«The place you will come to may be black, something you would disown, but if you have found yourself there, that is so far home; you will either domesticate that, naturalize yourself there, or you will recover nothing.» (Stanley Cavell) | setadespedida@yahoo.co.uk

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Forma de Vida #16


Rapaz com Abelha, de Keith Carter


No novo número da Forma de Vida podem ler a Faca de Papel #8, sobre casacos, abelhas e costureiras.

O poema de Rosa Oliveira de que cito um verso em epígrafe faz parte do livro Tardio (Tinta-da-China). Transcrevo-o a seguir, por não se encontrar em lado nenhum na Internet.


Cazaquistão, de Rosa Oliveira

O casaco jaz na mesa de jantar
O casaco é de malha e estamos no verão
O casaco tentou aquecer três mulheres de granito
O casaco desistiu, manquejou, perdeu a memória, desligou-se
O casaco nadou nas lágrimas escuras do roupeiro
O casaco fugiu para a tepidez lisboeta
O casaco saltou casas incansáveis
O casaco embalou uma mulher
O casaco perdeu quase tudo
O casaco permanecia
O casaco embrulhou-se em vidro
O casaco foi conhecer céus algarvios
O casaco jaz na mesa de jantar
O casaco era da mãe
A mãe estará sempre no casaco