estão expostas, mas também a vontade de partilhar interesses. O empenhamento em viver e o desejo de partilha de interesses reflecte-se no tom de conversa e de narração destes textos, pontuado, quando menos se espera, por um sentido de humor ligeiramente autodepreciativo: «Parei um bocadinho, para bater na madeira, que ‘presunção de salvação sem merecimento’ é pecado contra o Espírito e nunca devemos presumir de mais./Mas encandeio com uma dessas histórias dos meus pesadelos e vejam se não tenho razão para eles.» (p. 231). Outro dos traços distintivos destas crónicas relaciona-se com a linguagem de Bénard da Costa: palavras e construções de outros tempos mas que se revelam imprescindíveis pela sua expressividade, não se destacando portanto como arcaísmos, mas sim como reactualizações e revitalização de expressões caídas em desuso.
Além da generosidade do tom, o mais aliciante nestas crónicas reside na facilidade com que Bénard da Costa estabelece relações entre elementos diferentes de um modo em que uns ajudam a esclarecer o valor imaginativo dos outros. Entre os textos mais interessantes deste volume destaque, por exemplo, para «O Medalhão Reencontrado» (35-39), em que a recordação de infância de uma visita com a avó a casa de uma senhora misteriosa leva o autor a evocar um medalhão que lhe passaram para a mão para se entreter, suscitando a seguir a evocação do primeiro Livro de Pintura que os pais lhe ofereceram e, com este, de Bronzino e dos retratos de Eleonora de Toledo. Noutro exemplo de recordações que se sucedem de modo idiossincrático, na crónica «O Gerânio na Janela» (133-137) convoca-se Dante Gabriel Rossetti em articulação com as figuras de Prosérpina, Kim Novak, a Carlota Valdés de Vertigo e Ellen Page no filme Hard Candy. Outra das crónicas mais sugestivas deste volume é aquela que se intitula «O que Não Tem Penas» (199-205), em que o conto «The Man Who Liked Dickens», juntamente com o filme pouco conhecido em que Nicholas Ray adaptou este texto de Evelyn Waugh para a televisão (High Green Wall, 1954), funcionam como ponto de partida para algumas reflexões sobre os diversos modos de recepção da literatura, culminando numa espécie de teoria da arte que é uma filosofia de vida: «Felizes os que amam um só autor [...] até ao fim e passaram esta vida breve sem sair dele.» (p. 201).
Muitos dos textos mais inspiradores e mais inesperados de Bénard da Costa têm a ver com o registo das memórias, como se verifica nos casos de «Memórias do Alfredo» (61-64) ou «No Sexto Aniversário da Minha Morte» (127-131). Entre estes, salientam-se as crónicas que Bénard da Costa escreveu sobre a Arrábida. Nas palavras do autor, a Arrábida converte-se num espaço mental encantado que de algum modo resiste a todas as agressões políticas, ambientais e turísticas, ao ponto de se tornar difícil associar a Arrábida de Bénard da Costa a qualquer outra imagem da Arrábida que possamos encontrar ou captar inclusivamente na própria Arrábida. É possível comprovar isto mesmo no filme Outros Amarão as Coisas que Eu Amei (Manuel Mozos, 2014). Sobrepor as palavras de Bénard da Costa a imagens da Arrábida gera uma disjunção estranha. Quem visitar a Arrábida depois de ler as crónicas de Bénard da Costa ficará ligeiramente desorientado ou perdido, de tal modo a Arrábida de Bénard da Costa e dos que o leram está associada às memórias do autor.
            Entre os textos deste volume dedicados à Arrábida, realce para «Arrábida, Outra Vez» (227-233), um clássico de Bénard na Costa na sua construção. Depois de referências à participação do autor na filmagem de um filme de Manoel de Oliveira, à apresentação de um livro sobre o Convento da Arrábida, ao fantasma de um monge que assombraria este edifício, e a um romance de Agustina cuja acção decorre na mesma região, Bénard da Costa descreve a «Lapa do Médico»: entre fragas e penhascos, um «buraco no chão, onde mal cabe uma pessoa» e que dá acesso a uma sucessão de galerias. A seguir, a atmosfera de tom de fadas da aventura perigosa que caracteriza o relato da visita que um dia fez a este espaço com os dois filhos e um sobrinho termina com a menção de uma perspectiva diferente do mesmo episódio: «Estava a passar férias connosco o Nuno de Bragança, que mantinha um diário. Muito mais tarde, li o que ele tinha escrito referente a esse dia: ‘À tarde, o João, com estarrecedora inconsciência, enfiou-se numa gruta e arriscou os nervos de três crianças para o resto da vida.’»
Nesta crónica sobre a Arrábida é evidente toda a singularidade dos textos de Bénard da Costa: o tom erudito, um pouco épico, um pouco lírico, quase a tocar a mitomania, articulado com a citação irónica de um ponto de vista que o equilibra e torna mais nítido; um conjunto de referências culturais incluídas não como pose exibicionista, mas porque são essenciais à própria noção de vida praticada e partilhada pelo autor. É importante descrever Bénard da Costa como escritor e não só como divulgador e comentador de cinema.



 
 

 

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