«I struggled with some demons/They were middle-class and tame» (Leonard Cohen) | setadespedida@yahoo.co.uk

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Lemas de fim-de-semana


Make mistakes faster.
(via An Incomplete Manifesto for Growth, de Bruce Mau)

Imagem: Instalação do artista coreano Do-Ho Suh na exposição Psycho Buildings da Hayward Gallery (Londres)

terça-feira, 27 de maio de 2008

Animais com gatos

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Fins-de-semana

Feira do Livro
Fui no domingo. Muita gente e, hélas!, fila interminável para as farturas.
A diversidade, para mim, é um dos grandes atractivos da Feira. Sou totalmente a favor da liberdade de escolha do modelo do pavilhão. Os pavilhões da Leya, com uma luz estranha e desagradável no interior devido à cobertura vermelha, transmitiram-me, no entanto, a sensação de escassa variedade de títulos disponíveis. O espaço para as pessoas circularem no interior pareceu-me exíguo para tanta gente. O facto de os livros não terem preços marcados também se revelou uma grande falha.
Por outro lado, a D. Quixote estava a fazer desconto de 40% no primeiro volume de O Homem Sem Qualidades e só por isso já merecia um beijinho. Livros do Dia que não interessam a ninguém são um mal desnecessário.
Quanto às minhas compras, para além de Musil, Verão, de Edith Wharton (Relógio D’Água) e dois Nabokov a preços reduzidos: Na Outra Margem da Memória – uma autobiografia revisitada (Difel) e Aulas de Literatura (Relógio D’Água).
Muitas coisas ainda por explorar. Nem sequer me consegui aproximar dos saldos da Assírio&Alvim. No meio da multidão, Pedro Costa e Paulo Rocha, dois heróis do cinema português.

Indiana Jones
Sou fã. O meu preferido é o terceiro. Ainda hoje me comove a sequência que culmina com a descoberta do Graal: o «leap of faith» que Indiana Jones tem a coragem de dar sobre o abismo, a ponte invisível que se materializa sob as botas gastas do herói, o combate inesperadamente fácil com o cavaleiro imortal, os critérios da escolha do cálice.
Em todos os filmes, gosto da arquitectura dos cenários: túmulos, subterrâneos, túneis, passagens secretas, armazéns de acesso interdito. Sigo com muita atenção os momentos em que as personagens decifram instruções, resolvem enigmas e superam provas para chegar àquilo que procuram ou pensam procurar.
Deste quarto filme não saí totalmente decepcionada porque me agradaram a sequência nos armazéns americanos e a breve passagem pela aldeia de testes nucleares, a descoberta e a visita ao túmulo de Francisco de Orellana (decerto com uma versão mais longa a sair em DVD) e todo o percurso pelo templo das caveiras de cristal.
Hitchcock dizia que um vilão tem de ter charme e suscitar um mínimo de empatia, mas tudo indica que poucos foram os que aprenderam a lição. A personagem de Cate Blanchett, caricatural e histriónica, parece-me, neste sentido, totalmente falhada e excepcionalmente irritante. Um filme deste género depende muito da actuação de um adversário bem conseguido, essa guerra não foi ganha aqui e o filme como um todo saiu a perder.

São como as palavras
Já tinha lido sobre elas na blogosfera. Vi depois umas pessoas na televisão numa espécie de festival de cerejas no Porto, comentando os preços:
- Encontrei a dois euros e cinquenta num hipermercado. Comprei um quilo por cinco euros no Bulhão.
Uma senhora a dizer que ia comer sozinha uma caixa de cerejas inteira, depois de as fotografar e enviar as imagens para o Brasil.
Comprei a três euros e trinta, aqui em Lisboa, no sábado, enquanto uma adolescente, chocada, interpelava outra que usava a balança no supermercado:
- Vais gastar todo o dinheiro que tens em cerejas?

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Lemas de fim-de-semana

Uma questão de palavras, de fonte, de pele e de parte do corpo




Dickens, Kurt Vonnegut, Bjork, uma definição retirada de um dicionário, Leonard Cohen, Dylan Thomas, Harper Lee (To Kill a Mockingbird), e muito mais:

Na imagem, uma belíssima citação de Jeanette Winterson.

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Un sandwich e un po’d’indecenza

Estive sem Internet. Quando a linha telefónica voltou já havia nova data para a Feira do Livro. Come mi Vuoi? e Lupi Spelacchiatti, do disco Tournée, em repeat, vou compondo mentalmente uma lista incompleta de compras a fazer: Musil, catálogo Griffith da Cinemateca, Deszo Kosztolányi, livro sobre aves de Lisboa…
Para quem estiver sem ideias e gostar de grandes narrativas com presença forte da natureza e do inumano, duas sugestões: A Saga de Gösta Berling, de Selma Lagerlöf, e Gente Independente, de Halldór Laxness, ambos da Cavalo de Ferro. Não são saídas recentes mas não deviam ser esquecidos.
Amanhã é feriado. Como não sou grande espingarda a italiano, percebo só algumas coisas que o Paolo Conte diz. Invento o resto.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Colecção de mãos

Não sendo um dos filmes de Hitchcock que prefiro, The Man Who Knew Too Much (1956) tem alguns momentos absolutamente geniais.
Uma das sequências mais inesperadamente belas do filme desenrola-se no mercado de Marraquexe. A dada altura, por entre o caos de comerciantes, carregadores, marroquinos e turistas de várias nacionalidades, chama a atenção das personagens uma perseguição. Apesar de inicialmente ser observada ao longe, esta desordem vai-se aproximando gradualmente dos protagonistas, a ponto de, depois de ser atingido nas costas com uma faca, o perseguido vir, inesperadamente, morrer nos braços de James Stewart, que só tem tempo de lhe amparar o rosto com as mãos.

A relação dos protagonistas com o incidente vai-se tornando cada vez mais próxima. No momento em que tenta pousar o incómodo corpo, James Stewart reconhece o homem, apesar de este aparecer disfarçado com trajes marroquinos e de ter o rosto coberto com maquilhagem.
É um momento imprescindível para a progressão narrativa do filme: antes de morrer, a vítima, que afinal é um espião, revela um segredo de de que dependerá toda a restante acção do filme. Nestes momentos cruciais, Hitchcock, no entanto, não hesita em recorrer a planos absolutamente destituídos de qualquer contributo especificamente narrativo.

As mãos de James Stewart sujas de maquilhagem, a mancha azul nas costas da mão do espião,

destacam-se como fragmentos desarticulados da continuidade da acção, manchas vazias, gratuitas, episódios sensoriais que captamos antes de percebermos exactamente para que servem, o que são.

Pouco depois, neste filme, já em Londres, também gosto muito da visita de James Stewart ao taxidermista, toda uma sequência desnecessária do ponto de vista da progressão narrativa.

Interpretando mal uma indicação, James Stewart, em busca de informações sobre o filho sequestrado, faz uma visita a uma pessoa que depois descobre ser o proprietário de um estabelecimento de taxidermia. A troca de mal-entendidos que se processa no estranho espaço, com os animais empalhados e as movimentações dos funcionários em pano de fundo, é absolutamente hilariante. A dada altura, proprietário e funcionários começam a desconfiar do inocente James Stewart e a discussão intensifica-se.

James Stewart, ainda mais confuso do que antes, vê-se obrigado a fugir. A acção principal do filme pode, então, prosseguir.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Always thinking about food


Glen Baxter move-se com grande frequência num universo de personagens de rosto relativamente inexpressivo, envergando roupa de tweed, de cowboy ou de explorador, mas grandes conhecedoras de teóricos da literatura polémicos, de profundas problemáticas da filosofia e de escritores perturbadores como Kafka.
Perante a associação inesperada entre texto e imagem nestes cartoons, é fácil darmos por nós a tecer relações vagamente duvidosas a partir de outras coisas que conhecemos (não só textos e imagens), a inventar histórias incongruentes, ainda que com remotas possibilidades de ocorrrência.



A mim, a fome da rapariga francesa deste cartoon sempre me fez recordar a voracidade sanguinária da menina do quadro de Magritte. Depois de descobrir que Glen Baxter é um grande admirador do pintor surrealista belga nunca mais deixei de acreditar que podia ser a mesma personagem, apenas mais velha, mais gorda, mais mal vestida e algo desorientada.


Gostar de pássaros a ponto de os ingerir crus nunca há-de levar ninguém muito longe, parece-me.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

H is for Hitchcock

O adjectivo «idílico» é frequentemente usado em referência ao trabalho de Susan Homer. Os comentadores gostam de falar da sua visão idealizada do mundo e da vida doméstica.
Por mim, não capto necessariamente harmonia nas telas desta artista. Nos passarinhos que segundo alguns suscitam empatia da parte do observador vejo apenas um elemento disruptivo e até um pouco ameaçador. Desde quando costumam os pássaros tomar chá?


A improvável relação entre pássaros e chávenas está presente tanto no conto «The Birds», como no filme com o mesmo título que Hitchcock realizou a partir do texto de Daphne du Maurier.
Numa das sequências mais belas do filme, depois do ataque de pássaros na festa de anos de uma criança, tem lugar um novo ataque, desta vez dentro de casa. Acontece repentinamente, logo depois de uma das personagens reparar numa amorosa avezita saltitando junto à lareira.

Apesar de esta visita lhe causar alguma estranheza, a personagem não tem tempo sequer para a manifestar. Descendo pela chaminé, uma nuvem de pássaros invade a sala, cercando e atacando com violência todos os seres humanos que se encontram lá.
Depois do ataque, a dona da casa tenta devolver a ordem à habitação, recolhendo com muito cuidado todos os fragmentos das chávenas, um a um.

No dia seguinte, a mesma personagem tem de visitar um vizinho. Como ninguém lhe responde quando bate à porta, decide avançar. Antes de percorrer um corredor longo e sombrio para encontrar aquele que procurava morto e de olhos vazados por pássaros, descobre o primeiro índice da desordem em que os pássaros deixaram a casa na cozinha, logo à entrada.


No conto de Daphne du Maurier, a visão das chávenas e a arrumação da cozinha ajudam o protagonista a acalmar-se depois do combate nocturno com os pássaros que tinham invadido o quarto dos filhos The sight of the kitchen reassured him. The cups and saucers, neatly stacked upon the dresser, the table and chairs, his wife’s roll of knitting on her basket chair, the children’s toys in a corner cupboard).
Tanto no texto como no filme, as chávenas funcionam como elemento associado ao humano, e os pássaros como elemento que introduz o caos, revelando a ausência de racionalidade e de sentido no universo.
Um dos passos mais inesquecíveis do conto tem a ver com o primeiro confronto do protagonista com esta força inumana incompreensível e incomensurável, ao ponto de diluir as coordenadas espácio-temporais:


«How long he fought with them in the darkness he could not tell, but at last the beating of the wings about him lessened and then withdrew, and through the density of the blanket he was aware of light. He waited, listened; there was no sound except the fretful crying of one of the children from the bedroom beyond. The fluttering, the whirring of the wings had ceased.»

Há qualquer coisa neste passo da luta entre Jacob e o Anjo.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O prazer, essa luta

Struggle for Pleasure é o título de uma faixa da banda sonora do filme Belly of an Architect, de Peter Greenaway. Como se não bastasse ter mais bandas sonoras de filmes de Peter Greenaway no computador do que seria saudável, passo a vida a ouvi-las em repeat. Esta manhã, há que reconhecê-lo, tem sido particularmente crítica.
Já nem me lembro da última vez em que vi um filme de Peter Greenaway numa sala de cinema, embora os filmes deste realizador sejam feitos a pensar num écran de cinema e não de televisão. Parece mentira, mas a partir de hoje, vai mesmo ser possível ver numa sala de cinema portuguesa o filme Nightwatching – A Ronda da Noite, inspirado pelo famoso quadro de Rembrandt.
É aproveitar, que não acontece todos os dias.
(Em Lisboa, no Alvaláxia e no Saldanha Residence.)

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Mas não há como ter um jardim

Numa leitura rápida da lista das melhores frases de encerramento de romances proposta pela American Book Review (e recordada aqui), dou por mim a gostar mais de algumas escolhas referentes a livros que ainda não li, todas elas em tom menor e autodepreciativo:

22. YOU HAVE FALLEN INTO ART —RETURN TO LIFE –William H. Gass, Willie Masters’ Lonesome Wife (1968) [Esta é a minha preferida.];

31. Now everybody— –Thomas Pynchon, Gravity’s Rainbow (1973);

45. Are there any questions? –Margaret Atwood, The Handmaid’s Tale (1986);

51. So I mean listen I got this neat idea hey, you listening? Hey? You listening…? –William Gaddis, J R (1975);

57. "All that is very well," answered Candide, "but let us cultivate our garden." –Voltaire, Candide (1759; trans. Robert M. Adams).

Num destes dias vi citadas algures as últimas palavras de The Gathering, de Anne Enright, romance vencedor do Booker 2006, e também gostei muito. Não deixa de ser curioso notar como se articula com o fim do romance de William H. Gass:

"[…] because you are up so high, in those things and there is such a long way to fall. Then again, I have been falling for months. I have been falling into my own life, for months. And I am about to hit it now."

terça-feira, 6 de maio de 2008

Animais com gatos


segunda-feira, 5 de maio de 2008

Animais pouco reais

Houve um tempo em que acreditámos ser possível viver sem nunca ter os pés assentes no chão. O próprio Lineu, pai da taxonomia moderna, deixou um sinal dessa percepção.
A primeira vez que um europeu viu uma ave-do-paraíso foi em África, no início do séc. XVI, por intermédio de um comerciante dessas paragens. As aves-do-paraíso tornaram-se famosas porque os povos africanos as usavam como moeda de troca em transacções comerciais com os navegadores que frequentavam essas rotas em busca de especiarias.
Apesar da magnífica plumagem que os machos da espécie ainda hoje ostentam, os comerciantes africanos de então, pensando que os poderiam tornar ainda mais belos e valiosos aos olhos europeus, cortavam as patas a todos os exemplares que disponibilizavam. Foi assim que entre os europeus destes tempos se passou a acreditar que estes pássaros deveriam ser próximos da divindade, talvez até seus intermediários, pois, não tendo patas, não poderiam pousar na terra e fazer parte dela.
Muitos séculos passaram até um europeu conseguir observar um exemplar vivo e intacto desta espécie tão tímida e difícil de localizar. A designação Paradisea apoda foi-lhe atribuída por Lineu apenas a partir dos exemplares conhecidos através destes intermediários.
Apoda significa «sem pés». Mesmo Lineu terá acreditado na possibilidade de estas aves serem seres exclusivamente do ar. Hoje em dia, porém, ao contrário de Lineu, nós não só já não acreditamos ser possível viver sem nunca ter os pés assentes no chão, como partimos quase sempre do princípio de que, se nos oferecem coisas belas, é bastante provável que lhes tenham previamente mutilado os membros inferiores, de modo a retirar-lhes as pernas para andar.

 

domingo, 4 de maio de 2008

Jogos de fim-de-semana: quem é o autor?

Night is generally my time for walking. In the summer I often leave home early in the morning, and roam about fields and lanes all day, or even escape for days or weeks together; but, saving in the country, I seldom go out until after dark, though, Heaven be thanked, I love its light and feel the cheerfulness it sheds upon the earth, as much as any creature living.
I have fallen insensibly into this habit, both because it favours my infirmity and because it affords me greater opportunity of speculating on the characters and occupations of those who fill the streets. The glare and hurry of broad noon are not adapted to idle pursuits like mine; a glimpse of passing faces caught by the light of a street-lamp or a shop window is often better for my purpose than their full revelation in the daylight; and, if I must add the truth, night is kinder in this respect than day, which too often destroys an air-built castle at the moment of its completion, without the least ceremony or remorse.

Se não conhecesse bem o livro de que estes parágrafos foram retirados, a referência às visões do caminhante solitário que narra, avançando pela noite à laia de terapia, far-me-ia pensar em Sebald, mais especificamente em Austerlitz.
Erraria no autor por cerca de dois séculos.
É com estes parágrafos que abre o primeiro capítulo do magnífico Old Curiosity Shop, que Charles Dickens foi escrevendo e publicando entre 1840 e 1841.
Segundo Peter Ackroyd, o próprio Dickens tinha por hábito fazer longas caminhadas à noite, sobretudo quando estava a escrever a romances. Era assim que desenvolvia as personagens e a intriga, alcançando um cansaço capaz de lhe quebrar resistências mentais e físicas e de desencadear uma espécie de pacificação que lhe permitiria depois não só a escrita mas também algum merecido descanso.
Para os incautos que também pensem em ler Dickens: o grande problema é conseguirmos interessar-nos por qualquer outro autor de ficção enquanto houver romances de Dickens para ler.
Falo por mim: li nos últimos meses cinco romances do autor. Parece-me que não vou ficar por aqui.

sábado, 3 de maio de 2008

Hoje


Caravana é um livro do Rui Amaral e uma edição Angelus Novus.
Be there.