«The place you will come to may be black, something you would disown, but if you have found yourself there, that is so far home; you will either domesticate that, naturalize yourself there, or you will recover nothing.» (Stanley Cavell) | setadespedida@yahoo.co.uk

terça-feira, 16 de outubro de 2018

O que os vivos fazem


«This is/what the living do: go in.»  
«San Sepolcro», Jorie Graham
Untitled (Four Doors, Cat), Gertrude Abercrombie, 1957.

Tudo começou no dia em que saí, esquecendo-me de levar as chaves de casa. Tive as chaves na mão, mas esqueci-me delas. Fiquei de fora. Fiquei à espera. Verificou-se também alguma indecisão sobre o desejo de entrar. E se nunca mais entrasse naquilo em que todos os outros participam?
Meses após este percalço, já depois de ter entrado e saído muitas vezes na mesma casa, num dia de manhã, a seguir ao pequeno-almoço, a porta da casa de banho simplesmente deixou de abrir. O incidente não foi grave: se tivesse ficado fechada lá dentro, sem contacto com o exterior, teria de esperar pelo fim do dia, até alguém regressar. Mas, mais uma vez, estava do lado de fora: só não conseguia entrar.
Depois de tentarmos várias vezes abrir a porta à força, sem sucesso, B. lembrou-se de um truque com uma capinha de plástico. Sem grande estardalhaço, a capinha azul venceu o trinco da porta e esta abriu-se. A partir daí mantivemos esta porta aberta e decidimos mudar de casa.
Durante a procura de casa houve mais incidentes com portas.
Na primeira casa de que gostámos, um primeiro andar nos Anjos, as traseiras da casa tinham um jardim de inverno em frente ao qual passava uma escada de incêndio. Nesta casa, não me sentia segura visto que qualquer pessoa podia passar por ali, partir os vidros e entrar.
Na segunda casa de que gostámos, na zona do Saldanha, a sala de jantar tinha uma porta para o corredor que os proprietários tinham bloqueado, do lado de dentro da sala, por um aparador, e também, do lado do corredor, por uma espécie de bengaleiro grande, numa posição estranha. O excesso de bloqueios, por dentro e por fora, suscitou dúvidas. Seria uma porta pertencente a um fantasma, uma espécie de portal para outra dimensão?
Uma casa de Alvalade tinha um logradouro a que se tinha acesso por um corredor escuro que ninguém percorria há muito tempo. A porta estava emperrada: quando finalmente a abrimos, depois de um empurrão com mais força, levantou-se uma nuvem de sementes, libertadas pelas ervas secas e altas. B. avisou-me para ter cuidado com as alergias. No primeiro andar, alguns elementos da família, incluindo um beagle desconfiado, vieram à janela para ver o que andávamos a fazer lá em baixo. Pareciam encarar o logradouro como uma lembrança distante.
Na última visita dos compradores da nossa casa, a porta do elevador não abriu. Tinham entrado quatro pessoas e este bloqueara com o peso. Os compradores passaram cerca de vinte minutos dentro do elevador, até chegar o apoio técnico. Depois saíram do elevador directamente para nossa casa, aliviados, e fizeram a visita final.
Obviamente, neste percurso, a última porta fechada aconteceu quando, já depois de tudo ser transferido para a nova casa, com a casa antiga já vazia, saímos, fechando a porta, e nunca mais pudemos voltar. Na casa nova parece ter desaparecido uma das chaves, mas sou eu que secretamente ando com ela sempre dentro do bolso, para nunca mais ter de ficar de fora.