«I too am not a bit tamed, I too am untranslatable» (Walt Whitman) | setadespedida@yahoo.co.uk

terça-feira, 3 de março de 2009

Anatomia, Botânica





Em caso de incêndio, as pinhas são perigosas, pois explodem, projectando faúlhas que podem ser lançadas a quilómetros de distância devido ao vento, levando o fogo para mais longe, e em várias direcções.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Segredos de um bestseller

Interviewer: What do you think we’re afraid of?

Stephen King: I don’t think there’s anything that I’m not afraid of, on some level. But if you mean, What are we afraid of, as humans? Chaos. The outsider. We’re afraid of change. We’re afraid of disruption, and that is what I’m interested in.



Está-me a apetecer uma maratona cinematográfica com filmes baseados em livros de Stephen King.


Uma questão de casting


Encontro uma das opções de casting mais interessantes que me lembro de ter visto em cinema nos últimos tempos na escolha de Kathy Bates para encarnar o papel de Mrs. Helen Givings no filme Revolutionary Road, de Sam Mendes.
Kathy Bates - que em 1991 recebeu o Óscar e o Globo de Ouro para melhor actriz num papel principal enquanto Annie Wilkes, a inesquecível protagonista do filme Misery, realizado por Rob Reiner a partir do romance de Stephen King em que uma fã psicopata sequestra o escritor preferido para o obrigar a escrever aquilo que ela quer - desempenha, em Revolutionary Road, o papel de uma vendedora imobiliária com um discurso pejado dos lugares-comuns habituais ao contexto social que marca o filme.

No filme, a inadequação à realidade do discurso e do comportamento da vendedora imobiliária de Revolutionary Road está evidente para quem a quiser perceber (na personagem do filho, doutorado em matemática mas a receber tratamento psiquiátrico relacionado com electrochoques, no carácter apagado e passivo do marido, no modo como o que percebemos daquele universo parece escapar a tudo o que ela diz sobre ele), mas a simples presença física de Kathy Bates contribui para acentuar o quanto há de perturbador numa personagem aparentemente tão convencional e tão integrada.

Vale sempre a pena chamar a atenção para estas personagens que persistem em encarnar e defender um modo de vida ideal e desajustado, apesar de quase tudo o que se passa em torno delas indiciar que estão erradas. É importante reflectir sobre o papel delas, mesmo quando parecem secundárias. Quem estiver atento verá que é ali que reside o rosto mais puro do terror.


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Jack Maggs, de Peter Carey

A propósito deste livro, constato dois fenómenos interessantes .

Apesar de ter personagens que vêm do romance Great Expectations, de Dickens, apesar de a narrativa se situar na cidade e no tempo de Dickens, apesar de incluir uma personagem (o escritor Tobias Oates) que partilha elementos biográficos com Dickens, em Jack Maggs a referência a Dickens acaba por funcionar de modo deceptivo: encontro mais Charles Dickens nos primeiros romances de Paul Auster (principalmente nas personagens que andam à deriva pelo mundo, lutando pela sobrevivência física) do que em Peter Carey.
Não se trata de uma constatação negativa, embora, por si só, também não seja necessariamente positiva. Não haverá muitos escritores que se confrontem com os universos das suas supostas influências e sobrevivam incólumes ao embate. Interessa, no entanto, averiguar se conseguem ganhar alguma coisa com isso. (Terei de ler mais livros de Peter Carey para perceber.)

Depois, quando leio este livro acontece-me uma coisa estranha. Não tenho por hábito imaginar actores dando corpo às personagens dos romances, mas aqui vejo sempre Harvey Keitel quando vejo Jack Maggs. Terá Peter Carey concebido o protagonista a partir de Harvey Keitel, imaginando que o actor poderia um dia ser o protagonista de um filme realizado a partir do livro? Ou não passará tudo isto de uma fantasia minha?


Colecção de mãos

«It had always been Tobias method to approach his subject by way of the body. When he’d first set himself the task of writing about Jack Maggs, he had first produced a short essay on his hands, pondering not merely the fate of the hidden tendons, the bones, the phalanges, the intercarpals which would one day be liberated by the worms, but also their history: what other hands they had caressed, what lives they had taken in anger.»

Jack Maggs, de Peter Carey, Faber and Faber, p. 303

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Um caso linguístico

O uso da expressão «desmancho» para referir «aborto espontâneo» está documentado em dicionários e em textos dedicados ao assunto. Em caso de dúvida, ver, por exemplo, as acepções 3 e 4 da entrada no Moderno Dicionário da Língua Portuguesa da Michaelis, ou consultar páginas como as seguintes: I, II, III).


terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Suspeitas


Para quem não tenha reparado, o filme que duas personagens (Vicky/Rebecca Hall e o colega da aula de castelhano) em Vicky Cristina Barcelona vão ver é Shadow of a Doubt, de Alfred Hitchcock. A cena que aparece diz respeito ao momento em que o tio (Charlie Oakley/Joseph Cotten) tenta matar a sobrinha (Charlie Newton/Teresa Wright) no comboio, de modo a impedi-la de o desmascarar como assassino.
Quando o BFI realizou um inquérito a vários realizadores, pedindo-lhes que falassem da importância e da influência de Hitchcock nas obras de cada um, Woody Allen manifestou predilecção precisamente pelo filme que agora usa neste Vicky Cristina Barcelona.

Por mim, acho que desde Deconstructing Harry não gostava tanto de um filme de Woody Allen. Mas, claro, tenho um fraco por contos morais em que os protagonistas percebem que afinal desejam exactamente o oposto daquilo que julgavam desejar, e achei verdadeiramente magníficas quer Rebecca Hall, quer a saturnina personagem que ela representa.


domingo, 1 de fevereiro de 2009

Fins-de-semana


Ao vento e à chuva, explicam-me que durante muito tempo houve praia até ao Mosteiro dos Jerónimos.


Jacintos e Matisse



Já me aconteceu reparar que, se colocarmos íris brancos e azuis na mesma jarra, existe uma grande probabilidade de as flores brancas começarem a adquirir tons azulados. Verifica-se uma espécie de contaminação ou de contágio. Mas será devido a um fenómeno semelhante que os cachos dos jacintos que este ano comprei estão a ficar com a mesma cor da capa do livro de A. S. Byatt que li na semana passada?


Tears dry on their own

Chora-se antes da guerra, chora-se depois da guerra, nunca se chora durante a guerra; durante a guerra não há tempo para lágrimas. Li isto uma vez, há anos, já não sei a propósito de quê, numa entrevista a um coreógrafo. E é frequentemente necessário chorar muito antes para que depois se possa não verter lágrimas.


quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Filmes que fogem, filmes de que não se consegue escapar

Por entre os mais que vistos filmes com Brad Pitt e Harrison Ford com que a Cinemateca vai em Fevereiro ocupar espaço válido em que poderia passar títulos mais difíceis de ver quer em DVD, quer em salas do circuito comercial (vide estranho ciclo intitulado Divos às matinées), destaque para a retrospectiva Bresson, que será apresentada durante Fevereiro e Março, em articulação com uma exposição de Rui Chafes e um livro que João Miguel Fernandes Jorge escreveu a partir dos filmes do realizador francês.
A 25 de Fevereiro teremos oportunidade de ver o esquivo Les Affaires Publiques, filme realizado em 1934, mas dado como desaparecido até 1986, quando, por acaso, foi encontrada uma cópia na Cinemateca Francesa disfarçada sob um título diferente (Beby Inaugure - sendo Beby o nome do palhaço protagonista).
Em Março, também a não perder, pelo menos por mim, será Quatro Noites de um Sonhador, para além de Les Affaires Publiques, o único filme que me falta ver de Bresson. Este filme de 1971 que há muito procuro por todo o lado é inspirado pela novela Noites Brancas, de Dostoiévski, a tal em que as personagens falam como se estivessem a ler livros.
Aguardemos, portanto, com tranquilidade.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Aquisições de fim-de-semana

Hoje em dia vamos às livrarias e ficamos quase sempre com a sensação de que as editoras portuguesas andam praticamente todas a publicar o mesmo tipo de livro sem interesse. No sábado, contudo, encontrei na Letra Livre duas curiosidades de outros tempos: Aventuras do Trinca-Fortes - Pequena história de Camões e do seu poema, de Adolfo Simões Müller, com ilustrações de Júlio Resende, e Dicionário de Milagres, de Eça de Queirós.

Simpatizo imenso com textos que ficcionam episódios da vida de escritores, mesmo quando contados às criancinhas. Não se publica o suficiente sobre este tema.
(Um dos meus textos preferidos em língua portuguesa tem uma inspiração semelhante. Intitula-se «Super Flumina Babylonis» e gira em torno daquele que poderia ter sido o dia em que Camões começou a escrever «Sôbolos rios que vão por Babilónia». Por acaso, o conto de Jorge de Sena está online: é aproveitar.)





Quanto ao Dicionário de Milagres, parece-me um livro delicioso. Não sendo francamente tranquilizador quanto à autenticidade do texto publicado, o posfácio de Luiz Pacheco
(«Não se trata de uma edição crítica, muito menos de uma edição erudita ou apologética. Procurou-se, isso sim, facilitar ao leitor de 1980 o contacto com um texto, emendando gralhas evidentes e, em tal tarefa, muito ajudados fomos por uma cópia dactilografada do sr. Onair de Carvalho, tio do Poeta António Manuel Couto Viana, que no Porto, decerto na Biblioteca Nacional, amorosa e pacientemente copiou o livro todo e anotou-o […]») como que aponta, de certo modo, para a possibilidade de haver no livro um ou outro milagre de índole ligeiramente neo-abjeccionista.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Links selvagens e domésticos


Colecção de mãos
Wash your hands with hands: que conceito magnífico. Mãos de sabonete, vagamente sinistras, feitas de glicerina e leite de cabra, todas elas com cores e formatos diferentes.

2009, ano para ouvir
Se quiséssemos guardar um registo dos sons mais importantes para nós, quais seriam aqueles que cada um gravaria?
Um artista americano quis descobrir e tomou a decisão de gravar em 2009 um som por dia para colocar no blogue. Para já temos, entre outros: neve a derreter, um ribeiro a correr, areia numa praia havaiana, o interior da Grand Central Station. Alguns, como o do dia 22 - o gato Pixel dormindo ruidosamente sobre a secretária - são perfeitamente irresistíveis.

Not for the tender-hearted
Para quem quiser dar uma vista de olhos e ficar indignado (a reacção habitual), a minha tese está online.

Terrible am I child?
Não perceber patavina da letra é sempre um dos factores mais decisivos. Para acabar finalmente com o ano passado, uma das canções de 2008 que mais ouvi em repeat.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Yoknapatawpha

Certamente devido a uma inusitada conjunção astral, prevê-se que o próximo sábado em Lisboa se revele extremamente favorável a faulknerianos convictos (não é o meu caso, devo salientar).
Às 19.00 passa na Cinemateca o filme Southerner, de Jean Renoir, em cujos diálogos o autor americano teve uma colaboração (não creditada).
Como o filme de Renoir tem 87 minutos de duração, é possível assistir, pouco depois, na Culturgest, à sessão das 21.30 da peça The Sound and the Fury (April Seventh, 1928), espectáculo inspirado pela primeira secção do famoso romance de William Faulkner, da responsabilidade da companhia Elevator Repair Service.

(À laia de preparação para esse dia invulgar e provavelmente difícil, sugiro a leitura de alguns excertos da entrevista ao escritor publicada no vol. 2 de The Paris Review Interviews: nunca se consegue perceber muito bem se Faulkner está a gozar ou se acredita mesmo no que está a dizer.)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Animais domésticos


Uma definição de casa entre a de Naipaul (numa entrevista ao DN quando esteve em Portugal) - casa é onde o nosso gato está - e a de Manoel de Oliveira (em conversa com Antoine de Baecque e Jacques Parsi publicada num volume da Campo das Letras) - casa é o sítio onde não se é espectador.


O que tem de ser tem muita força


Gosto imenso desta fotografia de Julian Barnes que encontrei na edição de The Lemon Table que agora ando a ler. Da boca fechada, das rugas entre os olhos porque os olhos não fixam a objectiva mas qualquer outra coisa ao lado. É todo um modo de vida este ar «Querer, não quero. Mas se tem mesmo de ser, que seja.».


«Among the Chinese, the lemon is the symbol of death. That poem by Anna Maria Lengren – ‘Buried with a lemon in his hand.’. A. would try to forbid it on grounds of morbidity. But who is allowed to be morbid, if not a corpse?»

(Do conto «The silence, p. 207)


Teatro

Uma actriz tão nervosa, tão nervosa, que aparece no palco num acto em que a sua personagem não é sequer referida.
E os outros actores não sabem o que lhe hão-de fazer.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

2008 em livros e filmes

Para registo pessoal e para quem se interessa por estas coisas, os livros e filmes do ano passado que recordo com mais prazer. (A ordem é meramente cronológica.)

LIVROS

Dos seis romances de Charles Dickens que li, gostei mais de Our Mutual Friend, Great Expectations e A Tale of Two Cities.
Para além de Dickens:
- A Saga de Gösta Berling, Selma Lagerlöf;
- Gente Independente, Halldór Laxness;
- The Gathering, Anne Enright;
- The Complete Stories, Flannery O’Connor;
- Collected Stories, John Cheever.


FILMES

Circuito comercial
- Lust, Caution, Ang Lee;
- Luz Silenciosa, Carlos Reygadas;
- Nightwatching, Peter Greenaway;
- No Country for Old Men, Irmãos Coen.

DVD
- Honra de Cavalaria, Albert Serra;
- Tristana, Buñuel;
- Nachmittag, Angela Schanelek;
- Margot at the Wedding, Noah Baumbach;
- Ne touchez pas la hache, Rivette.

Cinemateca
- Broken Blossoms / True Heart Susie, D. W. Griffith;
- L’amour fou / L’amour par terre, Rivette;
- A Imperatriz Vermelha, Sternberg;
- À Beira do Mar Azul, Boris Barnett;
- The Wind, V. Sjöström;
- Le genou d’Artemide / L’itinéraire de Jean Bricard, Straub;
- The River / La fille de l’eau, Jean Renoir.

Totalmente decepcionantes
- Darjeeling Limited, Wes Anderson;
- Segunda Juventude, F. Coppola;
- Expiação, Joe Wright.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

A luz e a escuridão

Luís XIV ficou conhecido como o Rei Sol. Sun King é o título não só da biografia que Nancy Mitford escreveu sobre o monarca e que eu traduzi (chancela Livros da Raposa, Edições Cotovia), mas também de uma canção pouco conhecida dos Beatles (álbum Abbey Road), que eu não traduzi mas, as the story goes, terá sido escrita por John Lennon depois da leitura de uma biografia deste rei francês.
Já li muitas coisas sobre Luís XIV, mas parece-me que a biografia de Nancy Mitford se distingue sobretudo pelo tom espirituoso e pela atenção dedicada às figuras femininas que rodearam e influenciaram o Rei.
O livro é uma saída recente e espero que todos os que o comprem o achem tão divertido como eu achei. E que o Rei Sol possa continuar a inspirar manifestações artísticas tão breves e semanticamente obscuras como a canção dos Beatles.

Barcas novas


«Eu acho que ou morremos ou nascemos com cada pessoa importante na nossa vida.»

Captain John
no filme The River, de Jean Renoir

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