«I struggled with some demons/They were middle-class and tame» (Leonard Cohen) | setadespedida@yahoo.co.uk

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Work in progress

David

No Alphaville, de Godard, Anna Karina lê Paul Éluard.

No filme Splendor in the Grass, de Elia Kazan, são lidos alguns versos do poema de Wordsworth Ode on Intimations of Immortality») que inspira o próprio título do filme. (Por sua vez, o filme inspirou um poema de Ruy Belo.)

No fim do filme In her shoes (Na sua Pele), de Curtis Hanson, Cameron Diaz lê o poema «One art», de Elizabeth Bishop. (A personagem é disléxica e conseguir ler este poema é uma grande vitória para ela.)

No filme Seven, de David Fincher, os detectives chegam ao assassino através de uma lista de pessoas que requisitaram certos livros nas bibliotecas. Se não me engano, um desses livros é a Divina Comédia, de Dante.

Neste caso, não é um poema, mas um romance que tem um papel importante no enredo de um filme (conta comigo para ignorar as regras): em A Teoria da Conspiração, de Richard Donner, o protagonista, já não sei bem porquê, é totalmente obcecado pelo livro The Catcher in the Rye, de J. D. Salinger, de que passa a vida a comprar novos exemplares.


quarta-feira, 17 de junho de 2009

Curtas de Verão

No Verão é melhor um livro grande



Ninguém me perguntou nada, mas tenho visto nas livrarias a tradução portuguesa do Oscar and Lucinda, de Peter Carey (Dom Quixote), que li há pouco tempo, e recomendo vivamente. É um romance com dois protagonistas absolutamente singulares (que, por acaso, são ambos jogadores inveterados), e uma intriga cheia de aventuras e reviravoltas, entre as quais se destaca o transporte de uma igreja de vidro através da selva australiana.
[De momento, não vamos falar dos livros grandes que tenho na estante e ainda não li.]


Chás que pareceram boa ideia



A sugestão é não comprar.
(Há quem goste, no entanto.)



Máximas estivais

«He would deal with each problem as it came up or he would die.»
(Misery, Stephen King, p. 87)


The Pedant in the Kitchen



Para maior impacto hiperbólico, cito de um livro de receitas de sopas:
«A mais monótona das sopas pode ganhar nova vida se lhe forem acrescentados pequenos detalhes capazes de lhe conferir um toque de magia e um gostinho inesquecível.»

Em cada canja, uma folhinha de hortelã.


terça-feira, 16 de junho de 2009

La chambre verte


Deste filme não posso esquecer:

- a noite passada por Julien Davenne no quarto verde, depois de recuperar o anel da mulher;
- o cemitério, a tarde em que Julien foi visitar a sepultura da mulher depois de o quarto verde arder (Davenne só se apercebeu de que era altura de regressar a casa de noite, depois de o cemitério fechar, quando já era impossível sair);
- a descoberta da capela dos mortos, nessa mesma noite;
- a primeira visita de Cecilia Mandel à capela dos mortos;
- os mortos de Truffaut/Davenne;
- a visita aos objectos que iam ser vendidos em leilão;
- a destruição do manequim da mulher morta.


Tenho a impressão de que os dois melhores filmes que vi no primeiro semestre de 2009 foram La Vie des Morts, de Arnaud Desplechin, e este La Chambre Verte, de François Truffaut, que passou ontem na Cinemateca.


domingo, 14 de junho de 2009

Museu da luz


Não encontro na Internet uma imagem capaz de evocar o que se sente ao entrar nas salas onde está exposto algum trabalho de Dan Flavin, da colecção Panza, no Museu Berardo.
Já tinha visto peças de Dan Flavin noutros museus, mas entre obras de outros artistas, expostas como se fossem pinturas, partilhando o espaço que devia se ser só seu. Entrar nestas salas só de luz, estar lá dentro, é uma experiência quase transcendental.


terça-feira, 9 de junho de 2009

Gallop apace, you fiery-footed steeds

Romeo and Juliet, Nature Theater of Oklahoma


A ideia de base era simples. Tinha a ver com Shakespeare: a companhia queria descobrir algumas das razões pelas quais Shakespeare ainda é recordado, estudado, representado e amado.
O ponto de partida foi a peça Romeu e Julieta, geralmente o primeiro texto do autor que se estuda na escola ou na faculdade. Foram feitos alguns telefonemas, em que se pediu ao interlocutor que tentasse resumir a intriga da peça, citar algumas passagens de que se lembrasse e explicar o significado de tudo isso para ele.

O texto da peça que esteve em cena no Maria Matos baseia-se, então, nas lembranças ou nas lacunas da memória em relação a esta peça de Shakespeare: personagens (da peça ou não) que se destacam, outras que quase se diluem, partes da história difíceis de recordar, interpretações estranhas do desenlace relacionadas com a morte de Anna Nicole Smith e o 11 de Setembro, memórias escolares, um filme com o Leonardo DiCaprio, vídeos do YouTube ou bocas que se mandam em chatrooms.
Falando com alguém sobre qualquer peça de Shakespeare, obteremos resultados semelhantes. Das peças ficam não exactamente as coisas que estudámos e discutimos na escola, mas os elementos com que nos identificamos mais, nos quais encontramos pontos de contacto com a nossa vida.

Para articularem estes monólogos coloquiais e cheios de hesitações, os actores adoptavam a postura e a dicção dos mais convictos actores shakespearianos. Às vezes também nós nos comportamos assim.


Animais selvagens, animais domésticos





The Problem Fox, de Alexander Sturm



terça-feira, 2 de junho de 2009

A minha Feira do Livro deste ano



Na história da minha vida, 2009 ficará com certeza como o ano em que menos compras fiz na Feira do Livro.
Sem muito tempo livre no mês de Maio, só pude fazer duas visitas ao parque Eduardo Sétimo, ambas em dias pouco agradáveis.
Da primeira vez, no dia um de Maio, estava um calor insuportável e imensa gente: Lisboa em peso estava ali concentrada e penso até que vi ranchos folclóricos, trajados a rigor, com elementos empurrando carrinhos de bebé. Da segunda vez, começou a chover.

Talvez por tudo isto, não achei que a Feira estivesse melhor este ano.
Ainda hoje me pergunto onde estariam os tão publicitados novos equipamentos de restauração que a organização classificou como «diversificados».
Receio bem ser das poucas pessoas a quem a praça Leya não convenceu: será mesmo necessário ter sempre música aos berros para vender livros?
Julgar-se-ia que um dos traços distintivos do conceito de Feira do Livro deveria ser colocar à disposição das pessoas livros interessantes com descontos atractivos. Acho inacreditável que não haja informação organizada sobre os livros do dia propostos pelas várias editoras. Fiquei muito contente por encontrar e comprar a tradução de Paulo Farmhouse Alberto das Metamorfoses de Ovídio com 40% de desconto, mas isto aconteceu totalmente por acaso. Custará assim tanto pedir às editoras uma lista dos seus livros do dia antes do início da Feira e facultá-la aos interessados?
Para que é que a APEL tem um blogue se este não transmite a informação mais importante?


Os corpos que temos

Em princípio, cada ser humano tem uma cabeça com dois olhos, um nariz e uma boca, um tronco, dois braços, duas mãos com cinco dedos cada, duas pernas, dois pés também com cinco dedos, um esqueleto a suportar isto tudo.

No livro Mutantes, Armand Marie Leroi, professor de Biologia Evolucionista do Desenvolvimento no Imperial College de Londres, reflecte sobre o que está na base desta morfologia a partir de casos históricos desviantes e dos mitos que corpos assim provavelmente inspiraram: gémeos siameses, hermafroditas, ciclopes, albinos, anões, gigantes, sereias. As histórias de vida destas pessoas e daqueles que as estudaram funcionam como ponto de partida para explicar as razões de os nossos próprios corpos serem como são:
«Os morfogénios que atravessam o embrião em desenvolvimento fornecem às células uma espécie de grelha de coordenadas que lhes permitem descobrir onde se encontram e, por consequência, o que devem ser e fazer. Uma célula é, assim, bastante semelhante a um navegador que, atravessando os confins do oceano, trabalha com sextante e cronómetro para encontrar a longitude e a latitude do ponto onde se encontra a cada momento.» (pp. 106-107, trad. Jorge Lima)

O livro passou-me pelas mão por razões profissionais. À partida, não me lembraria sozinha de comprar um ensaio sobre este tema. Mas dei por mim perfeitamente deslumbrada com o que estava a ler: não só pelo interesse que a abordagem me suscitou, mas também devido à clareza com que o autor é capaz de explicar aos leigos mecanismos tão complexos.

Em Inglaterra o livro foi tão bem recebido que o Channel Four decidiu fazer uma série a partir dele, apresentada pelo próprio autor. Nós por cá é mais concursos, telenovelas e futebol. Valham-nos algumas editoras que ainda publicam ensaios assim.