«I struggled with some demons/They were middle-class and tame» (Leonard Cohen) | setadespedida@yahoo.co.uk

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Narrativas mesmo micro

Hemingway costumava dizer que o seu melhor texto tinha apenas seis palavras:
«For sale: baby shoes, never worn.»

Aqui há uns tempos, o Guardian propôs o desafio das seis palavras a alguns escritores conhecidos.

Alexandre O'Neill tem uma micronarrativa em forma de poema telegráfico que obedece à regra das seis palavras:
«JORGE / Podes vir. / Mamã, enfim, morta.»

Num destes dias, vi na televisão uma florista que imprime mensagens em pétalas de flores dizer que a frase mais enigmática e intrigante que se lembrava de ter inscrito numa rosa era:
«Só mais cinco minutos.»

Cinco minutos de quê?
A cada um a sua pequena história.

Londres para aficionados

Para quem gosta da cidade ou planeia visitá-la em breve, alguns belíssimos posts no Dias com Árvores , escritos a propósito de uma visita recente:

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Os pássaros de Shakespeare

Via Robotwalrus

É tão raro encontrarmos histórias sobre desejos e sonhos nas televisões e nos jornais, por entre os episódios gratuitos de ganância e violência que por lá abundam. E, no entanto, desejos e sonhos são uma componente importante e por vezes decisiva de todas as vidas.
De Eugene Schieffelin pouco mais se sabe para além do facto de ter libertado sessenta estorninhos europeus no Central Park de Nova Iorque em 1890 e outros quarenta em 1891. Conta-se que Schieffelin agiu movido pelo desejo de que os americanos pudessem ver no seu país todos os pássaros mencionados nas peças de Shakespeare.
Schieffelin terá depois chegado a tentar introduzir piscos, tentilhões, rouxinóis e cotovias nos Estados Unidos, mas sem o sucesso que obteve com os estorninhos. Os descendentes dos estorninhos de Schieffelin são actualmente tão numerosos no país que é bem possível que se tenham tornado mais conhecidos lá do que o próprio escritor inglês que os referiu apenas uma vez na sua obra.
E foi assim que o capricho vagamente literário de um excêntrico alterou a fauna dos Estados Unidos.
Se Schieffelin tivesse feito o mesmo hoje, provavelmente nunca teríamos sabido.


segunda-feira, 16 de junho de 2008

O cão que traz um pau na boca

«Um grande inventor respondeu um dia a quem lhe perguntava como fazia para ter tantas ideias novas:’pensando ininterruptamente nelas’. E de facto bem pode dizer-se que as ideias inesperadas nos vêm porque estávamos à espera delas. São, em grande parte, o resultado conseguido de um carácter, de certas inclinações constantes, de uma ambição tenaz, de uma incessante ocupação com elas. Que tédio, uma perseverança assim! Mas vista de outro ângulo, a solução de um problema intelectual não acontece de modo muito diferente, como um cão que traz um pau na boca e quer passar por uma porta estreita; vira a cabeça para a esquerda e para a direita tantas vezes até que consegue passar com o pau; o mesmo acontece connosco […]; de repente estamos do outro lado, e sentimos claramente um ligeiro desconcerto em nós pelo facto de as ideias terem vindo por sua iniciativa, em vez de esperarem pelo autor.»

O Homem Sem Qualidades, Musil
p. 165 (trad. João Barrento)


Um dos meus passos preferidos até agora.


Moondust will cover you

Num dos feriados, umas cassetes antigas em que não apontei as músicas que na altura gravei deram origem a um difícil jogo de identificação. Por um lado, nomear os intérpretes. Por outro, perceber o que me teria passado pela cabeça ao escolher, há tanto tempo, aquelas faixas.
De repente, dei por mim a pensar que a inesperada combinação poderia estar a revelar-se uma banda sonora adequada ao presente, como se a pessoa que então fui tivesse adivinhado que, anos depois, alguém como ela pudesse vir a precisar de ouvir certas músicas outra vez, naquela ordem, durante um jogo desprovido de consequências.
Noutro destes dias, saí pela primeira vez do cinema antes de um filme acabar. Foi durante Rocco e os seus Irmãos. Depois de duas horas de filme, fiz as contas. Se ficasse na sala, ainda teria quarenta e cinco minutos de gritos e vinganças a suportar. Não estou nada arrependida. Visconti é sobrevalorizado.

[Cravo Bem Temperado, Garbage, Blur, Passengers, David Bowie, Radiohead]


sexta-feira, 6 de junho de 2008

Flutuar, flutuar


Há que reconhecê-lo. Nunca nenhum outro blogue se aproximou tão perigosamente da condição de agregado de lemas e descrições de fim-de-semana: tenho andado ocupada com certas questões teóricas e argumentativas, uma complexa intriga policial que exigiria a presença de Sherlock Holmes para ser deslindada.
Hoje, para variar, proponho este sortido de links.
  • Comecei o primeiro volume de O Homem Sem Qualidades. Digamos que não é propriamente leitura fácil. Esta é para a Cristina:
    «A régua de cálculo: […] um pequeno símbolo que se traz no bolso do peito e se sente sobre o coração como um risco duro e branco. Quando se tem uma régua de cálculo e alguém nos vem com afirmações bombásticas e sentimentos grandiosos, dizemos-lhe: Espere um momento, vamos primeiro calcular a margem de erro e o valor provável de tudo isso!» (p. 69.).

  • A propósito da Feira do Livro, gostei muito da primeira visita do Francisco José Viegas. Como quero sempre saber quem lê o quê, divirto-me todos os dias com os posts «É fazer as contas» do Blogue do JL.

  • No excelente Os Livros Ardem Mal, entre outros posts dignos de nota, este, sobre um Animalário. Ainda sobre animais, ver Domesticated, uma série de fotografias que Amy Stein elaborou a partir de histórias supostamente reais sobre interacções inesperadas entre pessoas e vida selvagem: «We at once seek connection with the mystery and freedom of the natural world, yet we continually strive to tame the wild around us and compulsively control the wild within our own nature. Within my work I examine the primal issues of comfort and fear, dependence and determination, submission and dominance that play out in the physical and psychological encounters between man and the natural world.»

  • Muita curiosidade em relação a um certo livro que se vem anunciando por aqui: Belvedere, Kripp.

  • O que aconteceu ao blogue Bandeira ao Vento: ainda estou em denial.

  • Via Ciberescritas, um conceito interessantíssimo, que até agora, infelizmente, não teve ainda resultados muito entusiasmantes.

Animais com gatos


segunda-feira, 2 de junho de 2008

Fins-de-semana

Bichos

Sobreposições inesperadas entre animais e pessoas na exposição patente na Galeria do Museu Bordalo Pinheiro (Campo Grande, em frente ao Museu da Cidade, entrada grátis).
Gostei especialmente dos quadrinhos de Miguel Branco: figuras antropomórficas com um rosto cujas contorções de tinta escapam ao humano. Diria que vemos assim o rosto das pessoas antes de sabermos que estamos a vê-las.
Para chegar à Galeria, atravessar um corredor exterior encimado por glicínias perfumadas.

Graffiti
Numa das casas de banho do King, ala feminina, um retrato a lápis de Ludivine Sagnier e seis versos de Rilke.
O filme de Chabrol protagonizado pela actriz, apesar de ter um cartaz bonito, não é grande coisa, infelizmente. (O corte de cabelo de Benoit Magimel, valha-me deus.)

Feira do Livro
Para uma História da Alimentação de Lisboa e seu Termo, de Alfredo Saramago e Lendas, de Gustavo Adolfo Bécquer, ambos em saldo na Assírio&Alvim.

Mais do mesmo
Compro o Expresso com a esperança de encontrar informação sobre os filmes do festival de Cannes. Só duas páginas sobre o assunto. Nenhuma referência elucidativa a filmes de realizadores que me interessam (Desplechin, Garrel, Nuri Bilge Ceylan, etc.). Na Revista, dezenas e dezenas de páginas sobre futebol, desde o Euro até Figo. Isto de comprar jornais que só me vendem aquilo que já encontro em toda a parte não leva a lado nenhum.