«I struggled with some demons/They were middle-class and tame» (Leonard Cohen) | setadespedida@yahoo.co.uk

sábado, 27 de maio de 2017

A criação do mundo



Quando tentava definir o primeiro capítulo da minha tese de doutoramento, num momento de inspiração malickiana lembrei-me de que poderia começar simplesmente pelo princípio.

O princípio, sim, o princípio. Mas qual deles?

A resposta pareceu simples ao meu eu dessa época: teria obviamente de ser o princípio dos tempos. Esta seria, aliás, uma boa solução para todas as teses de doutoramento. Adeus, dúvidas sobre o capítulo inaugural. Todos os candidatos deveriam começar no início do mundo.

Ainda hoje B. ri às gargalhadas sempre que se lembra disto. Eu, no entanto, falava vagamente a sério. As primeiras frases da minha tese iam ser: «Big Bang. As partículas começam a coleccionar-se umas às outras.»

Por incrível que pareça, o princípio da minha tese não é assim. Em vez de partir do Big Bang, a tese converteu-se numa espécie de buraco negro de ideias com que ainda simpatizo mas que deixei de conseguir recuperar para a legibilidade.

É bem possível que as teses de doutoramento sejam o lugar aonde as ideias vão morrer e não começar.