«I struggled with some demons/They were middle-class and tame» (Leonard Cohen) | setadespedida@yahoo.co.uk

domingo, 26 de fevereiro de 2017

O Cinéfilo Preguiçoso em Janeiro e Fevereiro


 
26.2.2017 Toni Erdmann (real. Maren Ade, 2016)

 

19.2.2017 Elementos Secretos (real. Theodore Melfi, 2016)

 

12. 2.2017 Uma Discussão com 50 Anos (real. Martin Scorsese e David Tedeschi, 2014)

 

5.2.2017 Wiener-Dog  (real. Todd Solondz, 2016)

 

29.1.2017 Arrival (real. Denis Villeneuve, 2016)

 

22. 1.2017 Yella (real. Christian Petzold, 2007)

 

15.1.2017 A Morte de Luís XIV (real. Albert Serra, 2016)

 
9.1.2017 Vida Activa: O Espírito de Hannah Arendt (real. Ada Ushpiz, 2015)
 

 

Pérolas de filosofia pop

Camilo Huinca

 
Michael Bublé não é um grande cantor, mas gosto da  interpretação irónica e forçada que em certos momentos faz da canção «Feeling Good», mais conhecida na voz de Nina Simone.

 

Duvido que isto tenha acontecido por opção inteligente do cantor.  Nem sequer tenho a certeza se ele percebe a letra: acho que só compreenderá bem esta canção quem se tenha sentido realmente despreocupado pelo menos uma vez na vida. (Pouca gente, portanto.)

 

Suspeito que Bublé foi contrariado durante a sessão de gravação. A interpretação começa suave, tentando parecer elegante e  sofisticada, mas alguém deve ter dito alguma coisa ao cantor que o enervou entretanto. Se calhar Bublé recebeu um telefonema desagradável. É possível que algum técnico de som tenha cometido um erro ou um produtor tenha feito um comentário amargo e dispensável.

 

Durante alguns momentos depois dessa contrariedade, Bublé, desconcentrando-se, distraiu-se da pose habitual. Na voz dele naqueles momentos, uma canção que parece uma declaração de prazer e de boa disposição transforma-se numa espécie de declaração agressiva, sarcástica e insatisfeita, de resistência: sinto-me bem apesar dos fracassos; sinto-me bem contra o mundo; sinto-me bem contra mim próprio; sou eu contra tudo o que não corre bem. A canção transfigura-se temporariamente graças à distracção de Bublé, manifestando um sentido que até ali ninguém ou pouca gente tinha captado nela.

 
Pouco depois desta proeza involuntária, no entanto, Bublé recupera a compostura e volta a fingir que está satisfeito consigo próprio.

 

Há, pelo contrário, cantores que cantam como se não estivessem preocupados com o resultado. Frank Sinatra, por exemplo, não só canta sobre o amor como se não estivesse apaixonado como também o faz um pouco distraído, desinteressado.

 

Talvez seja preciso estar um pouco distraído, um bocadinho desinteressado, para fazer uma coisa bem. É possível que só quando, depois de adquirirmos uma certa indiferença à possibilidade de desastre, conseguimos fazer uma coisa importante como se não importasse ela fique bem feita. Caso contrário, interpõem-se factores dispensáveis: ambições mesquinhas e grandiosas, a pessoa que queremos parecer, a pessoa que pensamos ser, quem os outros querem que sejamos – todos menos quem somos realmente. Tentamos muitas vezes ser Bublé quando podíamos ser Sinatra.