«I struggled with some demons/They were middle-class and tame» (Leonard Cohen) | setadespedida@yahoo.co.uk

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O Cinéfilo Preguiçoso em Fevereiro



 
28.2.2016 Nostalgia (real. Andrei Tarkovsky, 1983)

21.2.2016 Mistress America (real. Noah Baumbach, 2015)

4.2.2016 Andrei Rublev (real. Andrei Tarkovsky, 1966)

8.2.2016 Carol (real. Todd Haynes, 2015)

1.2.2016 Spotlight (real. Tom McCarthy, 2015)



[O Cinéfilo Preguiçoso tem página no Facebook, se alguém preferir seguir as actualizações por esse meio.]



domingo, 28 de fevereiro de 2016

Descobertas de início do ano

 
 

Ouço música durante o dia todo enquanto trabalho. Algumas actividades exigem uma certa previsibilidade rítmica, mas é importante ser surpreendido de vez em quando. Graças a esta lista de músicos intrigantes, descobri Tanya Tagaq. Tem uma voz selvagem e a música que a acompanha parece estranhamente culta, misturando elementos muito diferentes, que não se percebe imediatamente de onde vêm. Quem gosta de Meredith Monk, Le Mystère des Voix Bulgares e Björk também simpatizará com este disco.






Nas tardes escuras do princípio do ano em que a chuva põe a vida em suspenso, nada melhor do que os discos de Le Mystère des Voix Bulgares, mas talvez as vozes búlgaras cantassem como Tanya Tagaq se tivessem de viver em certas cidades.


Ainda não sei se gosto de Animism ao ponto de daqui a uns anos continuar a ouvi-lo, mas estou muito curiosa em relação ao novo disco desta cantora (anunciado para 2016).





Os meus gatos adoram os discos de Le Mystère des Voix Bulgares,  não gostam nem de Tanya Tagaq nem de Meredith Monk, e odeiam City Life, entre outros discos de Steve Reich.

 


 ELIZABETH JANE HOWARD
 

 Kingsley Amis e Elizabeth Jane Howard no dia em que se casaram (30 de Junho de 1965)


Hilary Mantel sobre Elizabeth Jane Howard:


«Comedy is not generated by a writer who sails to her desk saying, 'Now I will be funny'. It comes from someone who crawls to her desk, leaking shame and despair, and begins to describe faithfully how things are. In that fidelity to the details of misery, one feels relish.»
 
 
Depois deste texto em que se apresenta e defende uma escritora pouco conhecida e subvalorizada, fica-se com alguma vontade de ler Elizabeth Jane Howard, mas o desejo maior talvez seja ler mais Hilary Mantel, ainda que já tenhamos lido quase tudo o que ela escreveu.
(De resto, até para responder a emails se rasteja para a secretária.)


 

 CRISTINA CAMPO
 



No último dia de 2015, por acaso, enquanto fazia horas para uma sessão de cinema, passei pela livraria da Sistema Solar no Chiado e reparei neste livro porque me lembrei de uma referência num texto de Bénard da Costa. Li há vários anos um volume de poesia de Cristina Campo (O Passo do Adeus), mas não sabia que ia gostar tanto deste livro sobre outros textos e livros.

«Poder-se-ia dividir o reino do sofrimento humano em desventuras da mão direita e desventuras da mão esquerda. Os antigos conheciam estas sagradas metáforas, para além das quais não há definição possível. A desventura da mão direita está para a desventura da mão esquerda como uma ferida por arma branca está para o aperto pelas areias movediças, ou para a morte pela sede no deserto.
A pobreza, a despedida, a perseguição e a própria morte podem ser desventuras da mão direita. Acerca de tudo isto tem florescido muita poesia e é a mais bela. As desventuras da mão esquerda quase sempre ficam mudas. Poucas se salvam para as contar, como Jonas do ventre do Leviatã. É o milagre do Filoctetes e do Ricardo II, do Crepúsculo da Lua e dos últimos versos de Hölderlin. De Um Amor de Swann e de Matadouro-Cinco ou A Cruzada das Crianças

Cristina Campo. 2005. Os Imperdoáveis. Trad. José Colaço Barreiros. Lisboa: Assírio e Alvim, p. 150.




THE UNSTRUNG HARP, de Edward Gorey

 
 
 
 



The Unstrung Harp, uma história sobre criatividade e hesitação, de Edward Gorey, recomendada por Alison Bechdel.


 
Tudo o que há para dizer sobre como é escrever um texto relativamente longo.
 

 

 

 

Tudo o que há para dizer sobre as conversas subordinadas ao tema «vida literária».
 
 

 
 
HUMPHREY OCEAN



Birds at Ngong
 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Margarida de Antioquia



Santa Margarida de Antioquia, Francisco de Zurbarán (1630-4)
National Gallery


 
«We cannot and do not slay the Dragon, that is a medieval idea, I guess. We have to become completely familiar with him and hope that he sleeps.» (Agnes Martin)

 
 
A única maneira é tentar conhecer o Dragão, propor-lhe amizade, se possível domesticá-lo, integrando-o em casa. Margarida de Antioquia já não se incomoda com o rosnar da criatura. Em vez disso, exibe-a como atributo ou adereço. A cauda do Dragão que lhe coube lembra agora um suporte para braços de uma cadeira valiosa, um pouco decorativa, mas em que se pode ler ou descansar. Apesar de continuar com a aparência feroz que sempre o caracterizará, o Dragão simpatiza com ela ao ponto de lhe ter cedido a pata que ela pediu emprestada para poder ter os dois pés assentes no chão.
 
Escusado será dizer que, ao contrário de Margarida, nem todos conhecemos suficientemente bem o Dragão que nos acompanha diariamente; nem todos conseguimos aproximar-nos dele. Muitos de nós ainda têm medo de que nos faça mal. O meu Dragão, por exemplo, nunca me cederia uma pata, mesmo se lhe explicasse que sem ela não consigo caminhar.
 
Margarida também traz sempre consigo o livro em que se conta a história da sua vida. De acordo com os que veneram esta santa, Deus velará por aqueles que tenham este volume em casa e apertem o relato ao peito em tempos difíceis ou em caso de perigo.
 
Li isto há pouco tempo, na autobiografia de um filósofo americano: o lugar em que nos encontramos pode ser perigoso, mas se lá estamos, é a nossa casa naquele momento; ou domesticamos esse espaço, conquistando-o, ou estaremos sempre a começar do zero.